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Ficção pra quê?
Novos horizontes na mistura de HQ com realidade

Leitores de quadrinhos têm acesso a detalhes da vida íntima de vários de seus autores favoritos. Obviamente isso não se deve à ação dos paparazzi ou revistas de fofoca, mas sim a uma tradição de certo tipo de HQs. Aqui, como em vários outros casos, Robert Crumb é um dos precursores, ao utilizar desde sempre a si mesmo como personagem de muitas de suas histórias, descrevendo as próprias taras e esquisitices. Outro que fez carreira c"No Coração da Tempestade", autobiografia de Will Eisnerom confissões constrangedoras é Harvey Pekar, cujos roteiros, ilustrados por longa e ilustre galeria de artistas, recentemente viraram filme. A badalada cartunista Debbie Dreschler causou sensação nos anos 90 com suas HQs contando as vezes em que seu pai abusou dela na infância. Até mesmo o decano dos quadrinhos americanos, Will Eisner, arriscou-se nesse território, ao lançar uma "mal-disfraçada autobiografia" contando os primeiros 18 anos de sua vida, até as vésperas do alistamento para participar da II Guerra. Fora dos EUA, mas pelas vizinhanças, não podemos esquecer das aventuras masturbatórias do canadense Chester Brown e de sua coleção de revistas Playboy.

Intimidades, confissões, autobiografias... Tudo isso está à disposição dos leitores de quadrinhos, principalmente os do veio underground. Mas as viagens em torno do umbigo dos autores não são o único contato das HQs com a, digamos, ausência de ficção. Existem exemplos de quadrinistas que se aventuraram para além do caminho relativamente fácil das memórias pessoais e de toda a liberdade que tal vertente permite (sim, por que quem pode contestar afirmações que dizem respeito só à vida do autor, suas lembranças e divagações?). Há criadores de quadrinhos que ousaram imprimir uma pegada mais jornalística em seus trabalhos, pesquisando documentos, realizando entrevistas, narrando experiências reais vividas por outras pessoas, formulando teorias.

"Desvendando os Quadrinhos", de Scott McCloudAntes de continuar, vale destacar que o cruzamento entre realidade e HQs nem sempre rende algo aproveitável. Tem um exemplo que fez parte de virtualmente todo o brasileiro de classe média que foi criança nos anos 80. A revista Nosso Amiguinho mensalmente trazia, além de adaptações religiosamente corretas de passagens bíblicas, séries biográficas em quadrinhos de vultos históricos nacionais, gente como Santos Dumont. Como ninguém ali entendia picas de HQs, tudo ficava com cara de livro de História hiper-ilustrado. Várias outras experiências de transposição para os quadrinhos de obras literárias ou de ensaios (desconfio que o Manifesto Comunista, de Engels e Marx, bata recorde na área) também costumam dar resultados patéticos. Há ainda casos bem mais raros de histórias em quadrinhos usadas como suporte para trabalhos acadêmicos, sem objetivo de atingir as massas. Um exemplo brasileiro é o cartunista André Toral, que em sua dissertação de mestrado em História reconstituiu eventos da Guerra do Paraguai usando "arte sequencial", como diria Will Eisner. Mais tarde esse trabalho serviu de base para o álbum Adios, Chamigo Brasileiro, mas apesar da exatidão do pano de fundo histórico (vestimentas, expressões, táticas de luta...), trata-se de uma obra de ficção. Caso parecido com o da minissérie 300, de Frank Miller, sobre a guerra entre gregos e persas de 500 a.C.: o autor viajou até a Grécia, leu livros, assistiu a filmes sobre a época, mas também criou uma (excelente) HQ fictícia.

O trabalho sobre 11/9 de Art SpiegelmanEntão, estamos falando aqui de algo que, na falta de nome melhor, podemos chamar de HQs de não-ficção. Esse tipo de cruzamento entre realidade e ficção sempre é controverso, basta pegar o exemplo do Novo Jornalismo. Quando jornalistas como Truman Capote (A Sangue Frio) e Gay Talese (A Mulher do Próximo) resolveram fazer a mistura, foram tratados com desconfiança, principalmente pela mania de querer descrever o que se passava nos pensamentos de seus entrevistados. O que dizer então quando o amalucado Hunter Thompson (Las Vegas na Cabeça) passou a fazer o mesmo, só que encharcado de todo tipo de alteradores de realidade? Apesar das décadas de atividade todos esses caras ainda são alvos de desconfiança de acadêmicos, muitos se recusando a aceitar as práticas de jornalismo romanceado como não sendo ficção. Para os quadrinhos então a coisa parece muito mais difícil, apesar de se poder fazer comparações com as dramatizações que aparecem nos telejornais ou os infográficos das revistas (estes últimos aceitos normalmente como materiais jornalísticos). Mas o negócio é deixar para os universitários o papel de aprofundar essas questões, ao mesmo tempo sugerindo uma listinha de autores que valeriam a pena servirem como "objeto de estudo".

Alan Moore - O livro definitivo sobre Jack, O Estripador não é um livro, mas sim uma série de quadrinhos chamada Do Inferno escrita por Alan Moore e ilustrada por Eddie Campbel. Antes de mais nada, é melhor ir avisando que só uns 20 ou 30% da série podem ser considerados HQ de não-ficção, o restante, a maior parte da obra, é uma reunião de especulações assumidas baseadas nas viagens do autor e suas obsessões por teoria do caos e narrativas não-lineares. Eu sei, parece coisa do britânico louco, mas pode confiar: Do Inferno está no mesmo nível do melhor da produção de Moore, o que significa que pode entrar tranqüilamente em qualquer lista dos 10 melhores quadrinhos de todos os tempos. Para dizer o mínimo. Mas, poderia estar você se perguntando, se esta não é uma obra inteiramente de não-ficção que diabos ela está fazendo nesta lista picareta? Simples, é que naqueles 20 ou 30% Alan Moore fez um trabalho de pesquisa tão minucioso e tão detalhista que deveria servir de norte para qualquer um que pense em seguir por esse caminho da não-ficção. Felizmente, para ajudar a destrinchar os pormenores dessa pesquisa, o próprio roteirista preparou uma análise passo a passo das referências que utilizou para escrever a Do Inferno (que rendeu um bom filme homônimo estrelado por Johnny Depp, não custa lembrar). A leitura dessas anotações, presentes em cada um dos quatro álbuns lançados no Brasil pela Via Lettera, é tão agradável e obrigatória quanto a série propriamente dita.

Scott McCloud - Qualquer infeliz que resolva falar sobre HQs só deve ser levado a sério se antes leu atentamente Desvendando os Quadrinhos, ensaio definitivo sobre o assunto. Na verdade essa é até uma forma reducionista de descrever a obra, já que em suas 225 páginas o autor, Scott McCloud, ainda encontra espaço para uma breve teoria da arte e um aprofundado estudo da semiótica, com uma clareza e fluidez que deveriam levar uma multidão de professores pedantes a pedir demissão de seus cursos. McCloud inicia seu trabalho a partir do livro clássico do já mencionado Will Eisner Quadrinhos e Arte Seqüencial (outra leitura obrigatória pro tal infeliz), mas leva o tema até as últimas conseqüências falando de estilos de desenhos, uso da cor, influências e modismo ao longo dos tempos, comparando temáticas dos EUA, Japão e Europa etc., etc., etc. Mas o grande achado, a característica que torna Desvendando os Quadrinhos uma obra tão destacada entre a centena de outros livros sobre o HQs (e que ao mesmo tempo dá razão a todos os argumentos de McCloud sobre as potencialidades tão mal aproveitadas dessa mídia) é o formato que o autor escolheu para defender suas teses. Ao contrário do livro pioneiro de Eisner, a obra de McCloud é não só sobre quadrinhos, como também é em quadrinhos. Mestre da narrativa, o autor explorou tão a fundo as possibilidades desse meio que escolheu para historiar, conceituar, enfim, desvendar. Tanto que é inimaginável pensar em transferir o formato do álbum para outra mídia, seja livro, documentário ou animação. Talvez o único problema de Desvendando os Quadrinhos seja o fato de que a edição brasileira (muito bem produzida) careceu de divulgação, até porque saiu pelas mão de uma editora, a Makron Books, mais ligada a livros de informática. Talvez esteja na hora de uma reedição feita por uma casa mais afinada com HQs, isso para não falar na publicação de outros trabalhos do autor que permanecem inéditos por aqui... Alguém se habilita? Conrad? Via Lettera? Amauta?

Art Spiegelman - Um dos prêmios mais cobiçados por jornalistas e escritores sérios é o Pulitzer. Por incrível que pareça, um quadrinista conseguiu levar a honraria para casa, apesar de toda a desconfiança dos intelectuais a respeito de HQs. Art Spiegelman, nascido em Estocolmo mas que fez carreira na vanguarda dos quadrinhos dos EUA, conseguiu realizar o feito com Maus, o resultado de 13 anos de trabalho e de pesquisa. O cartunista reconstituiu de modo espetacular a trajetória de seu pai, Vladek Spiegelman, judeu polonês perseguido pela Alemanha nazista e sobrevivente de Auschwitz. O autor usou a perícia de um grande romancista para escrever e ilustrar a vida de Vladek com um controle narrativo que impressiona até o mais cético dos intelectuais. Em certo momento, Maus cruza três períodos cronológicos diferentes - Spiegelman no "presente" (em 1987) ouve as gravações que fez com seu pai oito anos antes, narrando eventos ocorridos na década de 40 - o que causaria um nó mental em qualquer escritor menos hábil. O material originalmente saiu em capítulos curtos na revista Raw, mas o nome de Spiegelman está mais associado à New Yorker, publicação que sempre foi referência tanto pela qualidade dos textos quanto pela liberdade que dá aos seus colaboradores. Recentemente, a fama da revista ficou um tanto abalada por ceder a pressões externas e apresentar restrições a um outro projeto de Art Spiegelman, dessa vez de contar, também em forma de quadrinhos de não-ficção, o impacto do 11 de setembro na vida dos nova-iorquinos. O artista acabou pedindo demissão da New Yorker, onde durante anos atuou como editor de suas premiadas capas. Enfim, voltando a Maus, no Brasil a obra-prima saiu em dois volumes pela editora Brasiliense, no meio dos anos 90. Há pouco tempo, a Companhia das Letras anunciou o interesse de fazer uma reedição e para mostrar que não está para brincadeiras lançou recentemente um outro trabalho de Spiegelman. Little Lit é uma coletânea de histórias infantis criadas por quadrinistas variados, organizado pelo cartunista e por sua esposa. (Em tempo: clicando aqui você pode ler mais detalhes sobre Maus em um ensaio em quadrinhos inspirado no trabalho de Scott McCloud. Que ambos me perdoem).

Joe Sacco - Nenhum desses autores citados leva tão a sério a tal "pegada mais jornalística" que nos referimos lá no começo deste texto interminável, quanto este sujeito. Nascido em Malta, tendo passado a infância na Austrália e cursado jornalismo nos EUA, Joe Sacco é a maior referência nesse ainda pequeno nicho que une imprensa e quadrinhos. Logo que começou a ler as contundentes críticas do lingüista e agitador político Noam Chomsky, Sacco percebeu que a relação de seu país adotivo em relação aos demais Estados era muito mais complexa do que davam a entender os gibis do Capitão América. Foi a partir dos anos 90, que o cartunista/jornalista começou a tirar faísca de seu passaporte para ver as coisas com os próprios olhos. Tendo sido criado só ouvindo o lado israelense da questão do Oriente Médio, ele resolveu ouvir o lado palestino da história. Durante dois meses, entre 91 e 92, coletou todo tipo de história sobre a mais conturbada região deste planeta e ditou, de forma independente, a série de HQs Palestina. Com o sucesso alcançado e os elogios de grandes figurões dos quadrinhos de qualidade, tais como Spiegelman e Alan Moore, o quadrinista maltês voltou à carga e às viagens. Seu destino, entre 95 e 96, foi a região dos Balcãs, onde novamente registrou histórias do lado mais fraco, desta vez da Guerra da Bósnia. Unindo pesada auto-ironia, faro jornalístico e um traço marcante o autor formatou um novo estilo de reportagem. No Brasil, a editora Conrad é a casa que tem apostado em suas HQs de não-ficção, já tendo publicado toda a série sobre a Palestina (leia aqui a resenha do segundo álbum) e a maior parte do material sobre a Bósnia - falta apenas o livro Soba. Artigos de primeira necessidade tanto para jornalistas quanto para leitores de quadrinhos.

Romeu Martins