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Jornalismo independente: artigo em falta
Como o merchandising, o jabaculê, a falta de investimeno nas redações e a preguiça dos jornalistas estão prejudicando a imprensa brasileira e mundial

Um domingo qualquer, por volta das 22h. Com a naturalidade de sempre, Milton Neves (o sorridente da foto ao lado) pede uma pausa no debate esportivo da Record porque é hora de um jogador testar toda a eficiência da lâmina de barbear X. Muda-se para a RedeTV e Roberto Avallone cessa a gritaria para "mandar um abraço" para a empresa tal. Espera-se só mais uma meia hora até começar o interminável desfile de aprendizes de Amaury Jr. locais, todos comparecendo a eventos espetaculares, com aspirantes ao mundo de Caras, sem pretensão de disfarçar o jabaculê (embora não declarado).

Mesmo para um leigo é fácil verificar como as fronteiras entre o jornalismo independente e merchandising, entretenimento ou notícias sobre celebridades estão cada vez mais estreitas - nos lugares onde elas ainda existem. Os pseudo-telejornais da tarde gastam mais tempo de programa com anúncios feitos pelos apresentadores do que com informações em si. O formato de "reportagem" foi vulgarizado para mostrar coisas que não são de interesse do público e chega a produzir bizarrices como esta, que passou na TV do último Fórum Social Mundial: ao entrevistar o cartunista Ziraldo, elogiando a experiência do Pasquim, o apresentador o interrompe para falar sobre um patrocinador, colocando a mão no braço do pai do Menino Maluquinho e dizendo de olho na câmera: "e o telefone, Ziraldo, é muito simples..."

Tudo bem. Isso já é assim há muito tempo. Qual a novidade? A novidade é que as coisas estão piorando e as ameaças concretas ao futuro da imprensa livre e independente, supostamente garantida no modelo capitalista ocidental, vêm dos interesses comerciais das empresas midiáticas. Num fenômeno mundial, as pressões para que os jornalistas que se recusam a entrar no jogo passem para o "lado negro da força" em busca de maiores lucros para seus patrões (ou para si próprios) estão aumentado. No Brasil, devido aos péssimos resultados financeiros das empresas de comunicação nos últimos anos (atualmente com o chapéu às portas do BNDES), esse processo está ainda mais acelerado.

A recente troca de cadeiras nas mesas-redondas do esporte, que motivou uma capa da revista Carta Capital sobre o assunto e debate acalorado entre figuras como Juca Kfouri e José Trajano, recusando-se a entrar na dança do merchandising; Milton Neves e Roberto Avallone, defendendo o seu direito de anunciar; foi só o começo da discussão. No fim de 2003 ainda houve tempo para Joelmir Beting, talvez o mais célebre jornalista de economia do país, aparecer numa propaganda de fundos de investimento do Bradesco e alegar que isso não afeta de nenhuma maneira sua credibilidade. Perdeu suas colunas no Estadão e em O Globo. Ganhou uma referência ao caso na coluna do ombudsman da Folha.

A coisa ficou tão delicada, com limites tão confusos, que a mesma edição de Carta Capital que trouxe a capa sobre a briga entre os apresentadores esportivos foi entregue aos assinantes encartada numa capa falsa, com o logo da revista, mas veiculando publicidade. Há ainda o caso do Delfim Netto, que recebeu referências nada elogiosas no terceiro livro de Elio Gaspari da série em que a última ditadura brasileira é documentada. Delfim, homem forte da economia no tempo dos generais-presidentes, surge no livro jogando os efeitos de uma bolha especulativa para baixo do tapete do milagre brasileiro dos anos 70, bomba-relógio que como todos sabemos (ou, pelo menos, sentimos) nas duas décadas seguintes. Duas revistas dos Grupo Três, mesmo sem fazer referência ao livro gaspariano, transformaram Delfim em pauta em suas páginas: A Istoé Dinheiro deu capa para supostos "arquivos secretos" do hoje deputado federal, semanas depois a Istoé mãe o utilizou como entrevistado principal em suas páginas vermelhas. Alberto Dines, no site Observatório da Imprensa, foi à carga: ambas as matérias teriam sido compradas por Delfim, um jabá de um produto como as lâminas de barbear dos programas de auditório, a reputação política de alguém que ainda quer manter seu nome na mídia (Delfim é colunista na Folha de S. Paulo e na Carta Capital, não custa lembrar).

Toda essa introdução para dizer que saiu no Brasil há quase um ano um livro que discute essas questões urgentes para os profissionais da área ou para quem simplesmente acredita que democracia, autogoverno ou liberdade têm relação direta com imprensa independente. Os Elementos do Jornalismo: O que os jornalistas devem saber e o público exigir (Geração Editorial, 302 pg.) é o resultado de um debate entre 25 dos mais importantes jornalistas americanos, que ocorreu ao longo de 1999 e foi compilado em livro pelos autores Bill Kovach e Tom Rosenstiel. Numa frase deles sintética o suficiente para ser puxada à orelha do livro, "estamos enfrentando a possibilidade de o noticiário independente ser substituído por interesses comerciais apresentados como notícia". Por esse livro se tornar mais relevante a cada dia, o Marca Diabo julgou oportuno falar dele tanto tempo após o lançamento.

A forma encontrada para discutir os problemas em profundidade foi listar quais os elementos fundamentais do jornalismo bem feito e, a partir daí, analisar os motivos pelos quais cada um deles está na lista. São princípios aparentemente simples como "A primeira obrigação do jornalismo é com a verdade", "Sua primeira lealdade é com os cidadãos" ou "Deve manter as notícias compreensíveis e equilibradas". Porém, quando olhados de perto, revelam a complexidade que é botá-los em prática quando as redações estão com cada vez menos gente para apurar as matérias, a pressão pela redução dos custos aumenta sobre os editores e, muitas vezes, os interesses das corporações se apresentam com força suficiente para intimidar muitos repórteres e chefes.

Os Elementos do Jornalismo vai ainda mais longe. Pega exemplos ocorridos nos Estados Unidos para mostrar o que as reportagens mal feitas podem causar, assim como o poder que elas podem ter quando bem executadas. O caso mais lembrado, sempre, é o Watergate, quando dois repórteres do Washington Post conseguiram provas que derrubaram o presidente Richard Nixon. Outro exemplo interessante mostra como o problema também está ligado ao caráter e uma "cultura de honestidade" necessária nas redações: os chamados "Pentagon Papers", documentos secretos cuja publicação representou um marco na liberdade de imprensa. O New York Times publicou e foi processado pelo governo. A dona do Washington Post, Katherine Graham, não se intimidou e, pela credibilidade de seu jornal, também permitiu a publicação apesar dos riscos.

Um dos temas mais bem desenvolvidos no livro é o terceiro elemento: "A essência do jornalismo é a disciplina da verificação". Ele estabelece o que separa o jornalismo de outras formas de comunicação. "O entretenimento - e seu primo, o 'infotaiment' - se concentra no que é mais divertido. A propaganda seleciona os fatos ou os inventa para servir a um propósito, que é a persuasão ou a manipulação. A literatura inventa cenários para chegar a um impressão mais pessoal do que se chama verdade. Só o jornalismo se concentra primeiro em registrar direito o que aconteceu." Ou seja, com ou sem opinião, o jornalismo deve ater-se aos fatos, e verificá-los, checar como as coisas aconteceram. Para melhor entendimento de como isso está em "desuso" no Brasil, é só lembrar como as notícias falsas produzidas pelo site de humor Cocadaboa fizeram estrago quando começaram a aparecer. Em resumo, elas chegavam no formato padrão das notícias curtas ou dos releases de assessoria de imprensa. Isso foi suficiente para enganar muita gente em sites e jornais respeitados, acostumados que estavam a simplesmente "baixar" as matérias que chegavam até eles sem dar sequer um telefonema para as fontes e verificar a veracidade das informações.

Numa metáfora espirituosa, Kovach e Rosenstiel questionam qual rumo os jornalistas, com a pressão do publico, escolherão seguir. O objetivo é chamar a atenção rápido do maior número de pessoas, como alguém que fica pelado no meio da rua? Certamente muita gente parará para olhar, mas o interesse acabará tão rápido quanto começou. Já criar um público fiel na rua é mais trabalhoso. Como um tocador de violão que se abanca um dia próximo a um ponto de movimento. Se ele tocar bem e aparecer com freqüência, a audiência crescente, fiel e apreciará seu número.

Giuliano Ventura
Colaboraram Romeu Martins e Marcelo Soares

"O modelo americano não presta mais"
Nilson Lage comenta suas impressões sobre a crise no jornalismo

Se existe alguém que vale a pena ser ouvido a respeito do passado, presente e futuro do jornalismo, essa pessoa é Nilson Lemos Lage, doutor em Lingüística, Mestre em Comunicação e Bacharel em Letras. Ainda na década de 50, ele fez parte da equipe que introduziu no Brasil, a partir do jornal Diário Carioca, uma nova técnica de jornalismo adaptada da experiência dos EUA. Com o lead (parágrafo introdutório das notícias que deve responder sucintamente uma série de questões básicas) houve uma revolução de objetividade na imprensa nacional. Fatos foram separados de opiniões, restritas às colunas, resenhas e editoriais.

Ao sair das redações, depois de passar, entre outros, por O Globo, Jornal do Brasil e TV Manchete, Lage transferiu-se para a academia (nas Universidades Federais do Rio de Janeiro, Fluminense e, há 11 anos, na de Santa Catarina). E lá veio uma segunda revolução. Seu livro Ideologia e Técnica da Notícia foi um marco, indicando novas possibilidades para o ensino e para a prática da profissão e sugerindo uma inusitada fuga da órbita das Ciências Humanas para travar um contato com as Exatas. Coerente com o que escreveu, na Universidade Lage passou a pesquisar assuntos como redes neurais e automação de textos, temas típicos de centros de excelência como o Massachusetts Institute of Technology mas verdadeiros forasteiros no ideologizado e malemolente mundo da Comunicação Social brasileira.

Temporariamente afastado do meio acadêmico, o professor assumiu há seis meses a direção do Instituto Brasileiro de Informações Científicas e Tecnológicas, órgão ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia (ainda é meio cedo para dizer se está vindo por aí uma terceira revolução...). Apesar da agenda apertada que o faz freqüentar, ainda que meio à contra-gosto, o eixo Brasília-Florianópolis (onde ainda mantém residência, esperando voltar em breve às suas aulas na UFSC), ele encontrou tempo para responder a uma breve entrevista por e-mail.

Marca Diabo - Muitos analistas dizem que a crise atual na imprensa é a mais profunda, abrangente e duradoura que já enfrentamos. Com toda sua experiência no jornalismo, praticando e ensinando a profissão, o sr. tem alguma explicação para o caos que atingiu a categoria?
Nilson Lage - A crise é sempre oportunidade do avanço - embora possa ser o momento final de um processo. O que ocorre é mudança radical na maneira de se exercer a profissão. Primeiro porque o jornalismo passou a ser, na prática, algo que se processa em computador, de modo que tudo mais (impressoras, microfones, câmaras etc.) entrou para a categoria dos periféricos. Desapareceram e desaparecem profissões antes valorizadas (não há mais trabalhadores gráficos; no futuro próximo, creio que será difícil para um repórter encontrar emprego se não souber operar com proficiência câmaras digitais de vídeo e foto, programas
de processamento de imagem, de editoração etc.). Em segundo lugar, o rearranjo político modificou estruturas e valores. A grande imprensa dos Estados Unidos é cada vez mais tendenciosa e fortemente opinativa: para um New York Times, criou-se um New York Post; para um Washington Post, um Washington Times; para uma CNN (que já não era lá modelo de objetividade), uma Fox. São empresas comandadas por criaturas cínicas e mercenárias, que exploram o patriotismo isolacionista do povo americano e suas fantasias mais perversas - nada parecido com jornalismo de qualidade. Isso significa que a isenção e a honestidade passam a ser atributos que devemos cultivar a partir de perspectivas próprias, abandonando a cópia de valores segundo os quais bombardear uma cidade para assassinar uma pessoa é atitude legítima, e o qualificativo de ditador se aplica a um líder histórico, como Fidel Castro e não a mediocridades como o príncipe saudita ou o títere afegão. O modelo americano não presta mais. Pelo menos não é confiável.

MD - Baseado nessa mesma experiência de quem viu tantas reformulações no jornalismo, o sr. vê alguma saída para essa situação, algo além de um suposto socorro emergencial via BNDES?
NL - Jornalismo, como negócio, é serviço público. Depende de publicidade e, portanto, do andamento da economia - se em recessão, como esteve e está há muito tempo, as receitas caem. Depende também da credibilidade e esperança, que recuam quando as pessoas se sentem frustradas e tendem a buscar asilo longo do cruel mundo real.

MD - Nessa linha de descrédito não só da imprensa mas também dos jornalistas, ao que se pode atribuir toda essa movimentação jurídica de tempos recentes, ora caçando a necessidade do diploma em jornalismo para exercer à profissão, ora voltando atrás?
NL - A jogada do diploma é uma armação do Otavinho, o poderoso [Nota do Editor: Otávio Frias Filho, herdeiro e diretor de redação da Folha de S. Paulo e notório crítico da exigência do diploma para jornalistas]. Pior é o comportamento de corporações, como a de magistrados e médicos, que culpam a imprensa, sem considerar que boa parte da injustiça e, certamente, da medicina porca (cirurgias estéticas mal feitas, superdosagem de medicamentos, cesarianas desnecessárias, entre outras patifarias) devem-se a bacharéis e doutores. Na maioria dos casos, jornalistas erram por ignorância das técnicas da profissão ou por preguiça; os casos de desonestidade não são comuns como eles pensam.

MD - Por fim: como uma espécie de derivado do merchandising televisivo e do jabá radiofônico, temos notado um avanço da publicidade para cima de espaços editoriais. Até mesmo uma das poucas publicações que abriram espaço para tratar do assunto, a Carta Capital, fez suas concessões, isso para não falar no caso Joelmir Beting... Na sua opinião, esse tipo de atitude não é mais um risco que a credibilidade da profissão está correndo?
NL - A publicidade avança sobre o jornalismo exatamente porque ele tem o que a ela falta: credibilidade. Cabe aos jornalistas (empresas também; credibilidade é a garantia de faturamento) dar um chega-prá-la na turma do jabá.

Romeu Martins

 

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