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Foi Antônio
Brasileiro quem soprou essa toada
Um dos riffs mais
emblemáticos do rock guarda muita semelhança com os acordes
de uma canção da bossa nova
As
vinte mil almas que lotaram o Gigantinho no dia 18 de setembro podiam
não saber, mas os três acordes mais esperados da noite
já haviam sido bolados por Tom Jobim muito antes de eles nascerem.
Apelidada "Durrh-Durrh-Durrh" antes de ter letra e título
em meio ao frio, solidão e águias de Montreux, na Suíça,
em 1971, "Smoke on the Water" tem sua introdução
idêntica à de "Maria Moita", composta por Carlos
Lyra e Vinícius de Moraes para o musical Pobre Menina Rica, em
1962.
Uma das lendas em torno do riff de Smoke
on the Water diz que lojas de instrumentos musicais de várias
partes do mundo proíbem que se toque essa introdução.
É um dos primeiros sons que muito guri aprende a tocar na guitarra,
porque dá pra fazer com a corda solta (0), terceira (3) e quinta
(5) casas, dando uma leve escapada para a sexta: 0-3-5, 0-3-6-5, 0-3-5,
3-0. Maria Moita é semelhante, apenas com mais ginga.
Os membros do Deep Purple que vieram a
Porto Alegre provavelmente também não sabiam que foi Antônio
Brasileiro quem soprou a toada que Ian Gillan cobriu de redondilhas
em dezembro de 1971. Quem veio com o riff foi o guitarrista Ritchie
Blackmore, hoje transformado em menestrel pela Europa, tocando cantigas
de inspiração medieval cantadas por sua atual mulher,
Candice Night. Anos antes, fora Jobim a sugerir que Lyra incluísse
no início de "Maria Moita" os três acordes mágicos.
Em troca, Lyra apontou correções a serem feitas na música
"O Morro Não Tem Vez", de Tom.
A
um oceano e nove anos de distância, tendo como paisagem não
a Baía da Guanabara, mas o lago Genebra, Blackmore teve a inspiração
dos três acordes mágicos, mas faltava título e letra
para aquilo. O assunto foi providenciado em um show do maluquíssimo
Frank Zappa, o mais criativo dos papas do rock dos anos 70. Ele fazia
um show no Casino de Montreux com sua banda (os Mothers of Invention),
quando alguém botou fogo no local.
O Deep Purple estava lá assistindo
o show, a convite do agitador cultural Claude Nobs - até hoje
responsável pelo eclético Festival de Jazz de Montreux
e dono de uma vasta coleção de discos de jazz e música
popular brasileira. Depois da apresentação dos Mothers,
eles instalariam seu equipamento no cassino para gravar um disco. Zappa
e sua trupe tocavam uma série de músicas, quando de repente
todos param de tocar. "Fire! Arthur Brown, em pessoa!", gritou
Frank, referindo-se a outro roqueiro maluco da época, para depois
pedir que todos saíssem com calma do prédio.
Tão
calma parecia a situação que Roger Glover, o baixista
do grupo inglês, conseguiu caminhar até o palco, com o
prédio em chamas, para dar uma olhada nos sintetizadores usados
pelos Mothers, a grande novidade da época. Mais tarde, o cassino
se transformava em cinzas. Bebendo uma cerveja em um bar com vista privilegiada
com seus colegas, Glover olhou para a fumaça subindo sobre o
lago Genebra, olhou para o céu e rascunhou num guardanapo: "Smoke
on the water" - fumaça sobre a água. Quando ele propôs
o título ao resto da banda, o vocalista Ian Gillan estrilou:
"Vai parecer música sobre drogas, e nosso negócio
é beber".
O título acabou passando, porém,
com uma letra que rememorava os percalços da gravação
do disco Machine Head, até hoje o mais conhecido do Deep Purple.
Claude Nobs, citado na letra como "Funky Claude", como eles
não apostavam muito na música, Smoke on the Water foi
abrir o lado B do vinil.
Os primeiros a notar a semelhança
entre Smoke on the Water e Maria Moita foram os DJs europeus. Nas pistas
de dança, eles botavam uma versão technobossa de Maria
Moita para logo depois lascar um certo Señor Coconut (N.E.: o
maluco do Baile Alemán, com músicas do Kraftwerk em ritmo
de salsa e cha cha cha) tocando uma versão caliente da música
do Deep Purple. Com a repercussão do disco de technobossa de
uma jovem cantora brasileira, um fã do Purple casualmente ouviu
um trecho de Maria Moita e postou uma mensagem em um fórum especializado.
Achava que a moça tinha plagiado a música de seu grupo
favorito. Que nada. Havia possibilidade de ser o contrário, visto
que o cancioneiro da bossa nova havia sido composto quase todo na década
de 60.
Carlos
Lyra não conhecia Smoke on the Water quando foi contatado pelo
Marca Diabo. Tampouco imaginava que uma música com uma introdução
semelhante à da música que compôs com Vinicius,
que ficara famosa na voz de Nara Leão, fosse um sucesso tão
grande entre jovens de três décadas.
Com os dados hoje disponíveis,
ainda é impossível dizer que Ritchie Blackmore tenha plagiado
a música de Lyra, até porque o que caracteriza plágio
são doze compassos iguais (o que não há). Ritchie
é conhecido por seu faro para riffs, e sempre foi dado a fazer
homenagens musicais - em 1974 ele usaria a melodia de "Fascinating
Rhythm", de George Gershwin, para a poderosa levada de "Burn",
e nos anos 80 ele colocou eletricidade na Nona Sinfonia de Beethoven,
transformando-a na instrumental "Difficult to Cure". Contatada
por e-mail, a assessoria de imprensa do guitarrista não concedeu
entrevista ao Marca Diabo. A conexão, então, pode apenas
ser suposta.
É
possível que Blackmore tivesse ouvido antes a bossa de Carlos
Lyra, talvez casualmente com Claude Nobs, e a genial simplicidade da
frase do maestro soberano tivesse ficado guardada no fundo de sua memória.
Talvez ele imaginasse que ninguém notaria a semelhança.
E, pela própria simplicidade da melodia, não se pode descartar
o fator coincidência - se Jobim e Blackmore não inventassem,
alguém inventaria aquela levada.
Com o registro da semelhança, os
brasileiros ganham uma curiosidade a mais de que se orgulhar e os fãs
de rock ganham um fato a mais para sua trivia. Não só:
essa curiosidade demonstra como respeitar demais as fronteiras da música
é uma atitude simplista demais. Mais: que Tom Jobim é
tão malaco quanto Ritchie Blackmore, o que não é
pouca coisa.
Marcelo Soares