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Vivendo no caldeirão
João Antônio
flagrou os momentos iniciais de um desastre chamado Cidade de Deus
Não
é tarefa fácil descobrir o ponto em que tudo desanda e
as coisas passam a não dar mais certo. A próxima cerimônia
do Oscar, dia 29, vai reconhecer os esforços do diretor Fernando
Meirelles e de sua competente equipe que fizeram de Cidade de Deus
um registro de processo de decadência de algo que começou
como projeto emergencial de habitação e virou um Inferno
instalado bem no meio do Rio de Janeiro. Não é novidade
que a base do filme foi o livro de mesmo nome do intelectual e ex-morador
do local Paulo Lins, que se de início reclamou da adaptação
da obra, mais recentemente passou a reconhecer os méritos inegáveis
do longa-metragem. As duas obras, livro e filme, foram feitas quando
qualquer boa intenção inicial por trás do conjunto
habitacional já havia entornado, o tráfico barra pesada
já tinha demarcado posições e grupos rivais empregado
uma guerrilha urbana de proporções colombianas (ou irlandesas,
ou biafrenses, ou sicilianas... escolha você mesmo o padrão).
Mas, se a possibilidade de importação de pelo menos uma
das quatro estatuetas a que o filme concorre no próximo domingo
desperta sua atenção para o tema, é possível
encontrar documentação anterior a essa história
toda, quando as primeiras casas e apartamentos estavam saindo do papel,
os traficantes ainda não haviam se estabelecido, o lugar era
endereço de apenas algumas centenas de famílias. Mas já
existiam sinais de que a coisa não ia dar certo.
O
grande malaco João Antônio lançou em 1976 um livrinho
modesto, chamado Casa de Loucos, uma reunião de textos
breves: perfis, entrevistas, ensaios, crônicas. Uma das reportagens,
"Testemunho sobre Cidade de Deus", foi feita cinco anos antes,
na manhã seguinte ao Natal de 1971, se for para sermos precisos.
O que ele encontrou foi um aglomerado de residências que dividiam
seus moradores em três castas: a mais favorecida habitava os apartamentos
do local, a média vivia em casas e os mais ferrados se viravam
em barracos "provisórios" nas chamadas triagens. Como
era de se esperar desse jornalista exemplar, ele encontrou seus personagens
nessas últimas áreas, as mais prejudicadas da Cidade de
Deus, abrindo o texto com rápidos perfis de sete moradores desses
locais que "fedem mais e são piores que favela", conforme
escreveu. "Isso, na palavra de todos os moradores do conjunto,
ex-favelados, dos entendidos e até dos acostumados, que tem gente
vivendo lá há anos".
Como
projeto habitacional propriamente dito, a Cidade de Deus nasceu em 1965,
filha de uma ditadura recém-empossada. Mas já no começo
do ano seguinte começou a desandar ao ter que atender emergencialmente
desabrigados das enchentes que destruíram favelas cariocas (ao
todo, cerca de 1,2 mil famílias, que antes foram abrigadas no
Maracanãzinho). Grandiloqüente como tudo mais no que dizia
respeito a projetos dos milicos, conjuntos daqueles moldes deveriam
ser a solução definitiva para as favelas da ex-capital
federal, e em 1971 o jornalista já apurava que a promessa era
que até 1975 a Rocinha, por exemplo, com suas, na época,
15 mil famílias, seria totalmente transferida. Sem comentários.
Deu no que deu: as favelas continuaram e a Cidade de Deus virou um escoadouro
de gente, sem infra-estrutura, sem postos médicos, sem
tratamento de lixo, longe de tudo e sem transporte coletivo decente.
E, ainda por cima, com um forte caráter desagregador. "Nas
triagens, devido à mistura, dividiu-se a massa de favelados,
sumiu certo respeito e sendo de família ou comunidade que a favela
impõe, estabelece e até exige, de pronto. São casinhas
de um quarto só, com banheiro conjugado ou dois quartos, em número
menor. Teoricamente seria um local de abrigo provisório de ex-favelados.
A verdade é que gente se arruma ou se aperta, mora, se espreme
há anos. Começa ficando, vai ficando e fica. O pior é
a falta de higiene. Mas há ainda a insegurança diante
dos furtos, assaltos e ataque às mulheres". O aviso havia
sido dado com larga antecedência: o palco para Zé Pequeno
estava sendo montado sistematicamente.
O que impressiona no texto é o
poder de síntese desse seguidor convicto de Lima Barreto. Em
apenas 14 páginas ele monta um cenário que não
dava espaço para outra conclusão: algo que começou
tão errado não tinha como ter outro destino diferente
do que todos vimos nas telas do cinema. Falando em síntese, nem
é b
om
comparar o texto de João Antônio com o calhamaço
de Paulo Lins, que mesmo depois de cortar algumas das várias
passagens redundantes do texto original, para a reedição
especial após o lançamento do filme, ainda ficou com pouco
mais de 400 páginas. Casa de Loucos é bem mais
compacto, seus 12 capítulos cabem em módicas 152 páginas,
dando tempo de ler tudo antes de começar o desfile de vencedores
e perdedores do Oscar. Apesar de não ser tão fácil
de encontrar o livro, já que ele ainda não foi incluído
nas reedições que a Cosac & Naify tem feito da obra
do autor. Minha edição, a quarta, saiu pela Rocco em 1994,
pouco antes da morte do autor. Além de "Testemunho da Cidade
de Deus", o leitor leva de bônus outros grandes achados do
jornalista e escritor, como a matéria que dá nome ao livro,
sobre um dia em um sanatório na Tijuca (onde o próprio
autor passou um tempo recolhido, em 1970). Pode ainda aproveitar o perfil
de Nelson Cavaquinho e análise da obra de Noel Rosa, exemplos
de um tempo muito melhor na cultura nacional, que podem deixar o leitor
com a impressão de que tudo desandou e as coisas passaram a não
dar mais certo em vários sentidos neste país.
Romeu Martins
Imagens da Cidade de Deus
hoje: www.ecopop.com.br