Entrevista - Irmãos Panarotto (Repolho)

Os irmãos bastardos do róque
Numa retrospectiva de 13 anos de carreira, os chapecoenses malacos contam as origens e chegam até a ser cuspidos pela reportagem

Desde 1991 um vírus vindo do oeste catarinense assola o sul do Brasil. Não, não se trata da febre aftosa e muito menos do mal da vaca louca. Estamos falando do Repolho, lendária banda de Chapecó que há 13 anos vem contaminando os ouvidos mais atentos com seu som que mistura tropicalismo, música brega, funk carioca, letras impagáveis e róque. Fundada pelos irmãos Roberto e Demétrio Panarotto, o Repolho já teve diversas formações, chegando a contar em suas fileiras com os não menos lendários Frank Jorge e Marcelo Birck. Entre seus fãs encontram-se, entre outros, Tom Zé (com quem já dividiram o palco), Marcelo Camelo e Edu K (produtor do segundo disco da banda).

Tocando fantasiados e tacando o horror por onde passam, os caras queimaram tanto o filme em sua terra natal que em determinado momento serviam como bode expiatório para tudo de ruim que acontecia na cidade. Entre os lugares inusitados nos quais a banda já tocou , encontram-se uma penitenciária e uma sala de aula de pré-escola. Atualmente os Irmãos Panarotto estão lançando seu primeiro disco solo em dupla, 2Violão e 1Balde, que traz canções do Repolho que nunca tinham sido registradas. Nesta entrevista os dois contam a história do Repolho, falam do envolvimento deles com o rock gaúcho, comentam a pecha de banda engraçadinha e, num caso sem precedentes na imprensa mundial, são cuspidos com cerveja por um dos repórteres do Marca Diabo.

Marca Diabo - Como começou o contato de vocês com as bandas gaúchas? Como é que o material delas chegava em Chapecó?
Demétrio - Cara, na verdade a gente que chegou lá. Quem perambulava lá (no RS) no começo era o Roberto. Ele perambulava por lá e levou as demos para Chapecó. O cara foi assistir o Faith No More, foi assistir o Deep Purple, e voltava com as fitas.
Roberto - Chapecó sempre teve uma referência muito grande de rock gaúcho porque tocava muito na rádio, essa coisarada toda. Então tu já tinha uma referência forte de bandas que estavam muito mais perto do eixo Rio-São Paulo, Brasília que seja.
D - Não só tocava na rádio como até o ano passado as rádios de lá só pegavam a programação da Atlântida de Porto Alegre. As daqui (de Florianópolis) não pegavam. A gente não tinha vínculos com a televisão do estado de Santa Catarina. Nós tínhamos vínculos com a TV Alto Uruguai, de Erechim (RS), então a programação da RBS era a programação que vinha de lá. A TV Bandeirantes pegava a retransmissora de Cascavel (PR). Só pra ilustrar, Chapecó está a 450km de Porto Alegre, 510km de Curitiba, e 565km, quase 570km de Florianópolis, a capital de Santa Catarina. Isso porque recentemente ajeitaram a estrada de Lages até Florianópolis, senão a distância seria de seiscentos e poucos quilômetros.
R - E nesse sentido a gente sempre teve curiosidade de estar pesquisando coisas novas, porque como toda cidade do interior no final da década de 80, você ia numa loja de discos e encontrava aquilo que tava tocando na rádio, Paralamas, Ira, mas você não encontrava coisas diferentes. E a gente fazia umas indiadas pra ir pra Porto Alegre à noite, chegava lá cinco, seis horas da manhã e ficava esperando na rua até 10 da manhã, que era quando abriam as lojas de disco. A gente ficava o dia inteiro tomando água e comendo bolacha pra pegar esse material e à noite a gente voltava. Quando tinha show, a gente dormia na rua. Via o show, ficava na rua e voltava no dia seguinte. Eu me interessei por Graforréia (Xilarmônica) porque o baixista tocava nos Cascavelettes. Eu peguei a Graforréia e peguei os Obsoletos, que era a outra banda do Frank Jorge na época. E a identificação foi imediata. Naquela época a gente já tinha uma idéia do que a gente queria montar enquanto banda.

MD - Vocês já eram músicos na época?
R - Cara, músicos nós nunca fomos (risos).

MD - Vocês tinham instrumentos, pelo menos?
D - Em 89 a gente tinha, mas não tínhamos a banda constituída. O nome Repolho surgiu de uma galinhagem que a gente nem esperava que fosse se traduzir como uma banda. Tinha uma banda em Chapecó que se chamava A Face. E a gente brincava: "banda Alface, vamos montar uma banda que se chama Repolho". E aí de repente, em 88 foi feita a letra de "Chapecó". E a gente gravou a partir da base de um vinil, na época.
R - Os aparelhos de som vinham com uma funçâo karaokê. Tinha um plugue pra colocar o microfone e em determinado momento eu descobri que se ligasse o "REC" do deck aquilo gravava (risos). Maravilha! Aí gravamos a voz em cima. A gente pegava e acelerava as batidas da base, colocava 45 rotações e cantava em cima disso. Essa base da música "Chapecó" não tinha letra, era uma base de rap. Aí, como todo o rap que tu pegar e tentar cantar em cima, ele funciona. Qualquer batida que tu pegar, tu pega qualquer letra que cabe. Na época a gente ficou: "olha, serviu, meu Deus!", uma coisa mediúnica (risos). Daí a gente colocou pra tocar na rádio. A rádio de lá, a Oeste Capital, tinha um programa todos os sábados das 7h às 8h e eles sorteavam um ouvinte para ir lá fazer a programação. O cara levava os discos e fazia sua programação. Como a gente era amigo dos caras da rádio, fazia um chuncho pra ser sorteado pelo menos umas duas vezes por mês. Num desses programas a gente largou essa música de "Chapecó" e foi muito engraçado porque depois teve muita ligação pra rádio pedindo a música. E a gente rindo porque a banda não existia. E quando a banda surgiu em 91 a gente decidiu botar o nome de Repolho, pra aproveitar a deixa de que a banda já era conhecida pelas três pessoas que tinham ligado pra rádio pedindo. E também foi falta de achar um nome melhor.
D - E a função do rádio nessa cena de Porto Alegre surgida na década de 80, a função da (rádio) Ipanema é do caralho. Eles pegavam todas as fitas dessas bandas que estavam surgindo e botaram pra tocar. Foi aí que eles popularizaram as bandas locais dentro da própria cidade, conseguiram ter público e fizeram com que surgisse uma cena dentro de Porto Alegre, uma cena mais alternativa e com um pouco mais de visibilidade, porque depois a própria Atlântida (rádio "jovem" do grupo RBS) também tocava.
R - E nesse sentido Chapecó também, porque a rádio Oeste Capital sempre reservou espaço para as bandas locais. Quando a gente surgiu como banda mesmo, tinha uma ou duas bandas no máximo. Mas num momento anterior teve uma cena onde as músicas tocavam na rádio. Teve o Gilmar Guerreiro que lançou um compacto, é um cara de lá. Tinha a banda Nexus, eles gravavam as músicas em São Paulo, Rio, voltavam, e as músicas tocavam, eram incluídas na programação. O próprio Tyto Livi, o próprio A Face, tinham espaços para estar divulgando os trabalhos. Quando a gente surgiu em 91, essa cena tinha acabado. Todas as bandas só estavam tocando cover. E desde a década de 70 as bandas de lá tinham a tradição de ter músicas próprias. Tinha o Crianças Lunáticas, AZT, grupo Nozes e tem o Paranóia, que toca até hoje, é a banda mais velha de Chapecó.

MD - Existem registros dessas coisas?
R - Paranóia tem. Pouca coisa, assim. É aquela coisa, as pessoas não se preocupam muito em escrever. Sabe que o Repolho nesse sentido acaba sendo pioneiro nessa coisa do faça-você-mesmo. Que é a referência e o link com esse pessoal de Porto Alegre. A gente sempre achou muito legal aquela história, "ah, ninguém quer lançar o disco dos Cascavelettes", eles vão lá, gravam o disco e lançam. Ao invés de ficar esperando vir uma gravadora eles iam lá e faziam. "Ah, vamos gravar fita demo, vamos sei-lá-o-quê". E a gente sempre teve essa preocupação. Desde o início a banda só tocava música própria. Até por falta de talento pra ficar tirando cover (risos). Os shows eram 99,9% de músicas nossas. Às vezes em algum momento a gente fazia alguma brincadeira tocando músicas de outras pessoas. Tocando cover da Graforréia, Humberto Gessinger, essas brincadeiras. E a gente sempre teve esse espírito do "vamos fazer". Então o Repolho acaba se constituindo nesse momento em Chapecó por ser uma banda que lançou três fitas demos, lançou dois CDs, continua lançando, continua trabalhando. Na época tinha uma revista em quadrinhos também que a gente fazia da banda, chamada Polenta Brustolada. Aí vinha uma historinha do Capitão Repolho, sempre com letras de músicas e comentários.
D - Com cada fita demo saía uma revistinha. Na época aquilo teve um destaque fodido na imprensa nacional. O Estado de S. Paulo fez reportagem, a primeira vez que a gente apareceu na Bizz foi em 93, junto com a Graforréia e junto com o Emílio e Mauro. A demo da Graforréia chegou em Chapecó e se popularizou dentro de um universo X, ela teve um lance legal. De Chapecó ela foi parar em Curitiba , na mão daquela cena que estava acontecendo no início da década de 90. Daí o Eric (Thomas), que era um cara de Chapecó e levou a demo pra Curitiba. Ele participa dos Cervejas, Playmobylis, SMD, Emílio e Mauro, estava diretamente envolvido, ele participou das bandas. Aí ele monta a Emílio e Mauro pra fazer um show "Repolho, Emílio e Mauro e Graforréia". E a Graforréia já não existia mais, mas volta pra fazer o show em Curitiba. E a hora que rola o show lá, tem um destaque na Bizz, que foi maior pra Graforréia e teve espaço pro Repolho e pro Emílio e Mauro. Aí a banda de Chapecó ficou famosa na cidade. E o Graforréia ficou famoso também em Porto Alegre. No Brasil é engraçado, o conceito de província é independente da localização que você esteja.
R- Nesse momento também a gente fazia uns vídeos da banda. As duas primeiras coisas que a gente filmava, editava em casa como home-video mesmo, com a idéia de fazer capinha, tudo certinho e mandava pra vários locais, vendia em show, essa coisarada toda. Até tem um dos shows numa dessas fitas que rendeu matéria pro Estado de S. Paulo, que era um Xou da Xuxa cover que a gente fazia - uma palhaçada, obviamente. A gente toca num colégio pré-escolar, com as crianças sentadas nas carteiras, comendo cachorro-quente e a gente no palco, que era dentro de uma sala. A gente ficava com a cabeça quase batendo no teto, tinha que tocar acocorado (risos). E tocando umas músicas da Xuxa, eu vestido de Xuxa, mas aquela Xuxa com barba (risos). E aconteciam coisas inacreditáveis nesse sentido.
E a gente divulgava essas coisas, esse material a gente sempre divulgou. A nossa primeira demo hoje tu olha e até dá risada. Era uma porcaria, a segunda também, de qualidade. A primeira foi gravada em vídeo, a gente tirava o áudio do vídeo e fazia as cópias. A segunda a gente contratou uma sonorização pra fazer. E nesse período a banda começa a aparecer em Chapecó de forma negativa. A primeira vez que a gente apareceu pra cidade que deu uma repercussão foi num Jornal do Almoço (programa da RBS, retransmissora da Globo no RS e SC) ao vivo. Era aniversário do município. Era aquela coisa, "ah, a banda saiu na Bizz, saiu na Bizz é boa". Eles não foram pra conferir o que era o trabalho. Quando a gente foi passar o som de manhã eles já censuraram uma música, que era "Chapecó". Imagina, era aniversário da cidade, a prefeitura bancando e a música falando mal da cidade pro estado todo (N.E.: parte da letra diz: Eu moro na cidade, a cidade é Chapecó, no centro e nos bairro são tudo uns bocó). Mário Motta dançando, Maria Odete Olsen (apresentadores do jornal) ... E a gente dando risada, "vamos tocar qualquer outra coisa". E eles não sabiam que a gente tocava fantasiado também, foi outro impacto. E isso repercutiu de pessoal falar no colégio, "meu Deus, isso é uma degradação". Como a gente tocou fantasiado, as pessoas não identificavam exatamente quem era (risos). Então tu andava na rua e ouvia as pessoas comentando.
D- Cara, eu trabalhei muito tempo na compensação em banco, mas naquela época, não sei porque cargas d'água eu tava trabalhando na linha de frente, no balcão atendendo todo o povo que chegava no banco. Na segunda-feira pra mim, trabalhar foi uma desgraça (risos).
R- Nesse período, vinham pessoas de fora que viam o show da banda e gostavam. E as pessoas da cidade reclamavam, "ah, porque o tradicionalismo...", aquela coisa conservadora, da tradição, que não pode, que só estão fazendo bagunça. Quando a gente lançou a segunda demo, quando começou a sair mais matérias fora e as pessoas começaram a perceber que o trabalho era sério, algumas pessoas que só tinham ouvido falar foram no show e viram que era uma brincadeira, que era uma piada no fim das contas, aí o pessoal passou a entender melhor o que estava acontecendo e passou a respeitar.
D- Esperamos que sim (risos).
R- Esse foi o período em que a gente conseguiu fazer shows e todos lotavam. Nesse período a gente conseguiu arrecadar uma grana pra gravação da terceira demo.
D- Só voltando na segunda demo, das nossas mãos saíram em torno de mil cópias. E foi na época que começou a sair divulgação na MTV. Então o (produtor musical Carlos Eduardo) Miranda foi um cara que mostrou a capinha da demo na MTV e disse: "Porra, aqui tá um trabalho bem feito, a capinha tá colorida, tem o nome das músicas, tem o telefone de contato. Se um produtor pegar um negócio desses ele vai saber como entrar em contato". Até hoje ninguém ligou (risos). A culpa é do Miranda, é ele que não tem crédito (risos).

MD - Já tinha a Banguela (selo de Miranda com os Titãs, encampado pela Warner Music) nessa época?
R- Tinha. Acho que foi em 94 isso. Foi quando a Graforréia participou da (coletânea) A Vez do Brasil. É, porque em 95 sai o disco da Graforréia. Antes disso sai o Raimundos, o Mundo Livre, Little Quail. Raimundos já tinha meio que estourado quando saiu o disco da Graforréia. Só que quando saiu o disco da Graforréia, acabou a gravadora. Então o disco não teve divulgação nenhuma. E esse elo que a gente criou com a Graforréia foi em função disso também. A gente ficava enchendo o saco dos caras pra tocar e a partir desse momento a gente passou a estabelecer uma relação entre as bandas. Então no próprio lançamento do disco da Graforréia, eles chamaram o Repolho pra tocar. Foi a segunda ou terceira vez que a gente tocou em Porto Alegre. E a Graforréia se relaciona bem com todo o mundo, desde os MPG, até os tradicionalistas, eles se dão bem com todo o pessoal. Então tinha gente no show de tudo o que é tipo, desde o reggae, o punk, o metaleiro, tava todo mundo lá, com o Repolho abrindo. Então foi engraçado.

MD- E vocês chegaram a levar os caras pra tocar em Chapecó?
R- Duas vezes com a banda, uma um pouco antes de eles lançarem o primeiro disco e outra depois.
D- Esses shows que a gente tem gravado têm coisas absurdas.
R- Agora recentemente teve o Júpiter Maçã acústico, que foi uma brincadeira que eu propus pra ele.
D- Ele nunca tinha feito violão e voz num boteco.
R- Então eu propus que a gente fizesse uma mostra do filme dele e depois ele tocava meia dúzia de músicas no violão. Aí ele acrescentou uma menina tocando flauta e teclado, percussão, backing, foi crescendo o projeto e acabou virando um show. Com o Frank (Jorge) e o Marcelo (Birck), que é a dupla compositora da Graforréia, a gente propôs um acústico. E eles resolveram fazer baixo e guitarra em pé, num auditório, uma coisa absurda. E a média de público nesses shows é de 120, 140, 150 pessoas.
D- Mas o do Frank e Marcelo deu mais de 200, tava lotado. Cara, chegou um determinado momento que você ficar convencendo as pessoas a irem assistir aos shows enche o saco. Vira um troço meio panfletário, a gente já torrou o saco de fazer isso.
R- E hoje falta tempo, a gente se envolve com várias outras coisas que não dá tempo. E a idade...
D- Voltando ao primeiro show da Graforréia em Chapecó, eles nem tinham o disco lançado ainda. Só tinha saído a coletânea A Vez do Brasil. E a casa lotada. Era uma fase que a gente também tinha uma resposta de público bastante grande. E a galera cantando. Cara, o lançamento do show da fita do Júpiter Maçã era a festinha da noite. Então foram umas mil pessoas pra festa, mas tinham uma 300 que conheciam as músicas. Tanto que o Júpiter usa o vídeo dos dois shows que ele fez em Chapecó no filme dele, porque são os shows que ele tem gravado e que tem resposta do público. Todo mundo na frente cantando.
R- Isso que é engraçado, tem um segmento do rock gaúcho que tem aquele costume de registrar as coisas e tem outro segmento que não registra porcaria nenhuma. O próprio Cascavelettes tem muito pouco vídeo, as pessoas não gravavam, eles não tinham essa preocupação. A gente tem umas coisas gravadas porque era aquela coisa, "a gente vai fazer só um show então vamos gravar pra dizer que a gente tocou". A gente fez isso até o segundo. Chegou o terceiro a gente disse: "puta merda, não vamos mais filmar". Mas a gente tem bastante material.

MD- Vocês já pensaram em transformar isso em documentário?
D- Agora tem um pessoal aqui de Florianópolis que tá fazendo. De Florianópolis, de Brasília e de São Paulo. Eles fazem faculdade de cinema na Unisul e resolveram fazer um documentário. A gente gravou algumas coisas com eles na semana passada, eles fizeram umas imagens do nosso show no Schinelagem (festival de bandas underground em Florianópolis). A gente passou um dia gravando entrevistas pra esse documentário.
R- E com o material antigo a gente está pensando em lançar um DVD com qualidade de VHS (risos). Nós estamos pensando em juntar vários momentos da banda e fazer uma palhaçada.
D- Voltando ao assunto das demos, da segunda demo foi um absurdo a quantidade de demos que saíram das nossas mãos. E a quantidade de zines que entraram em contato. E na época a gente tinha isso organizado, de mandar material pra tal lugar. Eram dois, três estados do Brasil onde não tinha chegado a demo. Então ia lá pra puta-que-o-pariu, lá pro Amapá, lá pro Acre, lá pra não-sei-aonde.
R- E pensando que pra eles a puta-que-o-pariu é aqui (risos). "De onde é essa banda? Chapecó, Santa Catarina, lá na puta-que-o-pariu".

MD- Perto de Xaxim e Xanxerê (risos).
D- É perto de Xaxim e Xanxerê, parece piada. E foi aí que o Marcelo Camelo entrou em contato com a gente. Ele escrevia pra um zine no Rio. Eram uns piás de 14, 15, 16 anos que tinham um fanzine, o Doostraw Zine, ele e o Alex, que hoje é produtor do Los Hermanos. Nesse momento que a gente passa a ter contato com todo esse pessoal. A quantidade de zines que fez matéria com a gente, a quantidade de pessoas com quem a gente teve contato foi muito grande. Teve o Futio - Indispensável, o zine do Tomate (Emerson Gasperin, ex-editor de música da General e ex-editor da Bizz), que foi nosso primeiro contato com Florianópolis. Até aquele determinado momento a gente tinha contato muito forte com Joinville, com o pessoal do Curupira (lendário clube de rock em Guaramirim), de Jaraguá do Sul e de Guaramirim. Então os shows eram em Guaramirim, mas o povo migrava de Joinville e de Jaraguá do Sul pra lá. Então a quantidade de demos que saíram das nossas mãos e a quantidade de pessoas que nós encontrávamos nos mais variados lugares onde nós íamos diziam: "ah, copiei a fita de não sei quem". O Tomate foi um desses caras. Ele entrou em contato e disse: "cara, eu já tirei xerox da capinha, já fiz não sei quantas cópias". Ele já tava precisando de outra cópia, porque a matriz dele já tava gasta.
R- E eles entravam em contato com a intenção de pedir autorização. O Digão do Papakapika, de Curitiba, entrava em contato perguntando se podia fazer cópias. Claro!
D- Não tinha oficializado a pirataria ainda (risos).
R- E hoje, através da internet, isso facilita muito.

MD- Vocês estão com arquivos de mp3 disponíveis "oficialmente"?
R- Tem na Trama Virtual. A idéia mata a pau porque é fácil de disponibilizar o material, um release com contato. Ali a gente colocou a terceira demo inteira (Campo e Lavôra), colocou o primeiro disco inteiro - que já esgotou - e o segundo disco a gente tá pensando em colocar em breve. Agora a gente tá lançando esse (2Violão e 1Balde) que tem uma página lá com algumas músicas pra anunciar que tá vindo.

MD- Voltando um pouco, a grana pro primeiro disco veio das demos?
D- A primeira demo não vendeu muito, mas a segunda fez com que rendesse grana nos shows. A grana era mais dos shows do que das fitas. Tinham lugares onde a gente ia fazer show, que vendíamos 15, 20 fitas. Porque era barato, uns quatro, cinco pilas. Saia com uma facilidade muito grande. Só que isso não te dava retorno.
R- O retorno disso era você investir e estar mandando material o tempo todo pra fora. Pagar o correio, pagar as fitas que você mandava pra imprensa. Essas coisas equilibravam legal. E alguma grana de show a gente também conseguiu nessa época. A gente conseguiu patrocínio em Chapecó pra bancar o primeiro disco. No primeiro disco tinha uma parceria com o Birck, que tinha a Grenal Records, e com o Thomas Dreher, que na época estava começando com o estúdio.
D- O Repolho é a primeira banda mesmo a entrar no estúdio Dreher e gravar. Fomos os primeiros a nos sujeitar às mãos do cidadão. Porque antes quem tinha ido lá foi o Birck, que tinha descoberto a história porque o Thomas tinha trabalhado como técnico de som na gravação do primeiro disco da Graforréia. E engraçado é a quantidade de bandas que passou por lá depois. O Júpiter gravou lá, Ultramen, a própria Graforréia gravou o segundo disco deles lá. Esse nosso primeiro disco então foi uma parceria entre o estúdio, o Birck e nós. A gente teve uma liberdade muito grande pra fazer algumas coisas. Como era num prédio comercial, e durante o dia não podia fazer barulho, nós entrávamos no estúdio seis da tarde e saíamos seis, sete, oito horas da manhã. Virava a noite. Tu gravava até 11, meia-noite, comia alguma coisa, voltava, gravava mais algumas horas. Isso durante uns 10, 12 dias.
R- Se hoje as pessoas pegam o CD e dizem que tá ruim, é ruim porque era pra estar ruim. Porque a gente fez daquele jeito. O estúdio na época tinha oito canais . Muito daquilo vem do Thomas. A gente dizia, "bah, Thomas, a gente precisa de um vocal assim". Aí a gente ia gravar o vocal dentro do elevador (risos). Levava todo o equipamento pra fora, gravava fora do prédio, gravava na marquise, ia montando as coisas pra pegar sonoridades.
D- E isso suja bastante. A hora que você saiu daquele universo que são as quatro paredes do estúdio, pensado pro som ficar limpo, a hora que você abre, tem o acréscimo da sujeira.
R- Tem duas músicas que a gente gravou em dois canais. Que é pra ser assim mesmo: ligou, vamos tocar e deu pra bola.

MD- No começo da banda eram só vocês dois. Onde vocês acharam os outros caras?
D- Quando a gente começou a brincar com a história era eu e o Roberto. Quem dá o pontapé inicial e sugere a formação da banda foi o Gustavo, que é irmão do guri que tocou baixo com a gente nas três demos e no primeiro disco. O cara incentivou, disse que tocava com a gente. Ele só apareceu no primeiro ensaio. Mas como ele deu o pontapé inicial a gente deu seqüência.
R- Aí a gente conheceu o Anderson, que tocava guitarra em uma banda de hardcore que tava acabando na época, tocava ele e o Girino. E o Anderson entra na banda porque tinha uma bateria e queria tocar bateria. No início a gente não queria tocar com ele porque o som era hardcore. E a gente não queria montar outra banda de hardcore na cidade. Quando a gente foi ver, o Anderson era mais baile, mais doente impossível (risos). E nesse período o cara que tocava baixo com a gente saiu e o Girino entrou. Quando o Girino entra na banda, melhora a questão musical. Aí a gente pensa: "vamos compor as músicas", compor no sentido de organizar. Porque até um determinado momento qualquer um tocava o que queria. E a gente começou a moldar as músicas, uma coisas que a gente aprendeu com eles.
D- E hoje é um processo de destruição dessas coisas que foram construídas. Os shows se caracterizam bastante por isso. Aí entra o Girino, só que a banda sempre teve um problema sério. O Girino entrou e aí depois ele foi pra Curitiba quando a gente tocou por lá. Quando a gente voltou pra Chapecó entrou um outro cara que tocou com a gente uns cinco, seis meses. Quando o Girino volta pra Chapecó a gente grava a segunda e a terceira demo. Gravamos o primeiro CD e ele foi embora de novo.
D- Com o Girino houve todo o processo de construir as músicas, então a primeira vez que ele saiu a gente teve dificuldade de tocar com uma outra pessoa.
R- Porque não tinha pessoas que tocavam. E a segunda vez que ele sai, a gente estava pra gravar o segundo disco. E a gente enfrentou uma certa dificuldade. A gente tava indo pra Porto Alegre, já tava tudo meio marcado e a gente propôs pra ele, "grava o disco e sai depois", pra pelo menos a gente ter o material pra estar divulgando. E ele foi em função de estudo, mulher, um monte de outras coisas. Então ele saiu e a gente pensou em quem ia chamar. E a gente chamou ninguém menos que o Frank Jorge. Ligamos e ele topou na hora. Então a gente foi pra Porto Alegre e no segundo disco quem toca baixo é ele. E ele toca bateria em uma música com uma perna só, porque ele tinha quebrado a perna. O "Não Güento Mais" é ele que toca bateria. Depois disso a gente passou a fazer shows sempre com baixistas diferentes. Então a gente tocou com o Frank, tocou com o Marcelo Birck, tocou com o Michel - que é o guri que toca baixo com a gente agora -, tocou sem baixo.
D- Fizemos um show na penitenciária agrícola de Chapecó.
R- Não é penitenciária agrícola.
D- O quê que é então?
R- Penitenciária. Agrícola é toda a região (risos). Eles plantam lá. Tem o supermercado agrícola, o banco agrícola, o banco do colono (risos).
D - Cara, essa penitenciária era onde nosso baterista fazia estágio da universidade. Então ele falou, "vamos fazer um trabalho social" (risos). Ele trabalhava com o pessoal do regime fechado de 16 a 18 anos.
R- É, os caras mataram um ou outro, era uma coisa leve assim.
D- Eu acredito que devia ser em torno de umas 20, 25 pessoas. Cara, a primeira vez que nós estivemos lá foi naquele dia. O mais engraçado é que foi no dia 2 de Novembro, Finados (risos). A mãe esperando o carro em casa e a gente foi pro presídio pra tocar. Sem a certeza que ia voltar (risos). Ele foi lá, montou a bateria, não apareceu ninguém pra tocar baixo, tocamos com três guitarras e a galera ali sentada, aquele povo parado. Tinham duas janelas com grade nas laterais, em cada uma delas um cidadão parado, e na porta onde eles entravam, outro cara parado. E por incrível que pareça a gente tocou "Chapecó" e a gente tocou "Lilico" (música que tira sarro dos milicos).
R- E no "Lilico" os presos gritavam: "Quem mandou não estudar?" (risos). A gente achou que não ia sair de lá.
D- E os caras deliravam. Aí o show acabou, teve bolinho, refrigerante e nós tivemos que levar o carro embora. A gente saiu de lá e começou a se dar conta do perigo.
R- E o perigo não por parte dos presos, por parte da polícia (risos). E nessa época a gente tocou com guri tocando violino, gaita. A gente só não fez com teclado, acho. O próprio Girino voltou a tocar na banda. Nessa época a gente chamava o Marcelo, o Leandro Blessmann (o Benga), que foi pra Chapecó e a gente tocou o "Benga Minueto", que é da Graforréia, e aí ele entrava vestido de Luís XV no palco e cantava junto com a gente.
D- Se vocês não conhecem, o Leandro é o louco que compôs "Benga na América Central", do segundo disco da Graforréia e "Benga Velha Companheira", do primeiro. E da demo, a "Benga Minueto". Desde o início da década de 80 tem o que ele constituiu como a Benga music. Todas as músicas falam da Benga (designação sulista para o órgão sexual masculino), a Benga indo pra algum lugar. Então é assim, a Bahia entra com o Tchan, tu tem que entrar com a Benga rasgando (risos). Isso são palavras dele, ele fala disso com uma certa freqüência. Então são todas elas assim, a Benga em Chapecó, a Benga no Hawaii, a Benga no Oriente Médio, a Benga em Liverpool, a Benga na Chechênia, a Benga na Alemanha.
R- E no nosso novo disco tem a "Benga em Chapecó". Que é uma música nossa que fala bem da cidade. Benga da cidade (risos). Essa é a retratação. Já que a gente gravou "Chapecó", que fala mal, essa aí quando a gente morrer as criancinhas vão se juntar no aniversário da cidade com uma rosa na mão, cantando: "benga,benga/ benga foi pra Chapecó".
D- Vai ser o "Passar uma Tarde em Itapoã" do Repolho. E a gente montou o The Bengos em Porto Alegre. Porque o Leandro fez parte dos Atonais, a outra banda do Birck, e ele mais o Thomas tocando bateria e o Petry. Aí a gente montou o The Bengos só pra gravar a Benga music. No final das contas, eu acabei participando da composição de algumas delas. Isso já estabelece uma outra parceria de composição com Porto Alegre, que a gente já tem com o Marcelo Birck, tem com o Frank e agora tem com o Leandro. Isso é bastante forte.
R- Então o Repolho com essa história de baixistas mutantes tava meio parado. Aí que se abriu espaço pra esses outros projetos. Aí nosso baterista foi embora, foi pra Natal, e a gente volta a procurar duas pessoas pra tocar com a gente. A gente até brinca que o baterista foi pra Natal fazer concurso pra ser rena do Papai Noel.
D- Naquele momento a gente fez shows com baixistas mutantes, uma hora era um, uma hora era outro, mas muitas vezes se mantinha o formato guitarra, baixo e bateria.
R- E a reclamação das pessoas é que tava ficando bom demais (risos). A guitarra preenchia um vazio no palco, mais uma guitarra, o violino dava um toque não-sei-o-quê e cobria não-sei-o-quê-lá.

MD- Onde vocês arranjaram violinista?
R- Escola de música. O mais difícil é convencer, mas depois que convence vai embora (risos).
D- O show que a gente fez em Chapecó com o Frank Jorge tocando baixo foi a coisa mais absurda que aconteceu. Ele perdeu o ônibus pra sair de Porto Alegre. Ele iria chegar em Chapecó umas seis e pouco da tarde. Aí ele ligou, "perdi o ônibus, o que eu faço"? "Cara, pega o ônibus, vai até Passo Fundo que eu vou te pegar". Só que Passo Fundo fica a 210km de Chapecó. O ônibus chegou em Passo Fundo às 11 da noite. E o show em Chapecó tava marcado pra uma da manhã. A gente não tinha ensaiado nem tinha passado o som. O japonês na direção e eu com o violãozinho atrás, passando as músicas pro Frank. Esses tempos ele me mostrou o livro onde ele tinha anotado as instruções. Tal música é em tal tom, coisas assim. A gente chegou lá umas 01h15. E o Frank foi embora cinco, seis horas da manhã porque tinha compromisso no outro dia em Porto Alegre. E tocamos quase duas horas. Entramos no repertório da Graforréia, a gente tocou "Amigo Punk", "Empregada", coisas que a gente sabia, mas completamente no improviso total. Essa é uma das características do que se tornou a própria banda. Essa espontaneidade. O show aquele dia que a gente fez com o Los Hermanos a gente não passou som, a gente não fez absolutamente nada. Tinha estourado a luz ali. A gente ficou em função da luz até a meia-noite.
R- Não foi o mesmo show que a gente fez em Chapecó.
D- Foi completamente diferente.

MD- Quantos shows vocês fizeram aquela vez com o Los Hermanos?
D- Dois. Aqui (Florianópolis) e Chapecó. Era pra gente ter tocado em Joinville, mas no fim das contas acabou não dando certo.
R- E até foi bom, porque a gente não tem estrutura pra fazer turnê. Não é que nem eles, que saem e tem um produtor que acerta as coisas. A gente tem que correr. O show lá foi quarta à noite, a gente tinha que encerrar tudo às seis da manhã pra estar na estrada às onze da manhã.
D- E o show com o Los Hermanos foi assim, um improviso a partir de uma naturalidade com uma estrutura. A gente sabe como vão funcionar algumas coisas.
R- E a gente tem alguns ganchos que tu acaba reproduzindo. Nunca igual, mas a gente tem uma espécie de um esquema tático.
D - Tu já tem um certo entrosamento. Eles que sugeriram aquela jam com o naipe de metais.
R- No show em Chapecó os caras da banda chegaram no final do show. O baixista e o naipe de metais estavam desde o começo. E os caras dos metais falaram: "a gente não sabia que o show de vocês tinha essa característica, a gente podia fazer alguma coisa juntos". No dia do show aqui houve aquele problema com a luz e não deu tempo de ensaiar nem de passar o som. Assim que a luz voltou, a gente passou as músicas pra eles. Lógico que os caras são uns baita músicos e as músicas do Repolho são Lá e Ré. Era só os caras fazerem um papará - pupurú (risos).
D- É que eu só sei essas duas posições, as outras eu nunca me lembro (risos). Aí a gente olhou pros caras e disse, "é isso mesmo?" Eles olharam e disseram, "é isso mesmo". Tal música é tal tom. Aí subimos no palco.

MD- Como começou essa história de vocês se tornarem uma banda cult?
D- Isso começou com o Tomate (Emerson Gasperin). Quando ele escutou a demo ele falou: "vocês tem tudo pra ser uma banda cult mais do que outra coisa".
R-E ele disse isso meio profeticamente. Eu perguntei pra ele: "Tá, mas o que tu quer dizer com isso?" Porque na época a gente tinha planos de ganhar dinheiro (risos). Tô brincando. Ele disse: "bom, é aquela banda que três pessoas conhecem e as três pessoas acham a melhor coisa do mundo". São pessoas que levam a banda como se fosse deles. O Fernado Rosa (do site www.senhorf.com.br) é um desses.

MD- Vamos falar um pouco do disco novo.
D- Pois é, 2Violão e 1Balde. Naquela fase, 93, 94, 95, a gente produziu uma demo por ano e as demos tinham uma quantidade legal de músicas, a gente tinha uma produção intensa. O primeiro disco já foi um resgate das demos, mesmo tendo músicas novas. O segundo disco também tem músicas novas, mas também tem um processo de resgate das demos. Então a gente resolveu registrar umas coisas que a banda não chegou a tocar. Eram músicas que estavam paradas e a gente achou legal ter um registro. E nessa idéia de registrar essas canções a gente se trancou num quarto em Porto Alegre, na casa do Birck e resolvemos gravar algumas coisas. Na hora que a gente estava fazendo não sabia o que ia sair daquilo. O disco tem 16 faixas e a 16ª faz um link com outro universo fragmentário. São sobras de shows, pequenos pedaços de falas, de conversas, de músicas, coisas que nós fizemos. A capa do disco tá dentro dessa idéia. Sou eu e o Roberto quando éramos pequenos. E nessa última faixa tem coisas de quando nós éramos pequenos cantando.
R- Mais do que isso, ele resgata um momento. Porque a banda começa com uma proposta minha e do Demétrio, de certa forma. A concepção da banda era uma coisa que a gente já tinha. Até voltado pro humor, a gente tá sempre brincando com isso, brincando com aquilo. Quando a gente começou a banda quebrava o padrão de bandas poser, você ficar se achando por que tem uma banda. Só porque tem banda acha que é gente, como diz a música do Diego Medina. Desde o começo a gente sempre teve um lado teatral forte, de se fantasiar. Então a gente resolveu fazer umas apresentações com voz e violão, os quatro, uma espécie de Repolho acústico. Mas não aquele acústico "tu toca baixo então vai tocar baixo". Tu toca baixo então vai estar segurando uma lâmpada ou uma vela. Era no sentido de trabalhar o visual mesmo. Resumindo, os outros dois integrantes da banda não se encaixaram nessa história. Nesse momento a gente entra na faculdade e começa a desenvolver um trabalho eu e ele. Chegamos a fazer uns 30, 40 shows, eu e ele, voz e violão. Esse trabalho voz e violão já resgatava coisas que a gente não tocava com a banda. Então chega um determinado momento que a gente resolve gravar essas coisas, sem a intenção de virar um disco. E é esse material que está aqui. É um período de transição, quando saem os outros dois integrantes e volta a ficar eu e o Demétrio. A gente chegou a pensar na possibilidade de assumir isso como se fosse um trabalho e talvez até encerrar as atividades da banda. Nesse momento a gente reestrutura a banda, volta a tocar mesmo, ensaiar fazer show e coisas do gênero. E isso passa a ser um trabalho paralelo que a gente identifica dentro dessa proposta. O trabalho de banda a gente diferencia como trabalho de palco, show, e o 2Violão e 1Balde é um projeto de resgate, de estar experimentando muito mais do que a gente faz com a banda. É de certa forma criar um subproduto. A gente até brinca que seria um genérico da banda. O cara vai ouvir o CD da banda e diz: "mas é ruim, hein?", "mas tem coisa bem pior, já ouviu?" e é esse novo. É um disco gravado em casa, com um computador que tinha um giga de memória, bagaceiro, com os microfones caindo aos pedaços, mas com uma pessoa, que é o Marcelo Birck, que tem conhecimentos musicais inacreditáveis. A gente se impressiona com o resultado do que saiu gravado na casa dele.
D- Então a gente resolveu colocar como Banda Repolho apresenta Irmãos Panarotto em 2Violão e 1Balde Volume 2,5. É um estágio intermediário. Se o Repolho já é marca diabo, esse é a marca diabo do marca diabo.

MD- Muita gente do underground acaba não levando vocês a sério porque acham que são uma "banda engraçadinha". Como vocês encaram isso?
R- Se não tem rótulo você não sabe se tá bebendo Brahma ou Antarctica.
D- Mas esse rótulo antes de entender o universo é complicado. A nossa banda é difícil de explicar. Desde o primeiro show, em 91, a gente toca fantasiado. Como é que vai explicar? Fica quieto e deixa a coisa acontecer.
R- Chegou um determinado momento que a gente até tentou explicar alguma coisa, mas não adiantou muito. As pessoas não querem muito essa referência. Elas preferem não entender e dizer que é ruim ou rotular de banda engraçadinha. Lógico, tem uma proposta irônica, uma proposta engraçada, mas durante toda a história da humanidade o que é engraçado, o que é considerado bufão ou ridículo não é (tido como) bom. O bom é o drama, o cara que tá ali sofrendo, o cara que tá sofrendo de amor. A gente também fala de sofrimento de amor, mas de uma forma engraçada. E tem muitos momentos dos shows que mais do que engraçados, são críticos. E muitas vezes as pessoas não entendem esse lado crítico porque o que fica na cara delas é isso, "ah, como uma banda que chama Repolho, que toca uma música que chama "Porcona", pode ser crítica?". E de repente as pessoas se prendem muito a essa questão e não entendem. E a gente é tri sério no que a gente faz.
D- O programa de humor mais engraçado que eu vi ano passado foi o Galvão Bueno narrando a corrida em que o Rubinho Barrichello quebrou na volta de apresentação. Cara, eu nunca ri tanto na minha vida. "Porque ele vai conseguir, porque a gente acredita no Brasil!". É assustador.
R- Nessas alturas a gente se pergunta: o que é engraçado? Será que engraçado é a gente ou são os outros? Olha ali na mesa ao lado, tem um casal de americanos conversando com um mendigo. Olha que situação cômica. Pra mim, o cara que diz que a banda é engraçadinha é a mesma coisa que dizer que o CD é redondo e tem um buraco no meio. É porque não sabe o que falar, então ele vai dizer o óbvio. Consegue enxergar o que tá na frente, mas não vê o que tá por trás. Mas a gente é engraçadinho. Principalmente quando a gente era pequeno, olha só a capa do disco (risos).

MD- E essa história de que vocês são persona non grata em Chapecó?
D- Qualquer coisa ruim que acontece na cidade eles acham que a gente está envolvido. Arruaça em greve de agricultor, tudo. Ligavam pra gente pra perguntar se a gente estava junto. Claro que a gente confirmava. Uma vez, quebraram o vidro de um banco e jogaram uns leitõezinhos lá dentro...
(Nesse momento, um dos repórteres do Marca Diabo não consegue segurar o riso e cospe cerveja nos entrevistados e no outro repórter).
R- Puta merda! (gargalhadas). O cara me babou! Tem que registrar isso, como é que se registra uma coisa dessas? Ainda bem que eu tenho lenço (risos).

MD- (Desculpando-se) Pô, essa história de leitõezinhos me pegou de surpresa.
D- E aí pegaram os leitões e jogaram lá dentro. Deu no Jornal Nacional (risos).
R- Os agricultores tavam do lado de fora. Aí ligaram pra gente, "Cara, cês tavam lá?". Disseram que foi a gente. Duas semanas depois de a gente tocar no presídio deu uma rebelião e foi a mesma coisa, disseram que foi a gente. E a gente confirma: "é verdade".
D- Boa parte do folclore aconteceu e o restante a gente confirma (risos).
R- O cara te liga pra perguntar um negócio desses, você vai dizer que não? Não dá.

Entrevista: Gabriel Rocha e Romeu Martins
(N. do E.: não, não vamos contar quem foi o autor da cusparada)

Fotos: Trama Virtual, Diário Catarinense e Agito com Balalau.