HQs
Política
em quadrinhos
Um resumo do que
essa mistura rendeu aos leitores
Quadrinhos
e Política. Sempre que alguém resolve fazer essa conexão
o que vem à mente são as charges publicadas em jornais
e movidas basicamente a comentários políticos. Isso em
parte faz todo o sentido, porque o gênero tem suas glórias
para se gabar. Por exemplo, foi um chargista, o Herblock do Washigton
Post, mesmo jornal que desencadeou o processo de impeachment de
Richard Nixon, quem batizou o movimento de caça aos comunistas
dos anos 50 nos EUA, o Macarthismo. No Brasil, outra manifestação
de um desses artistas que entrou para os dicionários de política
foi o apelido que acompanhou Carlos Lacerda pro resto da vida, o Corvo,
dado por Lan em 1954 no extinto jornal Última Hora. Provavelmente
o brasileiro que nessa área mais cruzou fronteiras foi o paulistano
Belmonte. Com seu trabalho, publicado na década de 40 em diversas
periódicos estrangeiros como Judge (EUA), ABC (Inglaterra),
Le Rire (França), Kladeradatsch (Alemanha) e Caras
y Caretas (Argentina), ele irritou profundamente a cúpula
do partido nazista alemão, sendo atacado em programas de rádio
daquele país (para mais detalhes sobre esse chargista leia www.omalaco.hpg.ig.com.br/pracinha_belmonte.htm).
Mas,
por outro lado, apesar dos parentescos óbvios, é preciso
ressaltar que charge não é exatamente quadrinhos. As HQs
necessitam de algum tipo de narrativa seqüencial para serem consideradas
como tal, o que a charge dispensa. Mal comparando, é como se
a charge fosse um riff de guitarra, e HQ uma música completa.
Sendo assim, o verdadeiro cruzamento entre quadrinhos e política
aconteceu mais tarde, muito provavelmente influenciado pelo trabalho
dos chargistas. É difícil rastrear o início desse
casamento, mas é fácil de se localizar qual foi a publicação
de quadrinhos mais influente de todos os tempos; a revista que praticamente
inaugurou o conceito de cultura underground no seu berço, San
Francisco, na Califórnia, e dali se espalhou para o resto do
mundo. Estamos falando da Zap Comix, uma revista artesanal criada
pelo desenhista Robert Crumb, em 1967, e mantida por um grupo reduzido
de artistas ao longo dos 14 números que foram esparsamente publicados
até 1998.
Recentemente o Brasil ganhou uma coletânea
digna desse material, lançada pela Conrad Editora (leia
a resenha). Acompanhando as histórias reunidas especialmente
para o álbum, o diretor editorial da Conrad Rogério de
Campos produziu um abrangente ensaio ("Alter America, Alter Heroes")
sobre o contexto em que surgiu a publicação e a importância
da Zap para o recém-nascido movimento de contracultura.
Este trecho dá conta de como os quadrinhos estavam incorporados
no inconsciente coletivo daqueles que procuravam um meio para expressar
o descontentamento contra o sempre xingado "sistema":
"O
lançamento de A Miséria do Meio Estudantil (texto
que foi o pavio para o Maio de 68 francês) foi acompanhado de
uma história em quadrinhos (Le Retour de la Colonne Durruti),
e o cartaz que chamou as manifestações de maio era em
forma de HQ. Um de seus principais porta-vozes dos Provos de Amsterdam
era o desenhista Willem. Che era herói de historietas na América
hispânica , e os jovens chineses, entusiastas da luta contra o
Velho, entenderam que seu grande timoneiro, Mao, no discurso de Yenan
a respeito da cultura, referia-se aos quadrinhos quando falava de algo
que seria 'parte integrante do mecanismo geral da Revolução'.
Com a finalidade de angariar fundos para a defesa dos Oito de Chicago
[líderes de manifestações de 68 nos EUA, a maioria
do grupo radical Panteras Negras, processados pelo presidente americano
Richard Nixon] publicou-se um gibi beneficente, Conspiracy Capers,
com a grana que Abbie Hoffman havia conseguido de adiantamento por seu
Steal This Book. E quando o ex-soldado Ted Richards quis contar
o que acontecia no dia-a-dia do Vietnã, fez uma história
em quadrinhos".
LIMITES
E INFLUÊNCIA - Com suas histórias iconoclastas, referências
explícitas a sexo de todo tipo e ao uso das mais variadas drogas,
atentados contra o modo de vida americano, a Zap Comix fez a
crítica necessária, na hora certa. No meio daquela confusão
que os jovens aprontavam antes, durante e depois do ano-chavão
de 1968, os EUA estavam prontos para descambar para a extrema direita.
Em um resumo rápido e rasteiro, entre o começo dos anos
60 e meados dos 70, o país encarou a Crise dos Mísseis
em Cuba, o assassinato do democrata Kennedy e a eleição
e reeleição do conservador Nixon...Era necessário
um bando de loucos como Robert Crumb, Gilbert Shelton e os demais zapsters,
que forçassem os limites da liberdade de expressão, do
que era ou não possível se fazer. O tal limite foi mais
ou menos estabelecido no quarto número, publicado em 1969, o
primeiro com o bando clássico todo reunido. Livreiros foram presos
por todo o país por venderem material tão belicoso. Um
juiz de Nova Iorque deu o mote que virou lenda ao decretar que a revista
era "feia, barata e degradante" e que a moral de pessoas normais
seria "irreparavelmente corrompida" ao ter contato com tal
excrescência. Fianças foram pagas e o caminho continuou
sendo seguido. Zap Comix chegou a seu auge de vendagem na década
seguinte, com tiragem batendo nos 400 mil exemplares, provando que a
base para uma contracultura de fato estava montada.
Para
resumir, aquela publicação representou uma demarcação
política, o contraposto que boa parte do mundo implorava para
que surgisse. Prova disso foi o sucesso que as histórias alcançaram
quando foram publicadas em outros países, como a França.
Voltando a citar Rogério de Campos em seu ensaio: "Quando
no final dos anos 60, Jean-Fraçois Bizot decidiu que existiria
uma contracultura na França, nem que fosse inventada por ele,
o que fez foi pegar uma revista de free jazz e enchê-la de quadrinhos
de Crumb e Shelton". E por aí afora, em toda parte da Europa,
como na Espanha pós-Franco e suas revistas underground como Canibal
e El Vibora (certa vez perguntaram a um dos principais artistas
desta revista, Max, criador do excelente Peter Punk, sobre seus ídolos
e ele foi direto: "Crumb e ponto final. Eu faço HQ porque
um dia vi um desenho dele e disse: é isso que quero fazer").
Na Inglaterra surgiram publicações como 2000 A.D.
e Warrior, sendo que nesta última, já no começo
dos anos 80, o maior de todos os quadrinistas, Alan Moore, começou
a publicar um verdadeiro manual de Anarquia, a série "V
de Vingança".
Até
nos EUA o próprio mainstream dos quadrinhos certa hora precisou
se curvar à força do material underground. Os desgastados
super-heróis passaram a ganhar uma sobrevida quando incorporaram
temas sociais às suas histórias, como racismo, contestação
à Guerra do Vietnã e ao uso de drogas. Assim, a partir
dos anos 60, surgiu um material mais renovado nas editoras tradicionais,
primeiro dentro da Marvel com o trabalho de Stan Lee (principalmente
com Homem-Aranha e X-Men) e mais tarde seguido pela veterana DC (as
histórias mais famosas foram feitas por Denny O'Neil e Neal Adams
na revista Green Lantern/Green Arrow). Mas nesse quesito
é preciso lembrar que esse material de super-heróis convive
desde os anos 50 com a autocensura representada por um código
de ética restritivo. O Comics Code foi criado em resposta às
acusações de que quadrinhos não passam de material
subversivo, feitas pelo livro Sedução dos Inocentes,
fruto direto do já citado Macarthismo. Há coisa de 20
anos a situação tem melhorado, com a importação
de talentos europeus, britânicos quase sempre, como Alan Moore
(Monstro do Pântano) e o irlandês Garth Ennis (Preacher),
que dão interessantes conotações políticas
a seus trabalhos ianques. Isso para não falar de uma geração
mais nova de verdadeiros underground americanos, como Peter Bagge e
sua série Hate.
EXPERÊNCIAS NO BRASIL - Se dissemos
que na década de 60, no momento em que surgia a Zap Comix,
os EUA corriam o risco de mergulhar no extremismo da direita, o Brasil
por sua vez não corria tal perigo. Por aqui os protofacistas
já davam as cartas. A ditadura que se arrastou de 1964 até
1985 dificultava que o material da Zap chegasse até nosso
país de forma decente. Uma publicação que conseguiu
publicar algo da revista foi a Grilo, misturado com toneladas
de material mais comportado (por ocasião da publicação
da coletânea da Conrad, Laerte, o melhor quadrinista deste país,
escreveu na Folha de S. Paulo as histórias da Zap
foram seu "Woodstock particular" naquela época). As
dificuldades de se conseguir acesso às HQs de Crumb e companhia
atrasou bastante o surgimento de publicações realmente
influenciadas pela Zap e seus derivados. Toda uma geração
de pessoas influenciadas por aquele material dos anos 60 e 70 começou
de fato a publicar por aqui na década de 80. Foi assim que surgiu
o trabalho de Marcatti, influenciado diretamente por Gilbert Shelton,
e que recriou todos o processo dos comix americanos nas ruas paulistanas
com uma inesgotável quantidade de zines artesanais. Surgiu também
a Chiclete com Banana, de Angeli e colaboradores, crumbiana até
o osso e pela mesma editora a Animal, praticamente uma sucursal brasileira
da El Víbora.
Mas
é preciso reconhecer que nos anos 60 existiu no país uma
infinidade de publicações pequenas: Movimento,
Versus, Opinião e tantas outras formando o que
o jornalista João Antônio apelidou de "imprensa nanica".
Só que esses jornais eram mais voltadas à política
que aos quadrinhos, e muitas vezes passavam do ponto. O melhor exemplo
é o mais famoso dos nanicos, uma publicação surgida
nos anos 60, que teve seu ponto máximo de vendas na década
de 70, com tiragem bem parecida com a do Zap. O Pasquim,
criado em julho de 1969, e que foi brilhante em seus primeiros anos
de existência, chegou a seu fim de fato em 1982. Naquele ano,
os cartunistas Jaguar e Ziraldo atrelaram o futuro do semanário
ao resultado das eleições para o governo do Rio. Um apoiava
o PDT do Brizola, o outro o PMDB de Miro Teixeira (hoje ele é,
por enquanto, pedetista e ministro das Comunicações do
Lula). Quem perdesse cairia fora do jornal, que passaria a apoiar o
eleito. O Pasquim continuou por lamentáveis sete anos,
até fechar a conta de vez. Atualmente, Ziraldo, o perdedor da
época teve a brilhante idéia de ressuscitar o dito cujo,
acrescentado do número 21, fazendo com isso uma publicação
tão interessante quanto ata de reunião de condomínio.
Felizmente, os autores da Zap Comix nunca caíram nesse
tipo de erro de engajamento em política partidária (isso
é ainda mais positivo de levarmos em conta quem são os
atuais presidentes dos EUA e governador da Califórnia). E, até
por isso, virou lenda.
Romeu Martins