Matéria

O que sobrou de Zappa?
Dez anos depois de sua morte, ninguém mais taca o horror como o narigudo genial

Ao anunciar que queria ser candidato à presidência dos Estados Unidos, no início dos anos 90, Frank Zappa argumentou: "os americanos são boa gente, mas sempre escolhem idiotas para governá-los". Consciente de que não teria chance alguma de chegar à Casa Branca em uma eleição que colocaria em disputa a velha doutrina republicana de George Bush (pai) diante do maconheirismo-careta do democrata Bill Clinton, Zappa tentou ao menos dar uma chance aos seus compatriotas. Alguns meses depois, acabou desistindo da idéia devido ao agravamento de seu estado de saúde. Em 4 de dezembro de 1993, a 17 dias de completar 43 anos, Frank Vincent Zappa faleceu em decorrência de um câncer na próstata. Junto com ele, foi embora boa parte do sarcasmo e dos ataques ao politicamente correto na música.

E agora, dez anos depois que ele morreu, o que sobrou de Zappa? Infelizmente não muito mais do que os sessenta e poucos discos de seu catálogo, editados em CD no Brasil só a partir de 1998, e um DVD ao vivo lançado originalmente em VHS em 1986 e que chegou às lojas agora em dezembro: Does Humor Belong In Music?, raro registro do que esse maestro do mal fazia em cima do palco. Quem conhece 0,1% da obra de Zappa já mata a pergunta ("será que o humor pertence à música?"), que estava sendo feita pro resto da tigrada: metaleiros, pós-punks, novos românticos, cantores country, baladeiros pop, jazzistas de segundo escalão... Quem se leva a sério demais merece uma escarrada. E foi o que Zappa fez desde Freak Out (66), o primeiro álbum duplo do rock, e continuou fazendo até seus últimos trabalhos fora do "universo erudito", como Broadway The Hardway, disco que "não faria o Partido Republicano se reeleger, se os americanos tivessem ouvido ele direito", segundo seu próprio autor. Para tristeza dele e do resto da nação, os republicanos se elegeram, depois perderam, se elegeram novamente e agora estão a um passo de ficar na Casa Branca até 2008, pelo menos.

E o que estaria fazendo Zappa caso tivesse sobrevivido ao câncer diante das atrocidades diplomáticas e culturais de W. Bush? Muito provavelmente algo parecido com o que fez quando enfrentou Tipper Gore e a "liga das senhoras crentes" que perseguiram não só suas músicas como as de Bruce Springsteen, Madonna (não seria esse último caso por algum bom motivo?) e outros tantos "subversivos": lançando discos, tirando sarro e sendo novamente boicotado. Sua música, que já não é nenhum pouco "radio friendly" como dizem os gringos, já sofreu as mais diversas negativas. Jazz From Hell, de 86, teve sua venda proibida em algumas das maiores cadeias de supermercado por causa de suas "letras impróprias" - o disco era instrumental. Depois, alegaram que a capa era ofensiva. Apesar do nariz de Zappa ocupar boa parte da foto da capa em que aparece apenas com uma cara sisuda, não há muito o que considerar ofensivo. Hoje em dia, Frank não teria muito mais do que uma meia-dúzia de colegas com culhão de vir à público detonar o governo - afinal de contas, quantos Michael Moore e Sean Penn ainda existem?

Fora das discussões políticas, o legado que Zappa deixou, e que alguns consideram maldito, é praticamente inexistente em termos gerais. Pois não é bem assim pra se achar músicos da qualidade de Ike Willis, Terry Bozzio, Jean-Luc Ponty ou Adrian Belew pra ficar tocando peças estrambólicas por aí; seus filhos Dweezil e Moon Unit (que só chegou a gravar uma música, "Valley Girl", com o pai) acabaram não aparecendo pro mundo, o que seria uma puta responsa pro ombro dos jovens Zappa; nem mesmo o "aprendiz de guitarra" Steve Vai levou para a carreira solo aquilo que aprendeu com Frank - é só tomar como base os trabalhos que ele fez com Dave Lee Roth e Whitesnake.

Logo, o que sobrou de Zappa foi a memória e seu riquíssimo catálogo. Enquanto esteve se aventurando pela psicodelia, fusion, jazz, hard rock, eletrônica e afins, jamais deixou de nos divertir com letras bizarras (como as de The Torture Never Stops, My Guitar Wants To Kill Your Mama, Catholic Girls...), andamentos musicais caóticos (alterava compassos deliberadamente no estúdio e mesclava material ao vivo com overdubs de forma quase irreconhecível) e um senso de humor que não se vê mais por aí. Não com a mesma intensidade e a falta de classe digna de um grande malaco.

Fabrício Rodrigues