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City of God e o cinema nacional
Afinal, o cinema brasileiro ganha algo com as indicações ao Oscar de Cidade de Deus?

Até quem nunca teve a oportunidade de entrar numa sala de cinema e aqueles que jamais tiveram paciência para acompanhar cinco minutos da cerimônia de entrega do Oscar comemoraram a indicação de Cidade de Deus, ou melhor, City of God, para quatro categorias do principal prêmio da indústria cinematográfica. A conquista seria mais valiosa do que a vitória daquela seleção de futebol (de onde eram os caras, mesmo?) sobre o Brasil nas eliminatórias das Olimpíadas 2004. Primeiro, porque os "principais" diretores, produtores e financiadores do país estão convencidos de que a redenção do cinema nacional depende diretamente da obtenção da estatueta. Depois, porque uma vitória no campo do inimigo seria um alívio ao incurável complexo de inferioridade brasileiro.

Claro que para chegar lá foi preciso jogar ao estilo americano. Após a frustrante não-indicação ao prêmio de Melhor Filme Estrangeiro no ano passado, a Miramax (responsável pela distribuição internacional) relançou o filme no mês de novembro, iniciando uma campanha pesada para colocar Cidade de Deus na briga pelo Oscar. Os empecilhos causados pelas legendas e a negação à narrativa clássica - características raramente perdoadas pela Academia - foram vencidos pelo faro mercantil do chefão da distribuidora, Harvey Weinstein.

Mesmo não tendo adquirido nenhum dos prêmios a que concorreu no dia 29 de fevereiro, o filme passou a ocupar um posto excepcionalmente privilegiado na história do cinema tupiniquim. Em outras palavras: nos próximos anos, Fernando Meirelles não vai saber onde enfiar tanta grana.

Antes mesmo do relançamento nos cinemas, agilizado apenas dez dias após a divulgação dos indicados ao Oscar, Cidade de Deus já apresentava cifras apetitosas. Nos Estados Unidos, faturou mais de US$ 4,7 milhões. No Reino Unido, foi o terceiro filme em língua não-inglesa mais visto. Aqui, havia atraído mais de 3,3 milhões de espectadores, vendido 50 mil fitas e DVD's para locadoras e 23 mil unidades domésticas. De quebra, a série global Cidade dos Homens foi estendida para mais três temporadas e deve ser transformada em longa-metragem em 2007.

Chacina fashion

Agora a pergunta chata: o que o Brasil ganhou com esse lançamento, além da chance de faturar os bibelôs dourados? A discussão teve início na ocasião do (primeiro) lançamento de Cidade de Deus e continua reverberando no meio acadêmico e entre a crítica especializada. Muitos cobraram a ausência de um engajamento social no filme, esquecendo que essa preocupação não chegava a existir no livro que deu origem à produção, assinado por Paulo Lins. Equívocos à parte, os detratores acertaram em alguns pontos.

O público local se esbaldou com a violência estilizada, que ainda é uma novidade na cinematografia brasileira. Mas, ao contrário do que os olhos possam sugerir, Cidade de Deus não traz nada de inovador, nem contribuirá de forma efetiva com o fortalecimento de nossa indústria. Meirelles não amplia as perspectivas limitadas do cinema nacional e evita cometer maiores ousadias. O diretor é cauteloso até mesmo quando recorre a recursos já desgastados, como aquelas famosas "idas e vindas" de roteiro. Enquanto Tarantino utiliza-se da narrativa não-linear para confundir o espectador, Meirelles serve-se do artifício para contar sua historinha da maneira mais didática possível.

Mais inquietante é o emprego da exclusão social. Seguindo a tendência de filmes como Central do Brasil (também indicado ao Oscar), Cidade de Deus reforça lugares comuns e preconceitos sobre nosso povo, com o objetivo de garantir o fascínio do espectador estrangeiro. Exatamente o que os colonizadores esperam ver.

Como disse Glauber Rocha em 1965, na famosa tese Uma Estética da Fome: "Para o observador europeu, a produção artística do mundo subdesenvolvido só interessa quando satisfaz sua nostalgia do primitivo". No mesmo texto, o finado cineasta arremata: "Nem o latino comunica sua verdadeira miséria ao homem civilizado, nem o homem civilizado compreende verdadeiramente a miséria do latino".

Ramiro Pissetti