Entrevista

O mecenas do pior futebol do mundo
Marca Diabo encontra o inglês que impulsionou o futebol em Butão, o país que ninguém lembra onde fica

O Butão é um país que definitivamente não está no nosso inconsciente. Quando alguém cita o país numa conversa de boteco, não é incomum o interlocutor ter que se explicar dizendo que se trata de "Butão, o país", e não aquele troço que nos ajuda a trocar de canal e descongelar comida. Mas desde quando esse lugar escondido no meio do Himalaia (a figura ao lado é a bandeira local, exceto a bola, por enquanto) e com população predominantemente budista passou a ser conversa de bar? Para os mais curiosos, e fãs de futebol, desde o dia 30 de junho de 2002 - data em que Brasil e Alemanha decidiram a final da Copa do Mundo - quando a seleção butanesa venceu a disputa de "pior do mundo" com a equipe de Montserrat (outro país que até o mapa do War esqueceu). Como prêmio pela vitória, a seleção de Butão passou a figurar nos quadros da Fifa e, mesmo na condição de pior entre os melhores, conseguiu uma vaga para a Copa da Ásia que acontece neste ano depois de golear Guam (6 X 0) e empatar com a Mongólia (0 X 0). Agora, irá enfrentar potências como Arábia Saudita, Indonésia e Iêmen.

A milhares de quilômetros do Himalaia, na cidade portuária de Southampton, sul da Inglaterra, um cidadão interessado no assunto e que provavelmente teve que explicar pros amigos onde ficava o tal do Butão resolveu se coçar. Com certeza, Matthew Guy fez mais do que muito figurão que ganha prêmio por "responsabilidade social" ao criar a fundação "Balls For Buthan", que já mandou para a Ásia milhares de libras em doações de material esportivo. Detalhe: a fundação foi criada sete meses antes de Butão vencer a partida contra Montserrat, ou seja, quando nem era assunto de boteco. Foi por causa de uma Copa do Mundo (a da França, em 1998) que o país teve a televisão liberada pela primeira vez. E novamente por causa do futebol, o país vem recebendo doações de diversas partes do mundo - Europa, especialmente.

A molecada está adorando. Tanto é que numa de suas idas ao Butão, Matthew, 30 anos de idade, criou um time de futebol (Druk United), formado por garotos de 17 e 18 anos e que disputa, a duras penas, a primeira divisão local. Não ria, pois pior que ser um time da primeira divisão de Butão é estar num time na segunda ou na terceirona - mesmo número de divisões do campeonato brasileiro, mesmo que isso não totalize mais do que vinte times e na "série C" as equipes sejam quase todas juniores. Matthew não foi o único maluco a apostar suas fichas nos butaneses. O diretor alemão Johan Kramer aproveitou o clássico "Butão Vs. Montserrat" para fazer o documentário The Other Final, que pelo visto só passou no circuito alternativo europeu.

Depois de tomarmos conhecimento deste caso raro numa matéria do jornalista Rodrigo Bueno para a Folha de S. Paulo, fomos à procura do inglês. Mais acessível do que a síndica do meu prédio (ele respondeu o e-mail em menos de 24 horas), Matthew Guy explicou ao Marca Diabo como mantém o seu time de garotos à distância e também o interesse desses budistas num negócio tão competitivo e com enormes dificuldades naturais (jogar futebol numa altitude de 5.000 metros faz a Bolívia parecer Miami). "Eu percebi como mandar um pouco desse material pode ajudar tanta gente, então gestos pequenos como o Balls For Buthan pode ir longe ao ajudar as crianças a jogarem o que elas gostam", ponderou. Esse cara é mesmo um abnegado.

Marca Diabo - Como você acha que pode minimizar as dificuldades naturais de Butão (geografia, falta de dinheiro, particularidades religiosas) para ajudar o futebol a prosperar por lá?

Mattew Guy - A geografia do país vai ser sempre um problema. É difícil viajar pelo interior, mas o futebol é jogado em todas as partes do país. O maior problema é o dinheiro e por ser um país muito pobre não há muito equipamento ou verbas disponíveis para ajudar os meninos que jogam futebol. Por isso eles não se desenvolvem no esporte. De qualquer forma, eu percebi como mandar um pouco desse material pode ajudar tanta gente, então gestos pequenos como o Balls For Buthan pode ir longe ao ajudar as crianças a jogarem o que elas gostam - e isso vai ajudar o esporte a prosperar.

MD - A seleção de Butão recentemente se filiou à FIFA, venceu alguns jogos eliminatórios e vai jogar na Copa da Ásia contra a Arábia Saudita, que disputou as últimas três Copas do Mundo. O que a equipe mais precisa para encarar esses times mais experientes?

Guy - Para que a seleção esteja apta para competir com times como a Arábia Saudita, eles precisam de mais exposição, mais oportunidades de jogar em equipes internacionais. Eles também precisam de mais oportunidades de jogar futebol em Butão. No momento, a liga nacional dura apenas três meses, enquanto precisaria ter um calendário com pelo menos nove, dez meses - assim eles poderão jogar melhor. Está mais fácil ser um treinador em Butão pois estão chegando profissionais treinados pela FIFA, têm técnica, etc... então tudo o que os jogadores precisam é de mais experiência porque estou certo que eles irão melhorar.

MD - Butão até exportou um jogador para o futebol da Índia, o centroavante Wangay Dorji. Existem mais boleiros de lá em ligas de outros países? Qual é a maior dificuldade em tentar levar jogadores butaneses para outros países?

Guy - Até onde eu sei, Wangay Dorji é o único que foi para jogar em país nos últimos anos, apesar de alguns butaneses que estudam na Índia também jogarem às vezes... mas Dorji é com certeza o mais bem sucedido. O problema de tentar levar os jogadores de lá para outros países é realmente a falta de condições financeiras. Além de os times não terem dinheiro para trazer gente de fora, os jogadores butanenses não eram considerados bons o suficiente para estar em qualquer outro lugar. Eu acho que isso pode mudar nos próximos anos.

MD - Você tem algum contato com os produtores do documentário The Other Final, sobre aquele jogo entre Butão e Montserrat em 2002? Existe atualmente alguma ligação entre a sua fundação e o pessoal que fez o filme?

Guy - Sim, eu conheci os produtores do The Other Final - é estranho, pois nós começamos a trabalhar sobre Butão num mesmo período, mas não tínhamos conhecimento do trabalho um do outro há até pouco tempo. Eu não tive participação alguma no filme, mas eu ajudei na divulgação agora que ele foi lançado e nós fizemos uma sessão num cinema de Southampton. Agora eu considero o pessoal que fez o documentário como meus amigos, trabalhando juntos pelo mesmo objetivo - quanto a isso eu também enviei uma colaboração para Montserrat, para ajudar o futebol de lá também.

MD - Você também fundou um time por lá, o Druk United. Como eles foram no último campeonato e como você mantém o time junto morando na Inglaterra?

Guy - O Druk United vai bem. Nós fomos os últimos colocados na primeira divisão, também porque nossos jogadores têm entre 17 e 18 anos, alguns são ainda mais novos, e eles enfrentaram caras mais velhos e que estão na seleção. Mas dentro de nossas expectativas fomos bem e onze de nossos jogadores foram selecionados para as seleções nacionais de base, para meninos entre 17 e 19 anos, para futuros torneios. Todos os outros times perceberam que eles jogaram bem este campeonato, mas faltou um trabalho físico que os jogadores mais experientes têm.

Hoje em dia, quem cuida do time diariamente é Karma Dorji, secretário do clube e grande amigo meu, que mora na capital, Thimphu. O treinador é Chokey Nima, que já jogou na seleção local e hoje mantém os meninos bem dispostos durante os treinamentos.

MD - Sobre a fundação. Quando é que você começou esse trabalho e com quanto (em auxílio e doações) você pode dizer que conseguiu ajudar os butaneses?

Guy - A fundação Balls For Bhutan começou em novembro de 2001 e até o momento conseguimos mandar o equivalente a £ 4.000 (N.do E: da libra esterlina pra nossa merreca, uns R$ 20 mil) em material esportivo para pessoas em diversas partes do país. Começando formando o Druk United, que deu a alguns jovens a chance de jogar futebol. Recentemente, mandamos kits de material para outras pessoas pelo país, desde que iniciem novos times ou ajudem outros que já existem. Até agora já ajudamos onze equipes e num futuro próximo estaremos ajudando outros seis.

Fizemos também alguns eventos para arrecadar recursos aqui na Inglaterra e pedimos aos clubes para que doassem camisas de futebol que estivessem fora de uso, etc... assim, mandamos tudo pra Butão e eles souberam aproveitar o material. Os times ingleses podem não querer mais essas camisas na Ásia fazia a diferença para quem quer jogar futebol. É tão satisfatório ouvir pessoas que ganharam esses kits dizendo como estão felizes agora que podem jogar, enquanto antes eles não tinham condições de comprar nada daquilo. Quem quiser colaborar com material esportivo pode mandar um e-mail para a fundação (ballsforbhutan@hotmail.com) que eu envio um endereço de Butão para receber as doações. Estamos abertos a qualquer tipo de ajuda ou novas idéias para este projeto.

Fabrício Rodrigues