Matéria
Esqueça
o resto, Soulseek
é o que há
Programas de P2P
pouco conhecidos podem trazer redenção às viúvas do Audiogalaxy e do
Napster
KaZaA,
WinMX, Grokster, eDonkey, Shareaza, BearShare, iMesh, MediaSeek, Filetopia;
o avanço geométrico da internet de alta velocidade em computadores domésticos
fez proliferar também os programas de intercâmbio de vídeos, softwares
e, principalmente, música em formato MP3. Naturalmente a indústria fonográfica
desgostou de tal tecnologia que facilita a duplicação de CDs, e hoje
a Recording Industry Association of America (a famigerada "RIAA") já
conseguiu barrar judicialmente o funcionamento dos dois programas mais
conhecidos para intercâmbio de MP3, o Napster e o Audiogalaxy. Mas o
que nem todo internauta que gastou horas de luto fuçando a rede por
outra boa fonte de música sabe é que ainda existem bons programas na
ativa, com sistemas não tão "inteligentes" quanto os de seus antecessores
e concorrentes, mas que reúnem um bom e variado número de usuários conectados,
capazes de manter acesa a chama do file sharing.
O primeiro passo recomendado na cruzada
por novos MP3 no mundo dos P2P ("peer to peer", conexão direta e privada
entre dois usuários) é esquecer o popular KaZaA, a não ser que sua ambição
musical não consiga lhe levar para muito além do que toca nas rádios.
Estamos falando aqui de muita música, raridades, gravações ao vivo;
discos esquecidos ou até mesmo nunca lançados por uma grande gravadora.
Você gostaria de ouvir o que o resto do Cream produziu depois que Eric
Clapton saiu da banda? Ou de ouvir a banda de Ronnie James Dio antes
de ser vocalista do Rainbow? Talvez as demos do Pink Floyd - The
Wall, ou um show acústico do David Gilmour em 2001? Talvez um show
do Soundgarden na turnê do Badmotorfinger ou, mais recente ainda,
um show do Audioslave? E mesmo que você seja menos ganancioso e queira
ouvir apenas os discos que o Lúcio Ribeiro recomenda, não tem problema:
lá você encontra o Songs For The Deaf facilmente, mas com a opção
de poder escolher a edição inglesa, que possui algumas faixas bônus.
Enfim, se a idéia de poder ouvir qualquer um dos álbums acima lhe agrada,
você tem potencial para se tornar um fiel usuário do Soulseek.
O Soulseek
é um programa gratuito e relativamente leve, como a maioria dos programas
P2P, e seu instalador pesa apenas 749 Kbites para download. E o que
pode fazê-lo ser "melhor" que os outros? O Soulseek é um programa com
uma interface meio antiga, possui um sistema de busca que deixa a desejar
e não apresenta muitos recursos extras. Ele é melhor simplesmente porque
é bem freqüentado. Enquanto os outros programas podem ser comparados
a uma loja de CDs populares, onde você encontra na prateleira apenas
os discos mais vendidos do mês, o Soulseek se assemelha mais a uma loja
especializada, com muitos usuários que partilham suas raridades e coleções
pela rede.
A simplicidade excessiva do sistema de
busca torna o Soulseek um programa um tanto "burro", por ser meio caótico
e assistematizado nessa função básica que é procurar por arquivos específicos.
Em compensação, há dois facilitadores: um é a Wishlist (lista de desejos),
onde se dá uma entrada de busca e o sistema repete a mesma entrada indefinidamente.
Esse sistema é de primeira utilidade para encontrar arquivos incomuns,
uma vez que enquanto o programa estiver online ele vai ficar procurando
resultados a partir da Wishlist, até que a entrada seja retirada da
lista. Outra forma de buscar arquivos desejados ou até de conhecer novas
bandas são as várias salas de chat, de interface bem semelhante aos
programas de IRC da internet, onde muitas delas são organizadas por
estilo musical. Este artifício acaba se tornando um bom atalho para
a criação de "guildas" onde os usuários com a mesma tendência musical
se encontram e trocam arquivos. Bate-papo mesmo não é muito comum (afinal
o programa é usado para trocar música, não para chat), mas as salas
podem fazer parte de uma boa estratégia para encontrar os usuários mais
prováveis que terão aquele disco que você está procurando. O programa
também permite a criação de uma "lista de amigos" (Buddylist), que funciona
como uma espécie de comunicador interno, porém mais uma vez é pouco
usada para bate-papo: a vantagem de estar na Buddylist de um usuário
é ter preferência na fila para baixar os arquivos dele. Dá para perceber
que neste programa as boas relações ditam o número de portas abertas
para download.
A política da boa vizinhança -
Uma característica de alguns programas de P2P é essa interação pessoal
entre os usuários. Quando estão dentro de uma sala, cada pessoa tem
descrito ao lado do seu username quantos arquivos estão compartilhando,
bem como uma média da sua velocidade de transmissão de dados. Uma vez
que são criados os grupos (alguns se assemelham mais à clãs ou guildas)
de usuários com afinidades musicais em comum, é natural que se crie
também alguns padrões éticos entre eles - a existência de salas de chat
permitem um sistema de compartilhamento muito pessoal, por isso é aconselhável
se preocupar em adquirir alguma "política de boa vizinhança" com os
outros usuários, especialmente quando você encontrou aquele álbum que
procura há anos e que seria capaz de matar para conseguir uma cópia:
seja gentil com o dono desses arquivos, porque se ele não for com a
sua cara ou se você for indesejado de alguma forma, está correndo o
risco de ser banido da lista de uploads dele. Isso não quer dizer que
você deva pedir permissão toda vez que quiser baixar um álbum (afinal
o programa foi feito exatamente para trocar música, não para confiná-la,
e todos supostamente sabem disso), mas há algumas regras gerais que
vale a pena prestar atenção antes de se aventurar.
Por exemplo, compartilhar arquivos é um
pré-requisito para qualquer usuário, "share 'em if you have 'em". O
próprio documento de 'dicas' do Soulseek adverte que seus usuários tendem
a ser "menos gentis" com outros que copiam MP3 alheios sem partilhar
os seus próprios - essa é uma regra universal, normalmente punida com
banimento (proibição automática de download para aquele usuário) e o
aproveitador costuma ser tachado de "leecher" (parasita, sanguessuga).
Parece um tanto cruel, mas pode residir aí a explicação para a qualidade
do software: programas P2P são baseados na troca de arquivos; a variedade
musical depende diretamente da quantidade de usuários online compartilhando
seus álbums. É dessa "consciência coletiva" de que depende a qualidade
dos programas P2P.
André Lückman
Originalmente publicado no site BackstagePass
(www.backstagepass.floripa.com.br).