Matéria

Como se dar bem no Planeta Atlântida em 8 lições
Marca Diabo escala intrépido repórter metaleiro para cobrir o festival com maior número de pit-boys e britneys por metro quadrado da América Latina

André Lückman, o enviado especialLógico que entrar no circo de horrores, ou melhor, na arena da desgraça, ou melhor, no Planeta Atlântida 2004 não é tarefa para qualquer pessoa que possua dois dedos de amor-próprio. Como nesta edição aconteceram as primeiras novidades nas atrações em sei lá quantos anos (a saber, Sepultura e Los Hermanos), o Marca Diabo buscou um retardado a fim de sofrer as agonias do inferno; e de sobreviver para contar. Foi recrutado então um de seus mais intrépidos colaboradores, pego de férias em Floripa depois de um trabalho voluntário na Faixa de Gaza com o seu mestre Indiana Jones. O que para muitos seria um programa de índio com conseqüências bizarras, para nosso colaborador foi mamão com açúcar. Anotem as dicas deixadas pelo corajoso paladino:

1) O pré-requisito para se aventurar numa arena dessas é saber o horário dos shows. A única chance de sair sem mácula é aparecer apenas no último show. Nesse caso, os chatos-blasé dos Los Hermanos já foram pro vinagre antes de qualquer plano; a aventura só vale para ver o último show da noite, o Sepultura. Outra coisa a ser vista com antecedência é o ingresso: procure desconto com algum amigo jornalista que trabalhe na RBS (Rede Brasil Sul, afiliada da Globo em SC e no RS, e dona de quase todo o resto em papel, rádio e internet) - muquiranas como toda a classe, sempre dão um jeito de tirar um lucrinho em cima dos amigos.

2) Com tudo preparado, descanse bem antes, afinal o show começa apenas às três da manhã. Com o sFreqüentadores-padrão do Planeta Atlântidaono pendurado e conseqüente mau humor, você correria o risco de trucidar qualquer sósia do Charlie Brown Jr. ou da Britney Spears que cruzasse o seu caminho. O segredo é tocar o seu dia como se nada estivesse para acontecer, ir dormir cedo e programar o despertador para a 1 hora da manhã. Acorde com um sorriso nos lábios, e dê uma rapidinha com a mulher amada. Na falta de uma dessas, jogue duas partidas de Counter-Strike. Vá para o chuveiro e vista qualquer uma das suas camisetas pretas de estimação. Pronto, com uma hora de antecedência você está pronto para encarar este novo desafio.

3) Cate umas cervejas e siga calmamente para onde toda a cidade de Florianópolis está confinada em transe coletivo, junto com a turistada: o "parque do planeta". Não relaxe com o horário, pois a influência nefasta de um evento desses se estende ao trânsito. Logo, é necessário estudar uma rota alternativa até o evento. Também é importante tratar os oficiais da PM e da Polícia Rodoviária com respeito quase fraterno - lembre-se de que eles estão na mesma roubada que você -, e essa é a chave para descobrir que lá dentro do "parque do planeta" há vagas para estacionar de graça (afinal os chimpanzés lobotomizados que foram assistir ao Jota Quest já voltaram para as suas jaulas e deixaram o estacionamento livre).

Metaleirinhas pré-pubescentes no praneta4) Com seu automóvel em segurança e sem precisar andar três quilômetros para alcançar a alcova, está na hora de passar pelos primeiros portões do inferno. Procure não rir quando vierem lhe revistar pela quarta vez; provavelmente os seguranças e PMs não são boiolas, é que não estão acostumados a ver gente com mais de 17 anos passando os portões. Eles supostamente estão apenas fazendo o seu trabalho, mas por via das dúvidas fique ligado. Cuidado também com a correnteza contrária - o show do Sepultura está se aproximando e muitos adolescentes estão se afastando do "parque do planeta". Mais uma vez, cuidado para não pisar nem derrubar os espinhentos.

5) Dentro da arena, tudo depende do seu autocontrole. Como você não conseguiu dirigir devagar o suficiente e como não houve problemas para estacionar, acabou chegando antes do CPM 22 terminar seu "show". Você se sente mais uma vez deslocado quando vê todo mundo cantando e dançando uma música que nunca ouviu na vida - Toda a ginga e manemolência brasileiras de Derrick Green no Mercado Públicoou que já ouviu, mas não essa "releitura". A opção é dar uma volta de reconhecimento, para poder contar para os amigos, caso saia vivo. À primeira vista, a bagaça toda não passa de uma feira livre fashion. À segunda, terceira e quarta vistas, também não passa disso. Ok, analisando friamente é tudo uma palhaçada, mas o importante é manter o foco no show que está por vir. Dando os primeiros passos em direção à muvuca, é possível avistar tendinhas de baboseiras quaisquer, vídeos de esporte, stands de porcarias caras e também uma área de rampinhas com moleques andando de skate - é bom não fazê-los tropeçar, sob o risco de perder o foco do show. Outra parte engraçada desse bloco era uma tenda de exército fechada, de acesso restrito a apenas VIPs de pulseirinha, onde se via muitas meninas gostosinhas e com cheirinho de cabaço circulando. Lá dentro, som eletrônico e luzes estroboscópicas. Do lado de fora, um belo neon denunciando o nome do recinto: "Touch". Ai de vós, incautos... certamente se tratava de uma boate gay.

Porra, mas eu não gosto do Jota Quest6) Ultrapassado mais esse obstáculo com sucesso (pulsação normal e adrenalina baixa), é chegada a hora da recompensa: cerveja gelada, e gelada de verdade. Ser atendido por um gaúcho boca-mole (até a mão-de-obra é importada) não é bem aqueeela recompensa, mas como já foi dito, ninguém veio aqui pra se estressar. Três cervejas mais tarde, você começa a reparar que aquele capacho de morcegos que você pisou lá atrás não era bem um tapete, era um bando de metaleirinhos narigudos amontoados no chão de terra batida, que estão esperando o show do Sepultura desde as 5 da tarde. Será que eles não leram a programação ou estão lá de teimosos? Bem, ficam os votos para que sejam menos burros na próxima.

7) Três e trinta da manhã, exatamente quando você está alheio ao mundo exterior, observando as tendas erguidas no horizonte e tentando adivinhar o que as pessoas do camarote fizeram de tão mau para estar lá, acaba o show do CPM 22. O silêncio angelical toma conta do "parque do planeta", e, finalmente, você sente a atmosfera ficando mais pesada. A diáspora começa a se formar, com a meninada se afastando do palco, e mais uma vez você caminha em passos firmes contra a correnteza. Lógico que você não pode subjugar sozinho toda a multidão, mas para isso serve toda a cerveja que você tomou - um arroto bem dado abala qualquer estrutura física ou emocional.

- Ah, lembrei o que vim fazer aqui

8) Enfim, o tempo fecha e começa a tempestade - não, dessa vez não choveu, foi o Sepultura que entrou no palco. A paulada sonora para quem ficou do lado do contrabaixo é Segura essa, Cacau!grande. O negão Derrick "Fumaça" Green arregala os olhos e berra para cacete, os "poster-boys" Andreas Kisser e Igor Cavalera batem forte e definem o estilo tribal da banda. Estilo que, inclusive, parece ter finalmente amadurecido depois das broncas com Max Cavalera e dos vários discos fracos e sem personalidade lançados nos últimos anos. Já Roorback (2003), primeiro disco lançado após a saída da RoadRunner Records, mostra a banda mais criativa e aparentemente sem medo de experimentar sonoridades, deixando de lado aqueles batuques forçados "para gringo ver" e abrindo espaço para sons mais lentos e até alguma coisa de lounge, com diferentes tipos de distorção na guitarra-berimbau e com a batera cada vez mais concisa, bem colocada, com timbres bonitos e completamente tribal. O próprio setlist está mudado em relação ao show de dois anos atrás: as composições recentes tomaram conta do set e a podreira anos 80 parece ter sido "sepultada" de vez - é claro, os caras hoje têm novamente material bom para dar ao público. O próprio Fumaça entrega o jogo quando apresenta Arise (de 1990) como sendo "uma música muito antiga".

Pouco mais de uma hora de show, muita porrada na orelha, um ambiente inóspito pra quem curte heavy metal, mas a taxa de estresse beirou o zero. Foi um grande show dos caras. Lógico que depois dá pra se sentir meio mal agüentando a propaganda de "maior festival de música da América Latina", especialmente quando o festival de verão de Salvador levou as mesmas bandas para um público duplicado... Que a RBS é provinciana já se sabe, as precauções listadas acima servem para ajudar a relaxar e gozar os benefícios diante de tanta incomodação que esse evento traz para os pobres cidadãos que ousam não ouvir a Atlântida FM.

 

André Lückman
Fotos: www.sepultura.com.br e sites de festas creditados nas imagens