Matérias
O malaco e os
grã-finos
Há 60 anos,
Joel Silveira escandalizava os ricaços paulistanos com seus textos
desaforados
Penteado,
Matarazzo, Crespi, Lafer, Pignatari... Sobrenomes imponentes estão
reunidos na nova minissérie da Globo, Um Só Coração,
no ar por esses dias que cercam as comemorações dos 450
anos da cidade de São Paulo. Puxar o saco da rica capital do
mais poderoso estado da União parece ter sido a intenção,
e o formato escolhido pela rede de TV carioca foi oferecer aos anunciantes
paulistanos mais uma de suas produções à moda ...E
o Vento Levou (mocinho encontra mocinha e, depois de examinar outras
possibilidades amorosas, acabam ficando juntos, tudo embalado em um
pano de fundo histórico padrão). Quem quiser saber um
pouco mais sobre o que há por trás dos tais sobrenomes
imponentes, mas não se empolga nem com o texto de Maria Adelaide
Amaral, muito menos com a, digamos, interpretação do Erik
Marmo (o tal mocinho da trama, par romântico de Ana Paula Arósio,
aquela que dispensa apresentações), felizmente tem outras
opções. Uma das melhores disponíveis é ler
dois dos textos mais famosos do jornalista veteraníssimo (firme
e forte aos 85 anos) Joel Silveira. "Grã-Finos em São
Paulo", de 1943, e "A Milésima Segunda Noite da Avenida
Paulista", de 1945, são duas reportagens que além
de serem instrutivas e divertidas também podem ser chamadas de
históricas, pois mudaram a cara do jornalismo brasileiro.
Sergipano, nascido na minúscula
cidade de Lagarto, o jornalista vive no Rio de Janeiro desde 1938. Foi
a serviço de uma publicação carioca, a semanal
Diretrizes (dirigida por outra sumidade do jornalismo nacional,
Samuel Wainer), que Silveira desembarcou em São Paulo, onde ,
durante uma semana, levantou a história dos ricaços locais.
Uma história de sobrenomes, como já dissemos, e como essas
citações de "Grã-Finos em São Paulo"
comprovam: "D. Odete casou-se com um homem muito rico. O que é
mais, tem um sobrenome [Matarazzo], e os sobrenomes, quatro ou cinco
deles, são donos de São Paulo"; "Por trás
dos sobrenomes, há um mundo incrível: centenas de fábricas,
milhares de chaminés, milhares de motores, milhares de operários.
Era um grupo terrível, avassalador. Com um gesto de mão,
qualquer um deles poderia me aniquilar, me tanger longe, lá na
rua". O estilo de Joel Silveira era aquilo que poderíamos
chamar de iconoclasta, ou, como ele deve preferir, desaforado.
Tem
muito mais na longa reportagem que foi capa da edição
nº 178, de 25 de novembro de 1943, de Diretrizes. Ao longo
do texto, o autor fez pouco caso dos dotes intelectuais dos grã-finos,
descreveu as futilidades de suas festas e dos motivos de suas rusgas,
deu uma mostra de como era a crônica social vigente e ainda classificou
os ricaços paulistanos em três castas principais. A primeira
seria formada pelos quatrocentões (que logo serão chamados
de quê? Quinhentões?). "São criaturas repletas
de antepassados, aqueles senhores heróicos e sem muitos escrúpulos
que rasgaram as matas de São Paulo, vadearam os rios, descobriram
as montanhas e fizeram as primeiras cidades". A segunda casta Silveira
chamou de "grupo reserva", formada pelos descendentes dos
italianos que enriqueceram na cidade. "O dinheiro é a grande
arma do segundo grupo: arma que dá qualidade ao trabalho dos
esforçados italianos, que lhes credencia na sociedade, que lhes
abre, e às suas cintilantes esposas, as inacessíveis portas
dos solares de Piratininga". "Estribo" e "Penacho"
são os nomes que o repórter deu aos representantes do
terceiro tipo de grã-fino, "um grupo lamentável e
melancólico" de gente que não era de fato milionária,
mas que fazia de tudo para aparentar que sim. "Os homens se dependuram
na vida mundana de São Paulo como se estivessem num bonde cheio.
As mulheres usam terríveis penachos, porque acreditam ser isto
a característica principal da grã-fina, como o dente de
ouro é característico em todo turco". Nem é
preciso dizer que a matéria causou escândalo na época...
"Não me morra, seu Silveira!"
- Entre a primeira e a segunda reportagem houve um interlúdio
de dois anos. Ninguém pode dizer que Silveira ficou parado neste
tempo. Em 1944 ele voltou uma segunda vez à cidade da grã-finagem,
mas dessa vez para tratar de coisa séria. Foi entrevistar o escritor
e editor Monteiro Lobato e voltou ao rio com uma matéria que
desancava a ditadura do Estado Novo, provocando a indignação
de Getulio Vargas. Diretrizes foi fechada e Samuel Wainer foi
obrigado a fugir para os EUA (mas não por muito tempo, no ciclo
seguinte, quando Vargas voltou ao poder, dessa vez como um democrata,
o jornalista e o presidente tornaram-se grandes amigos, mas essa é
outra história de malaquice). Quanto ao desaforado Silveira,
depois de umas férias forçadas em Lagarto, no Sergipe,
voltou ao Rio dessa vez para trabalhar com Assis Chateaubriand, o Chatô,
rei da imprensa brasileira da primeira metade do século passado.
Nos Diários Associados, a Víbora (apelido dado a Silveira
por seu novo patrão) acabou virando correspondente de guerra
nos primeiros meses de trabalho, aos 26 anos de idade. Ficaram famosas
as palavras de despedida de Chatô: "Vá para guerra,
seu Silveira, mas, por favor, não me morra! Não me morra,
seu Silveira! Repórter não é para morrer. Repórter
é para mandar notícias". Dez meses cobrindo a II
Guerra Mundial depois, "seu Silveira" foi chamado para cobrir
outro conflito, este dentro do Brasil mesmo. No caso era um atrito comercial
envolvendo Chatô versus Conde Francisco Matarazzo Jr., o milionário
paulista que naquele mesmo ano de 1945 estava prestes a casar sua filha.
"A
Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista", talvez a mais
famosa reportagem já feita no país, basicamente é
a cobertura de uma festa para a qual o autor, desafeto de toda a alta
sociedade de São Paulo, não foi convidado. Bem menor que
sua antecessora, a matéria sobre as bodas de Filly Matarazzo
com o milionário, e ex-pracinha, João Lage saiu nas páginas
do jornal Diário da Noite com uma dose de sarcasmo ainda
maior que "Grã-Finos em São Paulo". A tal festança
na verdade foi um coletivo de comemorações. Segundo levantamento
do repórter, foram "26 jantares em residências particulares;
oito recepções, 16 ceias no Jequiti e sete no Roof, não
falando de uma série de pequenos incidentes mundanos: coquetéis,
chás com torradas, encontros formais, coisas assim". É
preciso lembrar que todo esse arsenal de festividades foi montado em
uma terra que tinha acabado de enfrentar um racionamento dos brabos,
devido à guerra na Europa e aos submarinos alemães que
infernizavam o tráfego marítimo internacional, famílias
de cinco pessoas tinham direito de levar para casa diariamente um litro
de leite e 750 gramas de carne, além de um quilo de açúcar
por quinzena (um outro jornalista polêmico daquela época,
Edmar Morel, causou uma epidemia de ódio no país ao revelar
que uma égua de corrida, chamada Farpa, era alimentada todos
os dias com quatro litros de leite adoçados com um quilo de açúcar).
Como contraponto a todo aquele festival de ostentação,
Silveira preparou um xeque-mate na reputação dos Matarazzo
ao fazer uma cobertura paralela no mesmo texto sobre um segundo casamento
que ocorreu por aqueles dias: o do torneiro-mecânico José
Todeschi e de Nadir Ramos, operária de uma das fábricas
da poderosa família grã-fina.
A
comparação entre as duas cerimônias é que
torna esse texto um primor da crueldade que uma matéria jornalística
pode atingir nas mãos de um expert. A decadência que anos
mais tarde atingiu o complexo industrial dos Matarazzo ajudou ainda
a tornar aquela reportagem profética (em certo ponto, Dona Olívia,
mãe da noiva pobre daquela noite tão famosa, disse a Silveira:
"Não sei não, meu senhor, mas acho que o Conde Chiquinho
está gastando dinheiro demais"), garantindo que o texto
nunca tenha sido considerado datado ou coisa do tipo. Mas, para além
dos fatos, foi o estilo usado por Joel Silveira em seus dois atentados
contra a alta burguesia de São Paulo que fez deles textos seminais
para a história da reportagem nacional. O uso preciso dos sempre
perigosos adjetivos e de outros recursos emprestados da ficção
foi o que fez a fama desse grande malaco e de seus textos. Ironicamente,
apesar de empregar elementos de romance em suas matérias, o jornalista
não passou em um teste sobre a qualidade de sua ficção.
Certa vez, ao mostrar um material literário para o romancista
Graciliano Ramos (outro grande malaco, aliás) o resultado foi
anticlimático: o autor de Vidas Secas amassou o papel
entregue por Silveira, jogou fora e nunca mais tocou no assunto com
o amigo. É uma pena que o jornalista não tenha entendido
direito o recado e insistiu em voltar a escrever textos de ficção,
coisa muito ruim. Como pôde comprovar quem leu uma amostra, por
exemplo, na defunta revista Bundas.
Mas uma coisa é certa, do texto
jornalístico do sergipano não consta nenhuma dúvida
sobre sua qualidade. Prova disso é a inclusão das duas
matérias comentadas aqui, entre outros 14 excelentes textos,
no recente livro A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista,
que faz parte da coleção "Jornalismo Literário"
publicada pela Companhia das Letras. Formada por material escolhido
com rigor, em uma coordenação feita pelo jornalista Matinas
Suzuki Jr., a coleção reúne obras totalmente indispensáveis
para quem acredita que o jornalismo pode ser praticado com qualidade.
Silveira está muito bem acompanhado e foi o primeiro não-americano
incluído na série, mais ainda, foi o primeiro a não
ter sua reportagem publicada primeiro na mítica revista New
Yorker. Os outros livros de "Jornalismo Literário"
são: Hiroshima, de John Hersey, formado por duas reportagens
com sobreviventes da cidade que foi arrasada pelo poderio atômico
dos EUA, sendo que a primeira delas foi feita apenas um ano depois da
chacina nuclear; O Segredo de Joe Gould, de Joseph Mitchell,
notável perfil de um boêmio nova-iorquino publicada também
em dois estágios, um antes e outro depois da morte do protagonista;
A Sangue Frio, de Truman Capote, matéria que saiu em quatro
capítulos na revista descrevendo com tantos detalhes o assassinato
de uma família do Kansas que é considerada o marco inicial
de um estilo diferente de reportagem, o Novo Jornalismo. Se o distinto
leitor escolher qualquer um desses livros para, por exemplo, passar
o dia em que se comemora o aniversário de São Paulo, pode
estar certo de uma coisa: vale muito mais a pena que perder tempo com
minisséries globais.
Romeu Martins
Imagens: Istoé
Dinheiro
Mais informações
sobre São Paulo e o aniversário de 450 anos em www.sampacentro.com.br