Entrevista:
Daltony
"Meu grande
tesão é poder dizer: 'sou eu quem faz!'"
Daltony concede entrevista
exclusiva ao Marca Diabo e revela o homem por trás do mito da
internet
"Sou
eu quem faz / I make it myself". Com esse notável bordão
bilingüe Dalmo José Peres, mais conhecido como Daltony,
tornou-se um dos maiores fenômenos recentes da internet brasileira.
Sua página virou "cult" entre os freqüentadores
de sites humorísticos como o Homem
Chavão e já existe até teste
para saber qual faceta dele você é. Sem mencionar o Templo
de Adoração ao Daltony, tradicional ponto de encontro
de seus fãs.
Segundo a história relatada no
site oficial, o obrigatório www.daltony.com.br
(quem não o conhece deve primeiro passar lá antes de ler
esta entrevista), seu pai morreu num acidente de caminhão quando
ele tinha apenas cinco meses e desde cedo Daltony foi "criado no
cabo da enxada". Passou por muitas dificuldades durante a juventude
no Rio de Janeiro e desde os anos 80 dedica a maior parte do tempo à
produção de alimentos "inigualáveis"
em Campinas. Como diferencial, adotou embalagens com sua foto e nome
em destaque, à maneira dos softwares Norton ou dos alimentos
Newman's Own, de Paul Newman.
Aos 53 anos, o produtor de alimentos,
compositor, ator, inventor e pai de família respondeu às
perguntas do Marca Diabo por e-mail. Em um golpe de sorte (acho), recebemos
também um outro e-mail, no qual Daltony responde algumas perguntas
do site americano PoopReport.com
sobre o funcionamento do revolucionário sistema de descarga de
patente inventado por ele. Estão ali outras preciosas informações,
como o sonho de produzir um filme de 100 milhões de dólares
com Spielberg, que vão a título de bônus no fim
da entrevista.
Marca Diabo - Qual a pronúncia
correta do seu nome?
Daltony - A pronuncia correta é Daltoní. Mas, para o sotaque
brasileiro creio ser mais fácil pronunciar como se escreve Dal-tony.
MD - Quando e como Dalmo José
Peres se transformou em Daltony? De onde veio o nome?
D - Em 11 de Fevereiro de 1984, data em que foi inaugurada minha
primeira loja de pão de queijo em São Paulo após
4 anos perseguindo o sonho de fabricar pão de queijo exatamente
igual ao que eu comia durante a minha infância na fazenda do meu
tio em Minas. O nome veio da junção de Dalmo e Tony, meu
sócio na época por 6 meses.
MD - Em que regiões do Brasil
podem ser encontrados os produtos com sua marca? Quantos produtos são?
D - Em poucos pontos de vendas na região de Campinas e outros
tantos na grande São Paulo inclusive Casa Stª Luzia na Alameda
Lorena. Na área alimentícia só produzo algumas
versões do biscoito Daltony. Perfazendo um total de cinco versões.
Versão Daltony, Salgada, doce, simples e queijo assado.
MD
- Como está posicionada a marca Daltony?
D - A marca Daltony é reconhecidamente a marca de absoluta
qualidade. Pois só coloco no mercado aquilo que ninguém
consiga fazer tão bom quanto eu. Jamais me sinto estimulado a
fazer e oferecer ao outro aquilo que todo e qualquer pessoa faz. Meu
grande tesão é poder dizer: "sou eu quem faz!"
MD - Gostaríamos de saber um
pouco mais sobre como começou "a maior onda de pão
de queijo jamais vista em lugar algum do mundo".
D - Em lugar algum do mundo porque o pão de queijo até
então era um produto tradicional nas cozinhas das famílias
mineiras, mais nas fazendas do interior de Minas por assim dizer. Nos
grandes centros como São Paulo e Rio existia o chamado pão
de queijo de padaria e algumas pretensas lojas de pão de queijo
que por causa da má qualidade no produto final se sustentavam
com salgadinhos e outros petiscos. É o que existe até
hoje. Porque pretensas lojas de pão de queijo... Porque o Pão
de Queijo de verdade é um dos produtos de paladar inigualável
e mais prazeroso que existe. É extremamente leve e saboroso.
Desde que feito e oferecido por quem saiba escolher desde os ingredientes
até o jeito apropriado de preparar a massa, fazer as bolinhas,
levar ao forno no ponto certo, assar e servir se possível acompanhado
de um bom café. Durante a minha infância na fazenda do
meu tio em Minas, onde fui criado, eu preparava o terreno, fazia o plantio
da rama da mandioca, carpia, colhia a mandioca na época certa,
beneficiava e extraia o suco, apurando o amido ao sol para obter o melhor
polvilho e saborear o pão de queijo que desde menino aprendi
a aprecia-lo como um verdadeiro manjar dos Deuses.
Aos 19 anos de idade, setembro de 1969,
no exato momento em que o Pelé completava seu milésimo
gol, marcado contra o Vasco da Gama, eu descia do ônibus na rodoviária
Novo Rio no Rio de Janeiro. Após um certo período dormindo
nos bancos das praças e parapeitos do mar no aterro do Flamengo,
fui morar em um cortiço favela na Rua Maranhão no Meyer
e trabalhar de ajudante consertando os banheiros por toda a cidade.
Fui vendedor de livros, vendedor viajante pela a empresa Orniex - produtos
de limpeza odd pro interior de Minas na região de Governador
Valadares. De volta ao Rio fui balconista de loja de material de construção,
e por fim ingressei-me na carreira de ator participando de pequenos
papeis no teatro, cinema e televisão. Na época eu morava
em uma quitinete minúscula na Rua André Cavalcante próximo
aos arcos e o bairro da Lapa no Rio. Refletindo sobre a vida difícil
que levava em termos financeiros. Decidi então refletir sobre
as possibilidades de melhorar de vida obtendo um bom emprego com melhor
remuneração e segurança. Mas, fazer o que se minha
escolaridade era (e ainda o é) apenas o antigo quarto ano primário?
Foi quando constatei que minhas chances eram zero.
Sentindo um calor estupendo, deitado
na almofada no chão da sala minúscula, retornei mentalmente
ao meu tempo de criança na fazenda do meu tio. Lembrei-me do
quanto eu adorava comer pão de queijo, lembrei-me ainda, entre
tantas situações engraçadas na minha infância,
a mais engraçada delas. Lembro como se tivesse ocorrido hoje.
Minha tia estava com visitas na cozinha, a lata de pão de queijo
estava na despensa, rapidamente passei entre suas convidadas e entrei-me
na despensa, fechei a porta e abri a lata de 20 litros que estava abarrotada
de pão de queijo. Fui jogando-os pela a janela, para depois dar
a volta e come-los em baixo do pé de jatobá no fundo do
quintal. Tamanha foi minha surpresa ao dar a volta e deparar com os
cachorros lambendo os beiços, com cara de quero mais. Rindo distraidamente
ao me refazer das saudosas lembranças, decidi que um dia eu abriria
lojas de pão de queijo de qualidade, que seriam o maior sucesso
mundo afora. O sonho de abrir as lojas foi perseguido por quase cinco
anos, por falta de dinheiro para montar a primeira loja. Só conseguida,
graças à sociedade formada entre eu e o meu grande amigo
Tony, que nunca tinha ouvido falar em pão de queijo.
Conseguimos abrir a primeira loja bancada
por ele, em 11 de fevereiro de 1984 na Rua Cubatão próximo
á esquina da rua Eça de Queiroz no Paraíso, em
12 de maio do mesmo ano a segunda loja foi inaugurada na R. Domingos
de Moraes ao lado do Unibanco na estação do Metrô
Stª Cruz, e a terceira loja em 10 de Junho também do mesmo
ano próximo ao Hotel Kad'oro na Rua Augusta em São Paulo.
em Agosto de 1984 encerramos a sociedade, o Tony abriu lojas de Fogazza
e eu continuei com o pão de queijo abrindo a seguir mais uma
loja na Rua General Hosório no Centro de Convivência em
Campinas, inaugurada em Fevereiro de 1985. A partir daí comecei
a fracassar nos negócios até perder tudo por completo
e só reerguer-me novamente após conhecer minha adorada
mulher Silvana. A partir daí retomei minha vida, inventei a massa
dos biscoitos Daltony e de novo tal como fiz no pão de queijo
criei a maior onda de biscoitos de polvilho jamais vista no país.
Tal qual aconteceu com o pão de queijo Daltony. Hoje o biscoito
de polvilho é conhecido por todo o mundo. Continuo inventor criando,
planejando e executando meus inventos. Meu maior empenho no momento
é a produção do Sistema Ecológico Daltony
- descarga de 3 litros único no mundo sem auxilio externo, que
está prestes a ser disponibilizado a coletividade mundial. No
Brasil o Sistema ecológico Daltony será distribuído
pela Empresa recém criada por mim denominada Máximo 3
distribuidora do sistema ecológico Daltony - descarga de 3 litros.
MD - Quais trabalhos o senhor fez como
ator?
D - Participei de pequenos papéis no Teatro, no Cinema e
na televisão. Minha primeira figuração em 72, na
novela Uma Rosa Com Amor com Tônia Carrero, shazan e xerife com
Paulo José e Flávio Migliácio, Carinhoso com Regina
Duarte, Fogo Sobre Terra com Regina Duarte, Caso especial com Paulo
Gracindo, Carga Pesada com Fagundes e Estênio Garcia. Filmes O
Rey e os Trapalhões com Renato Aragão, Fuscão Preto
com a Xuxa, Pra Frente Brasil e alguns outros trabalhos e muitos comerciais.
MD - O senhor tem realizado mais invenções,
composições, etc.? Quais seus planos para o futuro?
D - Neste momento estou extremamente ocupado. Estou tentando encontrar
uma brecha, pois pretendo gravar em breve a música Colorido.
A pedido de um produtor e promotor de rodeios que conhecendo minha música
se apaixonou por ela e quer incluí-la nos seus shows pelo Brasil.
Meu plano é continuar fazendo tudo aquilo que gosto ou venha
gostar de fazer como sempre fiz.
MD - O senhor tem acompanhado a repercussão
de seu site entre o público jovem?
D - Não tenho acompanhado. Pois, mal sei usar o computador
para passar e receber e-mails, compor minhas músicas, escrever
meus roteiros cinematográficos e fazer os desenhos das minhas
invenções que no final ninguém entende. Mas, recebo
muitos e muitos e-mails falando sobre o que faço ou deixo de
fazer, meus erros de português, elogios intermináveis aos
meus biscoitos. No meu site, inventam muitas histórias com minha
figura, fazem montagens com a minha imagem e mandam para mim via e-mails
e eu me divirto muito. Tem aqueles que acompanham a repercussão
do meu site e mandam para mim. Me sinto envaidecido e recompensado por
tudo que faço.
MD - Isso tem aumentado a procura por
seus produtos?
D - Meus produtos sempre foram extremamente procurados pelo diferencial
que representam. Em termos de paladar, digestibilidade, textura, tipo
de arrumação na embalagem etc. Antes do Daltony entrar
no mercado com seus biscoitos de polvilho totalmente diferenciado dos
demais só se produziam biscoitos grossos, argola grande. O biscoito
Daltony mudou este conceito com suas argolinhas pequenas, fininhas,
bem arrumadas nas embalagens estimulando o consumo de biscoito de polvilho
antes consumido apenas pelas classes menos favorecidas. Hoje a classe
(A) se tornou uma grande consumidora.
Os produtores de biscoito de polvilho
não conseguiram melhorar sua qualidade no que se refere a paladar,
digestibilidade, e o pó ridículo conseguido durante a
mastigação que nos causa até coceira quando estamos
sentados dirigindo e caem por dentro das nossas roupas e grudam nas
buchechas e no céu da boca. Mas, melhoraram o visual imitando
o biscoito Daltony ou seja, afinaram o biscoito e melhorou o visual
da embalagem que antes era muito poluída e de mau gosto.
Eu sou um dos maiores empregadores indiretos
do Brasil. Em 84, com o lançamento do pão de queijo Daltony
no mercado brasileiro, foram criados milhares e milhares de empregos
por todo o país. Com a criação e o lançamento
dos biscoitos Daltony no mercado brasileiro não foi diferente.
O que mais me realiza á quase oito anos após ter criado
os biscoitos Daltony, é que desde então, na porta da minha
fábrica em Campinas, em média todos os Sábados
300 pessoas de zero a 80 anos vão pra suas casas com suas sacolas
cheias de biscoito Daltony.
MD - O seu slogan "sou eu quem
faz" lembrou-nos do lema "do it yourself" usado pelos
punks americanos e ingleses nos anos 70. O senhor se considera um punk,
neste sentido?
D - Eu desde garoto saído da adolescência no Rio,
sempre fiz uso de uma denominada frase feita e dita por mim. "Sou
o que sou não o que os outros pensam ou queiram que eu seja".
Não sei o que significa "ityourself" e nem conheço
o espírito do punk americano. Não, eu não sou punk.
MD - O senhor diz em seu site que "será
a pessoa mais rica do mundo e isso será inevitável".
Poderia nos explicar essa afirmação?
D - Eu só faço o que gosto. E por mais dinheiro e
sucesso que represente uma determinada coisa, se não gosto, não
faço. O que tenho feito só tem me dado prazer sob todos
os aspectos. Por isso, eu serei o homem mais rico do mundo.
MD - Teria alguma dica para que um
site como o nosso possa estar se posicionando de maneira mais adequada
junto a um público globalizado e cada vez mais exigente?
D - Eu sou o maior consumidor dos meus produtos. Portanto a minha
sugestão é seja o consumidor maior do que você produz
e aí sim você será o melhor em tudo aquilo que vier
a produzir.
Bônus 1:
Eu roteirista de Hollywood (traduzido
de um e-mail em inglês)
"Entre os scripts que escrevi, o
que mais gosto é sobre um caminhoneiro que tem toda a família
morta por causa de acidentes causados por motoristas imprudentes na
estrada. Ele constrói um par de poderosos eletromagnetos e coloca-os
em cada pára-choque de seu caminhão. Em estilo Mad Max,
ele acelera pelas estradas onde ele aproveita a oportunidade de dar
aos motoristas imprudentes uma bela lição com os eletromagnetos
nos pára-choques do caminhão."
"Em minhas fases criativas eu uso
a seguinte técnica: quando preciso descobrir um meio de fazer
algo e sinto que não vou conseguir, eu digo a mim mesmo o que
quero fazer e me acalmo. De alguma forma, chegará a hora certa
e uma oportunidade certa quando a resposta simplesmente surgirá
em minha mente e tudo estará resolvido. No começo de 2000,
durante um passeio, eu comecei a alimentar fantasias sobre um filme
que eu gostaria de fazer com Steven Spielberg em Los Angeles. Em meu
sonho maluco eu imaginei que o filme custaria mais de 100 milhões
de dólares. E eu percebi que aquela enorme quantia seria inteiramente
paga do meu próprio bolso. (...) Decidi então inventar
alguma coisa que me desse todo o dinheiro necessário. (...) Foi
assim que nasceu o sistema de descarga ecológico."
Bônus 2:
Frases com ensinamentos daltonyanos
(compiladas e traduzidas no blog Café
com Gengibre)
"Não gostaria de ser o homem
mais rico do mundo, mas isto será inevitável. "
"I woudn't like to be the richest man in the world, but it will
be inevitable. "
"Meus filhos são lindos e
inteligentes"
"My kids are wonderfull and intelligent. "
"Não importa onde você
vai dar... O importante é estar na estrada. "
"No matter where you go... the most important thing is keep going
"
"Sou um artista na arte do fazer.
"
"I'm an art maker artist "
"Paladar, prazer e digestibilidade.
Isto é Daltony."
"Taste, pleasure and digestibility. That's Daltony "
"Quando meu pai partiu eu era neném,
minha Mãe me cuida, até hoje."
"When my father died I was a baby. My mother takes care of me until
nowadays. "
"Eu só tenho o quarto ano
primário, não sinto falta dos estudos, mas não
me orgulho por não ter estudado."
"Although I've studied very little. I don't lack knowledge, but
it doesn't mean I'm proud of it. "
"Isto é Daltony, não
contém mau gosto "
"That's Daltony, there's no bad taste "
"Ninguem é tão bonita
ou tão jovem quanto a minha Mulher."
"Nobody is as beautiful and young as my wife "
"Se soubesse produzir flores lhe
daria"
If I knew how to produce flowerr I would give you
"Vamos economizar água, as
gerações futuras tambem sentirão Sede."
"Let's save water, our future generations will feel durst too.
"
"Se hoje fosse feriado pediria você
em casamento. Daltony."
"If today was a holiday, I would propose you. Daltony "
"Campinas terra dos homens, fale
comigo."
"Campinas men's place, talk to me "
"Não me troque por nada,eu
sou o mais gostoso e saudavel que existe."
"Don't you trade me for anything, I'm the most tasteful and healthiest."
"Minha maior inspiração
está na convivência armoniosa que tenho c/ minha mulher
e meus quatro filhos, é por isto que além de Fazer biscoitos,
pão de queijo como ninguem faz, inventar coisas úteis,
também escrevo e componho músicas."
"My biggest inspiration is in the harmonious relationship I have
with my wife and four children, that's why more than making biscuits
and cheese bread like nobody does, I make up useful things, and also
write and compose music. "
"Em 1984 comecei minha carreira de
empresário, em São Paulo. Criando a maior onda de pão
de queijo já mais vista em lugar algum do mundo. Continuo empresário,
inventor, compositor, roteirista, cantor e outras coisas que no futuro
vocês saberão"
"In 1984 I began my businessman carrier in São Paulo, creating
the biggest fad of cheese bread in the world. I'm still a businessman,
inventor, composer, scriptwriter, singer and other things that in the
future you will know."
"Se eu tivesse inventado a lua não
estaria só no mercado."
"If I had invented the moon, I wouldn't be only on market. "
"Eu só sei beijar a minha
mulher "
"I just know how to Kiss my wife "
Imagens: site oficial
e Templo de Adoração ao Daltony