Entrevista

"As gravadoras preferem perder dinheiro a perder a pose"
Computadores fazem arte e artistas fazem dinheiro, enquanto o mundo livre s.a. faz política sem perder o suingue

Fred 04 é um cara pacato. Com a voz um pouco rouca, pede um conhaque e vai falando baixo, conservando o que resta da voz para o show de logo mais. E em pouco mais de uma hora fala d'O outro mundo de Manoela Rosário, o quinto disco da banda (leia a resenha), dos novos caminhos que ele abre, mas também dos outros discos e das ingerências da gravadora, das trapalhadas "dos caras" da indústria fonográfica, do jabá, do clipe-documentário que foi apagado sem querer pelo Multishow, da sonzera que andam ouvindo, como DJ Dolores, Gotan Project, Orishas e Re:combo. Com a voz mansa, 04 mostra como ainda dá para refazer - e muito - com a música, tirar dela algo mais que riffs fáceis e letras grudentas, ou, para ficar com suas palavras, sair do sexo, drogas e rock n' roll. Fazer música, expressar idéias usando a cabeça. Por incrível que pareça, isso é raro na música brasileira de hoje. A entrevista - regada a um chope cremoso que tem ali perto do Teatro Rival (onde rolaram os shows), no centro do Rio de Janeiro - aconteceu em setembro de 2003, quando da passagem do mundo livre s/a pela cidade para lançar o disco novo.

Bruno Dorigatti - Como é que tá o movimento de Recife, do mangue, o pessoal que começou há dez anos? Como é que tá hoje?
04 - Lá nas ruas continua uma coisa super presente, efervescente, até porque pela primeira vez tem uma prefeitura do PT lá - entrou em 2001 - e a Secretaria de Cultura assumiu que essa cena musical foi importantíssima para essa mudança política. Contribuiu com todo um discurso diferente na música e na atitude dos jovens de periferia. Por exemplo, esse ano [2003] nas escolas públicas municipais é o ano letivo dedicado a Chico Science. Então o próprio poder público tá incentivando, com cartilhas. As bandas das escolas públicas estão tocando maracatu, ciranda, música de Chico Science, coisa que não rolava. E é muito louco, porque isso tudo é a despeito da mídia local, que continua dominada pelo forró brega pasteurizado. Os festivais continuam na ativa, o Recbeat, o Abril Pro Rock. Agora tem um negócio que afeta pra caralho que é o fato que nada funciona sem a economia, e a economia da cidade é foda. A média de desemprego no país é de 13%, o que já é alarmante. Na região metropolitana do Recife é mais de 26%, o mesmo índice da grande depressão americana de 1929. É uma guerra que rola lá em cima e isso reflete em tudo. Mas tem o lance da tecnologia, do desmonte da indústria fonográfica, que abre um fato interessante e positivo. Desde o meio do ano passado, a cena entrou numa nova fase a nível industrial porque está deixando de exportar talentos, mão-de-obra, grupos, pra exportar produtos.

Marcelo Ceará - Isso que até um tempo atrás o pessoal ia mixar em Nova York, no exterior.
04 - O Por pouco, disco anterior, foi mixado em Los Angeles, porque se tinha um padrão preconcebido de demanda radiofônica, que tinha que obedecer a determinados padrões técnicos. Hoje em dia isso acabou, abriu-se um vácuo no modelo que abre milhões de alternativas. No disco a gente tentou refletir isso, o que pode ser a música brasileira agora que a indústria está em xeque. Daí tem uma tentativa de dialogar com o cinema, com a literatura.

BD - Esse lance da reportagem, da narrativa ficcional já vinha ocorrendo, mas neste último disco fica mais claro, ocupa mais espaço. Como é isso?
04 - Acho que como foi o primeiro disco da gente gravado fora do esquema de escala industrial - porque mesmo que você esteja num selo pequeno como era o Excelente, o Banguela, quem bancava e financiava era uma gravadora [no caso, a Polygram e a Warner, respectivamente], com esquema industrial, você tinha período para terminar, uma quantidade de horas de estúdio alugada, data pra entregar a master - a gente teve total autonomia, não tinha data pra acabar, data pra lançar, não tinha que ficar concentrado no estúdio. A gente não cancelou agenda de shows, o esquema foi totalmente outro. Tinha tempo, por exemplo, essa música tá grande, vamos diminuir um pouco a letra. Não, foi um disco onde rolou um discurso mais solto. Outro dia tava dando entrevista e o cara comentou uma história que me faz cair uma ficha: "Eu sei que não é uma coisa consciente, mas identifiquei umas coisas de Raul Seixas dos anos 70". Engraçado, porque não é a primeira vez que comentam esse tipo de coisa. Lembro que eu tinha 11 anos em 1973 quando a música mais tocada naquela época era "Ouro de Tolo", uma música que não tem refrão, era uma métrica totalmente maluca, um protorap, fora do contexto de qualquer tipo de padrão de canção da época. E estourou, tinha todo uma ânsia por causa da ditadura e Raul chutou o pau do milagre econômico, do corcel 73, e sem refrão, sem melodia, sem porra nenhuma, entende? E é óbvio que isso fica no inconsciente. E aí esse disco foi onde isso refletiu mais solto. A música no Brasil já teve um papel muito importante culturalmente e que se perdeu de umas décadas pra cá, virou só entretenimento sem nenhum compromisso social, sem porra nenhuma.

MC - E tem esse lance dos personagens, da Manuela Rosário...
04 - Pô, velho, eu tô realmente muito surpreso com a acolhida que esse disco está tendo de crítica e público. Ontem [sexta, dia 19/9/03, primeiro show no Rio] já tinha nego cantando algumas músicas. Eu achava que ia ser um choque do caralho, porque esse disco é o projeto mais ambicioso que a gente já teve. O Miranda [Carlos Eduardo, produtor dos três primeiros discos da banda], quando ouviu disse: "Fred enlouqueceu de vez, pirou de vez, não vai chegar em lugar nenhum". E eu achava que, pelo menos a curto prazo, ninguém ia entender nada, ia ser um troço muito complicado, para aos poucos o pessoal ir assimilando. Eu falo que é um negócio muito ambicioso porque a gente pretendeu inventar linguagens diferentes, um troço que não seja nem música, nem literatura, nem cinema, nem discurso, mas fosse uma mistura de tudo isso. E ontem foi massa, deu tudo certo. A única coisa que não deu certo foi que a gente alugou um telão pra rolar o clipe de Xicão e deu a maior merda. A gente trouxe uma fita beta com o clipe e emprestou pro pessoal do Multishow - a gente fez uma matéria e eles queriam encaixar trechos do clipe - cara, apagaram o clipe.

MC - Mas tem outra fita?
04 - Não, tem lá na produtora em Recife e a gente trouxe pra entregar pra gravadora e os caras apagaram o clipe. Porque é um clipe-documentário, tem uma coisa de linguagem totalmente experimental, que é uma parceria com uma ONG [TV Viva], que a gente fez um clipe-documentário com anos e anos de imagens.

MC - Com imagens do Xicão Xucuru?
04 - O próprio cara falando que tava sendo ameaçado. E aí o cara disse: "Não, a gente viu um documentário lá no final e...". E devolveram o lance sem o nosso clipe. Era uma fita da Candeeiro [nova gravadora da banda, de Recife] que tinha no início um clipe do Matalanamão, e os caras pensaram que era um documentário e vacilaram e o cara acabou apagando a fita.

Clarissa Pivetta - Quando foi gravado?
04 - Tem cinco anos de imagens. Então a gente inventou um negócio aí. Quantas e quantas produtoras independentes estão há anos e anos fazendo imagens sobre determinados temas de contra-informação e sempre permanece restrito a determinados guetos de circuitos alternativos de curtas, festivais ou circuito universitário, e não conseguem romper, não conseguem dialogar socialmente? E aí se você faz uma música inspirada naquilo ali, já tem um banco de imagens incrível pra ser um clipe. Você consegue fazer com que aquilo dialogue com outros canais. E aí quando vi o documentário sobre Xicão eu pirei. Esse cara é um tema maravilhoso pra uma música, ao mesmo tempo você já tem ali um banco imenso de imagens, que já tem um clipe quase pronto, entendeu? Então você vê, a música poderia estar servindo pra isso. Se depender da gente, todas as músicas desse disco vão ter clipes genéricos, nem que eu mesmo tenha que fazer. E esse clipe é genérico também no sentido que a gravadora, a distribuidora e a banda não gastaram um tostão. E a produtora adorou a oportunidade de ampliar a possibilidade de repercussão, porque eles já vêm investindo há anos e nunca conseguiram romper aquele circuito. Então é genérico nesse sentido, agora se tu vê as imagens, véio, tão fuderosas.

CP - Quando é que a gente vai poder ver isso?
04 - A gente brincou até que tem uma mística em torno desse clipe, acho que o Xicão está mexendo os pauzinhos pra que isso não seja jogado de qualquer forma. Tanto que a gente levou uma primeira versão pra Europa e não conseguiu exibir nem na Suíça - porque a gente levou em VHS e lá a bitola é outra -, nem em Paris, na Festa da Música. Estava tudo certo pra exibir, com a aparelhagem de um brasileiro, e era uma primeira versão meio tosca, as imagens não estavam muito bem trabalhadas. E aí na hora o cara cancelou porque tinha gente demais e era aberto ao público, ele ficou com medo de segurança e tal do equipamento e acabou cancelando. E aqui, quando a gente traz o troço em beta - o cara que fez a edição virou a noite e levou cedinho no aeroporto disse: "É uma versão que dá pra rolar no show, mas ainda queria que não liberasse pra tv, porque ainda tem algumas falhas". Aí a gente liberou pra Multishow e os caras apagaram, véio. Acho que Xicão tá mexendo os pauzinhos pra ser um grande lançamento. Então vai ter uma hora certa.

MC - É legal porque além de ser uma história fascinante, estava meio escondida. Pra mim, pelo menos, tá sendo revelado pelo disco.
04 - Saiu um relatório da Justiça Global [ONG que faz relatórios no mundo todo sobre violência policial] onde o Brasil é um dos recordistas de assassinatos por policiais. E tem uma parte da matéria que diz assim: "E o pior é que não é só nas cidades. No campo os casos também são muitos", e aí cita o exemplo de Francisco de Assis Araújo, o cacique de Xucuru. E é muito louco porque nos jornais de Recife - isso é a poucos quilômetros, é no agreste, não é nem no sertão - as matérias que saem são totalmente desvirtuadas, são manipuladas porque envolve interesse de gente muito poderosa da região. Então a TV Viva [realizadora do documentário] tá vibrando com isso, a gente tá mexendo em algo como se fosse o Twin Peaks de lá, porque ninguém pode tocar no assunto, são sobrenomes poderosíssimos.

BD - E o que pode ser feito contra esse descaso que se tem contra os direitos humanos no Brasil? [nesse momento chega Marcelo Pianinho, percussão]
04 - Acho que não tem uma fórmula. Um método que a gente acredita - e aí é por isso que a gente tá viajando muito na história desse clipe - é justamente inventar caminhos diferentes. É como aquela história: o movimento estudantil se desgastou e ninguém consegue mais mobilizar ninguém na universidade usando os mesmos métodos panfletários, com os mesmo chavões e mesmas expressões porque tá tudo muito desgastado. O grande lance desse clipe é isso, porque usa uma via diferente pra tocar em determinados pontos. E aí que o Miranda veio com aquela história "esse cara pirou de vez" porque se convencionou que a música pop não tem que tratar de determinados temas, porque rock n' roll é outra história, é sexo, drogas e rock n' roll. Mas uma das bandas referências minhas sempre foi The Clash e um disco de referência pra mim é Sandinista, e eu não sabia nem quem era o Sandino quando o The Clash lançou o disco em 1981. E foi uma banda de rock que trouxe aquilo pra mim. E hoje acontece a mesma coisa. Sei que uma repórter da Caros Amigos foi pra Chiapas fazer uma matéria sobre os zapatistas há algum anos e cita no texto que foi uma música do mundo livre sobre o subcomandante Marcos, "Desafiando bombas" [do segundo disco Guentando a ôia], que a despertou para essa questão zapatista. E me orgulho disso, acho que quanto mais criativo você consegue ser nos caminhos que você escolhe pra abordar esses temas, mais você consegue ampliar a discussão.

BD - Ainda trabalha com jornalismo?
04 - No Fórum Social 2003 trabalhei para a Agência Carta Maior, que tinha conseguido patrocínio com vários fundações para fazer a cobertura do fórum e aí, como eu já me correspondia com eles, passei seis meses como correspondente da ACM em Recife, só mandando matéria de casa mesmo, sobre a política local. Algumas revistas às vezes encomendam uma matéria, e eu faço, mas jornalismo diário, tô fora. Ontem mesmo eu tava vendo uma manifestação na Cinelândia dos camelôs. O cara foi no ponto, inclusive pedindo para os companheiros pararem de hostilizar os repórteres, fotógrafos, porque na verdade é tudo pau mandado, o repórter está ali fazendo o trabalho dele. E eu já vi casos de acompanhar a menina do jornal fazendo a matéria e no dia seguinte sair totalmente diferente. Por quê? A prefeitura investe milhões nos jornais e nas TVs, você liga a televisão tá aí César Maia toda hora. Tu acha que a Globo vai fazer um troço favorecendo a prefeitura ou os camelôs? Eles recebem milhões da prefeitura todo mês.

MC - Vamos falar agora daquela música "Muito Obrigado" que é uma crítica à Ordem dos Músicos do Brasil (OMB).
04- É um absurdo total esse negócio. É uma fábula que existe mesmo. O acaso, aquela coisa do caos, né? Minha esposa está fazendo Psicologia, e na cadeira lá de redação ela trouxe pra casa uma apostila que fala das formas de narrativa e tinha lá, fábula. E a fábula que tinha na apostila dela era essa, dos urubus e sabiás. Eu nunca tinha ouvido falar dessa fábula e os termos são esses mesmos, eu não botei a palavra 'ordem', eu não mudei a palavra 'alvarás, documentos, concursos', tudo já está na fábula. Só encaixei o refrão.

BD - Há dois anos os músicos começaram a conseguir liminares em SC, PR e SP para poder tocar sem a carteirinha. Vocês têm acompanhado essa discussão?
04 - É uma lei federal da década de 60, anterior a Constituição, que é de 1988. E entra em confronto direto com o princípio constitucional. Então basta o cara entrar com um negócio bem fundamentado que não tem juiz que vá contra o músico. É a mesma coisa você querer exigir que o cara que vai escrever um livro sobre culinária, jardinagem, seja lá o que for, o cara tem que ser formado em letras e ser filiado à Ordem dos Escritores. E de todas as expressões artísticas, só a música que tem isso. Não tem uma ordem dos atores, ordem dos poetas ou ordem dos pintores, não tem.

MC - E a questão o jabá, que vem hoje disfarçado em investimentos de marketing?
04 - Isso é outro escândalo. O público consome um troço como se fosse cultura e na verdade é comércio. Porque pela lei, já é proibido, só que não é criminalizado. Me lembro até hoje de uma matéria, quando o Jorge Ben foi contratado pela Sony. Ele tinha estourado pela Warner com "W/Brasil", estava voltando ao topo e a Sony o contratou. E no primeiro lançamento da Sony [23] eles estavam planejando um mega-esquema de lançamento. Na entrevista o cara da Sony dizia: "Só pra campanha de marketing vai ser um milhão de dólares e a gente espera vender um milhão de cópias em tantos meses". Aí você vê, por mais mega que seja o lançamento, a parte artística, envolvendo estúdio, técnico, mixagem não se gasta mais de 100 mil dólares nem a pau. Mesmo com a mixagem em Los Angeles é 100, 150 mil dólares estourando. Como é que o cara gasta no artístico 150 mil dólares e declara pra imprensa que o marketing vai ser um milhão de dólares? Ou seja, um superfaturamento mesmo, descarado, aquilo ali é pra inundar todas as rádios, todos os urubus e falcões, entupir a cabeça da galera. E é por isso que eles se fuderam com a pirataria, porque era isso que encarecia o disco, dez vezes mais o que realmente custou. Na estréia no Rio a gente vendeu 100 discos a R$ 10 antes de começar o show. A gente tem direito a comprar 300 discos a preço promocional, que sai pra gente a menos de R$ 4. Se faz a esse preço pra gente poder se capitalizar, ter disco pra mandar pros cantos. Aí Ale [Oliveira, produtora da banda] disse: "Fred, tu acha que a gente compra esses 300 discos pra esses três dias no Rio?". Aí eu disse: "Não, não precisa, não. 100 discos tá bom. Tu acha que vai vender isso?" Meu irmão, antes de começar o show já tinha acabado.

MC - E a banda já tem um público aqui no Rio...
04 - E tem um lance, que a banda tem um público forte, mas não tem uma distribuição boa no Rio. Nego nunca acha os discos da gente aqui. Então tem uma demanda latente.

MC - Vocês vão lançar o CD no exterior?
04 - Tem um selo que já tem um esquema com a Trama, que é o Stern, que distribui o Dolores, o pessoal da Trama lá. Inclusive o dono da Stern tava no show em Paris, foi lá no camarim, já conversou e tudo. A gente não fechou ainda, mas em Portugal, por exemplo, o Por pouco tá indo bem pra caramba, foi lançado pela Som Livre, inclusive, lá. E tem duas coletâneas que já foram lançadas em Portugal pelo Henrique Amaro, que é um cara que tem um programa de rádio em Lisboa, chamado Tejobit, inspirado no manguebit, e na segunda coletânea que saiu agora a faixa de abertura é "Meu esquema", os caras piraram com o mundo livre. E eu acho que Portugal é o grande canal pra gente na Europa por causa das letras. Tem um lance da língua que facilita, e o mundo livre tem esse diferencial da banda, que em outros países se perde, fica a sonoridade.

BD - E como é que tá o show?
04 - Foi foda pra achar um repertório pra esse show, porque são cinco discos, eu toco violão, guitarra, cavaquinho, aí sempre tem que incorporar as músicas novas, agora tem baixo acústico também, então não pode ficar truncando muito o show, trocando de instrumento. É foda pra montar um show da gente.

BD - Quem tem feito algo de relevante na música hoje pra vocês?
04 -Acho DJ Dolores um troço inacreditável. A gente participou do mesmo evento em Nova Iorque
em julho [2003], no Lincoln Center Festival, e o mundo livre tocou na quarta e eles tocaram no domingo. No dia do DJ Dolores e Orchestra Santa Massa, o David Byrne parecia um macaco de tanto pular. E o Lincoln Center é aquele negócio bem cheio de frescura, não podia tomar nem um chope no camarim, um troço de pesquisadores, bem acadêmico, mas tinha um tira, aqueles blacks, e quando começou uma pessoa ou outra a se levantar pra ir pro corredor dançar, ele ficou logo nervoso, querendo organizar. No final o tira tava dançando e pulando com os caras. É inacreditável o show dos caras. Parece ser suspeito por ser lá de Pernambuco, mas não, depois de Chico Science, o troço que mais me impressionou ao vivo foi o DJ Dolores e a Orchestra Santa Massa. Tem o Ojos de Brujos [banda de Barcelona], com quem a gente tocou junto na Suíça. Eles lançaram o primeiro disco pela Sony, e agora estão independentes, com distribuidora própria e conseguiram disco de ouro. Teve uma festa no hotel depois junto com eles, eles estavam no gargarejo no show da gente, queriam fazer uma parceria. E é um lance assim também, que mistura flamenco, coisa espanhola, com hip hop, podrera, eletrônica, levada fuderosa. Esse festival na Suíça [Festat] tem mesmo esse perfil mangue. A gente viu banda mexicana, espanhola, irlandesa, africana, mas tudo assim, com misturas, muito massa. Isso é uma coisa que você vê rolando em vários lugares. Gotan Project, acho do caralho também, é um duo franco-argentino. Gotan é tango ao contrário e também tem um lance, usa bandoneon, uns troços assim, com altas pegadas. Orishas, os "rapeiros" cubanos, acho foderoso também. Mas a cena de Recife é especial. Uma banda que tá preparando o disco de estréia é o Monbojó. Galera de 19, 20 anos, violão, cavaquinho. Eles gostam de mundo livre pra caralho, assumem mesmo - o que é coisa rara no Recife, ao contrário de Salvador. Salvador todo mundo quer citar o outro, o que tá pegando todo mundo faz igual e em Recife não. Tem o Re:combo, já ouviu falar do Re:combo? Na verdade eles são uma comunidade virtual que começou lá em Recife através do Mabuse. Ninguém é músico, nem tem formação musical, são DJs que trabalham com internet e reprocessam arquivos de sample. O conceito é de copyleft, de trocar arquivos musicais onde cada um pode interferir, de qualquer parte do mundo, interação musical. Eles produziram faixa pro disco de Silvério, e participaram de vários eventos - então agora tem uma demanda para eles lançarem um disco, que tá pra sair. E é foderoso, já tão fazendo remix pra "Xicão" e "CNFS", que a gente não sabe como vai soltar, acho que a próxima tiragem do disco, talvez aquele remix que tem de Dolores, seria substituído por outra parada.

CP - Sobre a participação de vocês no filme Amarelo Manga [longa de estréia do pernambucano Cláudio Assis, que já ganhou uma porrada de prêmios aqui e no exterior], foi a primeira vez que tiveram contato com cinema?
04 - Não, eu fiz uma ponta no Baile Perfumado, e a gente fez a trilha junto. Participei de alguns curtas, como O Pedido, de Adelina Pontual, e Maracatus, de Marcelo Gomes. Inclusive, ele tá pra lançar um longa chamado Cinema, aspirina e urubus, e eu vou colaborar na trilha. Eu acho um caminho - tanto é que esse disco da gente tem alguma coisa de narrativa cinematográfica também. Ainda mais agora com essa revolução digital que, tanto para a música como para a imagem, barateou e ampliou a capacidade de distribuição. Acredito cada vez mais nessa junção, tenho me interessado muito por essa parte de documentário, de curta-metragem. Manuela Rosário, quem sabe, um dia vira algo assim.

MC - E a declaração de que esse seria o último disco da banda?
04 - O que eu quis dizer foi o seguinte: o Samba Esquema Noise, foi o primeiro e o último trabalho da gente que saiu em cassete e vinil [com três músicas a menos]. O cassete ainda existe. Você viajando nas estradas aí, nas rodoviárias você vê cassete de piada, de viola sertaneja, só que é um formato que foi abandonado pela indústria, não foi uma opção nossa ter abandonado o cassete e o vinil. Eu quis dizer que é possível e provável que o CD enquanto formato viável seja abandonado pela indústria em poucos anos, substituído pelo DVD de áudio, que vai ter mais qualidade e mais tempo pra música, coisas que ainda estão surgindo.

BD - Qual o disco de vocês que mais vendeu?
04 - Acho que foi o Por pouco. Foi o único disco que foi parar no Carrefour a cinco reais, no Brasil todo. Agora, vai entender a lógica dos caras, na época de lançamento não tinha o disco em canto algum. Na época que tava a Luana Piovani na MTV, "Meu esquema" rolando todo dia de Nova Iorque, lá em Recife não tinha um disco pra vender. Final de ano, três rádios tocando em Recife, dezembro, verão, todo mundo chegava: "Cara, onde é que eu compro o disco?" Não tinha. Aí, um ano depois, você ia no Carrefour e tava lá: cinco, quatro, três reais, todos os produtos da Abril. Então em termos de cópias vendidas, acho que foi o Por pouco, por causa desse lance que eles fizeram depois, de colocar a preço popular. Mas em termos de quanto rendeu, talvez tenha sido o Carnaval na obra. O Carnaval... foi o primeiro produto da Abril. Porque a Abril quando foi lançada era outro perfil, um perfil para ser uma Trama. Quando o Carnaval... saiu, estava vendendo 10 mil cópias por mês, então eles ficaram tão animados que bancaram nossa ida pra Cannes, tocar no Midem [feira da indústria musical], com estande e tudo. Fizemos um show extra em Paris, ficamos num hotel foderoso, porque a gente vendia 10 mil cópias por mês. Aí o que acontece? Ficamos dez dias na França. Nesse período, em janeiro de 1999, aconteceu a desvalorização do real. Quando a gente voltou o país não existia, as lojas fechando as portas, desemprego, foi quando a Globo começou a quebrar. Tanto é que o Mestre Ambrósio estava com o disco recém-gravado na Sony [Fuá na casa de Cabral], com produção de Suba - acho que foi o último trabalho dele, se não me engano, mixado em Los Angeles - e a gravadora se recusou a lançar, deixou mais de um ano na gaveta. E era o auge do forró universitário, os caras com um disco produzido por Suba, caríssimo, e a gravadora: "Não vamos lançar, porque não existe mercado, o país quebrou". O que aconteceu? O disco [Carnaval...] não só parou de vender como teve devolução de disco, porque as lojas faliram. E aí, o Brian, o diretor que tinha montado o perfil da gravadora foi demitido. Aí veio o Bonadio, cara que tinha inventado o Tchan na Polygram, morava em Miami, e foi contratado para ser o presidente da Abril nova. E eu não sei por que cargas d'água eles não demitiram a gente, porque demitiram o Acabou La Tequila com disco prontinho pra sair, Os Ostras, tudo que era da Excelente Discos, que foi o primeiro selo incorporado pela Abril. Demitiram todo mundo, só ficou o mundo livre. Acabou saindo o Por pouco, mas aí foi uma briga do caralho.

MC - O Por pouco teve algum tipo de "orientação"?
04 - Não, eles quiseram impor produtor e a gente: "Não, não". Até música eles queriam impor: "Ouve isso, ouve aquilo".

BD - Como exemplos a serem seguidos?
04 - Não, pra gente gravar. Até então, a gente só tinha gravado música nossa. Nesse disco a gente gravou Jorge Ben - aí o caso foi que como eles estavam querendo empurrar outros compositores, o próprio Bid [um dos produtores de Carnaval...] tinha ficado com uma demo de Jorge Ben e aí mostrou pra gente e a gente pirou com essa música, "Mexe mexe", e aí eles: "Ah, essa vai entrar". Fruto de negociação, porque eles queriam empurrar cada coisa absurda assim.

MC - O Jorge Ben que deu essa música pra vocês? Ele nunca gravou?
04 - Pra ti ver como é gravadora! Um cara como Jorge Ben tinha um projeto só com músicas inéditas, mas a Sony recusou. E "Mexe mexe" foi uma que sobrou. Ele tinha feito a demo num estúdio caseiro, e tinha tentado lançar, acho que em 98, 99 e a Sony tinha um outro projeto, aquela história de música pra elevador, algo assim. Como o Bid ia ser o nosso produtor, mostrou pra gente, a gente pirou e a Abril: "Ah, Jorge Ben, massa", sabe como é, né? Era uma forma da gente negociar com eles. Pô, eles queriam botar Mazola, botar o produtor de Ana Carolina, o produtor de não sei quem. Cara, até a gente conseguir fazer com Bid e [Mário] Caldato [produtor de, entre outros, Beastie Boys e Planet Hemp] foi foda, velho.
Marcelo Pianinho - E o pior depois disso tudo é não botar o disco na prateleira e dizer que a gente não vende disco. E o público todinho, só falta matar a gente: "Cadê o disco?"
04 - Eles preferem perder dinheiro a perder a pose. O problema é esse. Porque, se de repente, um disco que eles não apostaram começa a vender, eles ficam desmoralizados.
MP - A casa cai, né?
04 - A casa cai. Eles preferem perder dinheiro a perder a pose.

 

Entrevista: Bruno Dorigatti, Clarissa Pivetta e Marcelo Ceará
Fotos: Clarissa Pivetta