Matéria
Como se dar
bem no Planeta Atlântida em 8 lições
Marca Diabo escala
intrépido repórter metaleiro para cobrir o festival com
maior número de pit-boys e britneys por metro quadrado
da América Latina
Lógico
que entrar no circo de horrores, ou melhor, na arena da desgraça,
ou melhor, no Planeta Atlântida 2004 não é tarefa
para qualquer pessoa que possua dois dedos de amor-próprio. Como
nesta edição aconteceram as primeiras novidades nas atrações
em sei lá quantos anos (a saber, Sepultura e Los Hermanos), o
Marca Diabo buscou um retardado a fim de sofrer as agonias do inferno;
e de sobreviver para contar. Foi recrutado então um de seus mais
intrépidos colaboradores, pego de férias em Floripa depois
de um trabalho voluntário na Faixa de Gaza com o seu mestre Indiana
Jones. O que para muitos seria um programa de índio com conseqüências
bizarras, para nosso colaborador foi mamão com açúcar.
Anotem as dicas deixadas pelo corajoso paladino:
1) O pré-requisito para
se aventurar numa arena dessas é saber o horário dos shows.
A única chance de sair sem mácula é aparecer apenas
no último show. Nesse caso, os chatos-blasé dos Los Hermanos
já foram pro vinagre antes de qualquer plano; a aventura só
vale para ver o último show da noite, o Sepultura. Outra coisa
a ser vista com antecedência é o ingresso: procure desconto
com algum amigo jornalista que trabalhe na RBS (Rede Brasil Sul, afiliada
da Globo em SC e no RS, e dona de quase todo o resto em papel, rádio
e internet) - muquiranas como toda a classe, sempre dão um jeito
de tirar um lucrinho em cima dos amigos.
2) Com tudo preparado, descanse
bem antes, afinal o show começa apenas às três da
manhã. Com o s
ono
pendurado e conseqüente mau humor, você correria o risco
de trucidar qualquer sósia do Charlie Brown Jr. ou da Britney
Spears que cruzasse o seu caminho. O segredo é tocar o seu dia
como se nada estivesse para acontecer, ir dormir cedo e programar o
despertador para a 1 hora da manhã. Acorde com um sorriso nos
lábios, e dê uma rapidinha com a mulher amada. Na falta
de uma dessas, jogue duas partidas de Counter-Strike. Vá para
o chuveiro e vista qualquer uma das suas camisetas pretas de estimação.
Pronto, com uma hora de antecedência você está pronto
para encarar este novo desafio.
3) Cate umas cervejas e siga calmamente
para onde toda a cidade de Florianópolis está confinada
em transe coletivo, junto com a turistada: o "parque do planeta".
Não relaxe com o horário, pois a influência nefasta
de um evento desses se estende ao trânsito. Logo, é necessário
estudar uma rota alternativa até o evento. Também é
importante tratar os oficiais da PM e da Polícia Rodoviária
com respeito quase fraterno - lembre-se de que eles estão na
mesma roubada que você -, e essa é a chave para descobrir
que lá dentro do "parque do planeta" há vagas
para estacionar de graça (afinal os chimpanzés lobotomizados
que foram assistir ao Jota Quest já voltaram para as suas jaulas
e deixaram o estacionamento livre).
4)
Com seu automóvel em segurança e sem precisar andar três
quilômetros para alcançar a alcova, está na hora
de passar pelos primeiros portões do inferno. Procure não
rir quando vierem lhe revistar pela quarta vez; provavelmente os seguranças
e PMs não são boiolas, é que não estão
acostumados a ver gente com mais de 17 anos passando os portões.
Eles supostamente estão apenas fazendo o seu trabalho, mas por
via das dúvidas fique ligado. Cuidado também com a correnteza
contrária - o show do Sepultura está se aproximando e
muitos adolescentes estão se afastando do "parque do planeta".
Mais uma vez, cuidado para não pisar nem derrubar os espinhentos.
5) Dentro da arena, tudo depende
do seu autocontrole. Como você não conseguiu dirigir devagar
o suficiente e como não houve problemas para estacionar, acabou
chegando antes do CPM 22 terminar seu "show". Você se
sente mais uma vez deslocado quando vê todo mundo cantando e dançando
uma música que nunca ouviu na vida -
ou
que já ouviu, mas não essa "releitura". A opção
é dar uma volta de reconhecimento, para poder contar para os
amigos, caso saia vivo. À primeira vista, a bagaça toda
não passa de uma feira livre fashion. À segunda, terceira
e quarta vistas, também não passa disso. Ok, analisando
friamente é tudo uma palhaçada, mas o importante é
manter o foco no show que está por vir. Dando os primeiros passos
em direção à muvuca, é possível avistar
tendinhas de baboseiras quaisquer, vídeos de esporte, stands
de porcarias caras e também uma área de rampinhas com
moleques andando de skate - é bom não fazê-los tropeçar,
sob o risco de perder o foco do show. Outra parte engraçada desse
bloco era uma tenda de exército fechada, de acesso restrito a
apenas VIPs de pulseirinha, onde se via muitas meninas gostosinhas e
com cheirinho de cabaço circulando. Lá dentro, som eletrônico
e luzes estroboscópicas. Do lado de fora, um belo neon denunciando
o nome do recinto: "Touch". Ai de vós, incautos...
certamente se tratava de uma boate gay.
6)
Ultrapassado mais esse obstáculo com sucesso (pulsação
normal e adrenalina baixa), é chegada a hora da recompensa: cerveja
gelada, e gelada de verdade. Ser atendido por um gaúcho boca-mole
(até a mão-de-obra é importada) não é
bem aqueeela recompensa, mas como já foi dito, ninguém
veio aqui pra se estressar. Três cervejas mais tarde, você
começa a reparar que aquele capacho de morcegos que você
pisou lá atrás não era bem um tapete, era um bando
de metaleirinhos narigudos amontoados no chão de terra batida,
que estão esperando o show do Sepultura desde as 5 da tarde.
Será que eles não leram a programação ou
estão lá de teimosos? Bem, ficam os votos para que sejam
menos burros na próxima.
7) Três e trinta da manhã,
exatamente quando você está alheio ao mundo exterior, observando
as tendas erguidas no horizonte e tentando adivinhar o que as pessoas
do camarote fizeram de tão mau para estar lá, acaba o
show do CPM 22. O silêncio angelical toma conta do "parque
do planeta", e, finalmente, você sente a atmosfera ficando
mais pesada. A diáspora começa a se formar, com a meninada
se afastando do palco, e mais uma vez você caminha em passos firmes
contra a correnteza. Lógico que você não pode subjugar
sozinho toda a multidão, mas para isso serve toda a cerveja que
você tomou - um arroto bem dado abala qualquer estrutura física
ou emocional.
- Ah, lembrei o que vim fazer aqui
8) Enfim, o tempo fecha e começa
a tempestade - não, dessa vez não choveu, foi o Sepultura
que entrou no palco. A paulada sonora para quem ficou do lado do contrabaixo
é
grande.
O negão Derrick "Fumaça" Green arregala os olhos
e berra para cacete, os "poster-boys" Andreas Kisser e Igor
Cavalera batem forte e definem o estilo tribal da banda. Estilo que,
inclusive, parece ter finalmente amadurecido depois das broncas com
Max Cavalera e dos vários discos fracos e sem personalidade lançados
nos últimos anos. Já Roorback (2003), primeiro
disco lançado após a saída da RoadRunner Records,
mostra a banda mais criativa e aparentemente sem medo de experimentar
sonoridades, deixando de lado aqueles batuques forçados "para
gringo ver" e abrindo espaço para sons mais lentos e até
alguma coisa de lounge, com diferentes tipos de distorção
na guitarra-berimbau e com a batera cada vez mais concisa, bem colocada,
com timbres bonitos e completamente tribal. O próprio setlist
está mudado em relação ao show de dois anos atrás:
as composições recentes tomaram conta do set e a podreira
anos 80 parece ter sido "sepultada" de vez - é claro,
os caras hoje têm novamente material bom para dar ao público.
O próprio Fumaça entrega o jogo quando apresenta Arise
(de 1990) como sendo "uma música muito antiga".
Pouco mais de uma hora de show, muita
porrada na orelha, um ambiente inóspito pra quem curte heavy
metal, mas a taxa de estresse beirou o zero. Foi um grande show dos
caras. Lógico que depois dá pra se sentir meio mal agüentando
a propaganda de "maior festival de música da América
Latina", especialmente quando o festival de verão de Salvador
levou as mesmas bandas para um público duplicado... Que a RBS
é provinciana já se sabe, as precauções
listadas acima servem para ajudar a relaxar e gozar os benefícios
diante de tanta incomodação que esse evento traz para
os pobres cidadãos que ousam não ouvir a Atlântida
FM.
André Lückman
Fotos: www.sepultura.com.br
e sites de festas creditados nas imagens