Entrevista

"Imprensa alternativa? Isso existe hoje?"
Luiz Carlos Maciel, ex-editor da Rolling Stone brasileira e considerado "guru" da contracultura nacional, solta o verbo

Luís Carlos Maciel é um dos pivôs da contracultura no Brasil. Porto-alegrense radicado no Rio de Janeiro, foi um dos fundadores d’ O Pasquim junto a Millôr Fernandes, Henfil, Paulo Francis, Tarso de Castro, Jaguar, Ziraldo, Sérgio Cabral, Fortuna e Ivan Lessa. Trabalhou com Glauber Rocha como ator e diretor de atores, escreveu e dirigiu diversas peças de teatro, além de ter trabalhado como roteirista de programas de televisão. Em 1972, editou uma autêntica edição nacional "marca diabo" da revista Rolling Stone. Foram 36 números que abordavam desde música pop até misticismo e comportamento, tornando-se uma das principais experiências da imprensa alternativa brasileira e servindo de referência para todas as publicações do gênero surgidas na seqüência. A imprensa musical moderna no Brasil nasceu ali, onde foram publicados pela primeira vez textos de gente como Ana Maria Bahiana, Ezequiel Neves, Okky de Souza e José Emílio Rondeau.

Maciel esteve em Florianópolis para uma palestra na III Semana de Jornalismo da UFSC e conversou com o Marca Diabo sobre a aventura da Rolling Stone, cinema nacional, Elis Regina e Arquivo X.

Marca Diabo - Nos anos 70, você editou no Brasil uma versão "marca diabo" da revista Rolling Stone. Durante um período vocês pararam de pagar os royalties e continuaram a publicar uma edição pirata, não?
Luís Carlos Maciel - Na verdade ela foi pirata todo o tempo, porque os caras nunca pagaram nada (os ingleses Mick Killingbeck e Norman Hilary Baines, sócios da edição nacional da revista). Eles fecharam o contrato mas nunca pagaram. Aí depois de alguns meses, eles (da Rolling Stone americana) mandaram uma reclamação formal e suspenderam o envio de matérias para nós. Mas o engraçado é que eles não abriram um processo pelo uso da marca nem nada. O jornal continuou saindo com aquele logotipo da Rolling Stone, só que por sugestão do (diretor gráfico) Lapi a gente colocou um "pirata" embaixo (risos). Então virou a Rolling Stone Pirata.

MD - E como foi a experiência de editar a Rolling Stone? Vocês não falavam só artistas de rock, não é? Até o Luiz Gonzaga foi capa...
LCM - Sim, o Luiz Gonzaga. Acho que quem fez a matéria foi o Capinam. Teve o Nelson Duarte na capa, o detetive.

MD - Detetive?
LCM - É, o Nelson Duarte era um detetive que era um dos Homens de Ouro, detetives da polícia carioca que eram autorizados pelo governo do estado para matar gente. Um deles até hoje é deputado estadual, cujo lema é "bandido bom é bandido morto". E o Nelson Duarte fazia campanha contra drogas, e a gente tinha raiva dele por causa disso. Aí fizemos uma reunião de pauta e dissemos "vamos acabar como esse filha-da-puta, esse viado". E tinha o Carlos Marques, que era um tremendo repórter, inteiramente louco, chato pra caralho, mas que topava todas. Então o Carlos Marques disse assim: "eu faço essa matéria". Ele ficou amigo do Nelson Duarte, o Nelson Duarte levou o Carlos Marques pra casa dele, o Carlos Marques enrolou o cara dizendo que ia fazer uma matéria glorificando o Nelson...

MD - Caralho...
LCM - Sugeriu uma foto para o Nelson: "vamos tirar uma foto, você e a sua família. Mas todo mundo com uma arma na mão" (risos). Então era a mulher dele armada, as crianças todas armadas. E o Carlos falando, "junta mais um pouquinho pra foto de família". Aí o Carlos conseguiu uma foto do arquivo do Nelson Duarte, uma que ele estava todo condecorado, levou para a redação e nós fizemos um carnaval. Colocamos na capa, uma capa verde [N.E.: Infelizmente não conseguimos uma reproduçao dela]. E o Nelson Duarte ficou maravilhado com a história, até que abriram um processo contra os Homens de Ouro, por causa dos crimes, porque eles matavam as pessoas.

MD - Era uma espécie de Escuderie Le Cocq?
LCM - É, eles faziam parte da Escuderie Le Cocq (organização criada em 1964 por policiais no Rio de Janeiro com o objetivo de matar criminosos). Os caras da Escuderie Le Cocq viraram os Homens de Ouro. Então eles foram levados a julgamento, foram processados. Até que em uma audiência com uma juíza, ela se vira e diz para o Nelson Duarte: "ah, o senhor é aquele detetive que foi ridicularizado por uma revista e tá se achando todo importante?" O Nelson Duarte levou um susto, foi só aí que ele descobriu que tinham sacaneado com ele (risos). O Carlos Marques se mandou do Brasil, foi pra Europa. Ele disse, "puta, o Nelson Duarte vai me dar um teco, é melhor eu dar o pinote". Aí ele se mandou.

MD - E a parte musical? A Rolling Stone original até hoje trabalha com pautas alternativas, coisa que as outras revistas não fazem muito. Vocês davam mais ênfase à música brasileira?
LCM - Tinha a parte da música brasileira, mas mais da metade da revista tinha que ser rock. Porque o que vendia era rock, estava começando, estava aquela moda. E os únicos anúncios que a gente tinha era das gravadoras, da Phonogram, da Continental, que estavam lançando discos de rock americano adoidados. A Phonogram dava LPs para a gente distribuir para quem assinava a revista, então o rock tinha que ser a parte principal. E aí tinha uma outra parte que eu decidia, às vezes entravam artigos sobre outras coisas, e aí entravam os brasileiros. Como os gringos não gostavam muito de pagar os colaboradores brasileiros, pagavam mal e porcamente a gente que ia até a redação todos os dias, então a gente tinha que descolar de outro jeito. O Jorge Mautner aparecia na redação para visitar, muita gente aparecia lá, virou um point. Aí eu dizia, "Senta aí, Mautner, escreve uma matéria" e ele, "escrever sobre o quê?", e eu dizia, "Roberto Carlos". Aí ele fazia. Eu conseguia as matérias assim, na base da amizade, conversando com as pessoas.

MD - E você lembra de alguma matéria marcante que tenha feito?
LCM - Não, eu só editava. Ficava lá só comandando. Eu nem escrevia, não queria nem escrever, gostava de ficar lá na mesa, selecionar as matérias, ficar junto com o Lapi. Falava, "vamos colocar essa matéria, essa tá boa, vamos colocar isso". Foi aí que o Lapí sugeriu botar o Nelson Duarte na capa e eu topei. Dona Lalá a gente botou na capa. Dona Lalá era uma mulher da tradicional família mineira, super-moralista, falava mal de todo mundo. Um mineiro puto com a Dona Lalá escreveu uma matéria esculhambando com a dona Lalá, mandou pra lá, eu publiquei e dei capa. Entravam matérias assim, comportamento da família brasileira, moral brasileira, tiveram várias assim.

MD - E além dessas pessoas da música, tinha alguma figura do jornalismo mais alternativo que escrevia para vocês?
LCM - Tinha uma porção de gente que começou escrevendo lá até mesmo como leitor. Jamari França apareceu na Rolling Stone porque começou a mandar críticas para a seção "recado do leitor", onde eram publicados textos enormes, críticas e tudo. E teve muita gente que apareceu ali e seguiu carreira profissional. Outros que começaram lá foram a Ana Maria Bahiana, o Okky de Souza, que foram levados para lá pelo meu braço direito, o cara que entendia de rock, Ezequiel Neves, o famoso Zeca Jagger (produtor e parceiro do Barão Vermelho).

MD - Vocês se inspiravam muito na imprensa hippie? Chegava muita coisa da imprensa alternativa americana por aqui na época?
LCM - Muito não, pouco, porque a gente não recebia tanta coisa, não. Eu tinha um amigo, Jacques, que estudava em Berkeley (Califórnia) na época. E lá era um centro contracultural, com núcleos pacifistas e tudo mais, então ele vivia nesse meio e me mandava muita coisa. Por aí eu conseguia muita informação e sabia das novidades. E umas outras pessoas escreviam de vez em quando e mandavam coisas. Mas o Jacques foi quem me mandou mais coisa, era quase regular.

MD - Na época que você trabalhou como roteirista da Globo você chegou a escrever uma minissérie sobre a vida da Elis Regina, que foi vetada pela família...
LCM - Não foi vetada, simplesmente não foi pra frente. Eu nem cheguei a escrever a minissérie, só a sinopse, um planejamento dos capítulos. Quem queria fazer essa minissérie era o Ronaldo Bôscoli (músico e ex-marido de Elis), que ia ser a principal fonte de informações, o projeto era dele, a idéia era dele. Mas foi muito torpedeado pela Maria Rita (Mariano) e mais ainda pelo João Marcelo (Bôscoli), filho dele (risos). Porque o João Marcelo foi criado pela Elis junto com o César Camargo (Mariano, músico e ex-marido de Elis) e a Elis fez muito a cabeça do João Marcelo contra o Bôscoli, coisas do tipo "o teu pai é um cafajeste", aquelas coisas que mulher fala quando separa do marido. Então o João Marcelo não tinha a menor confiança no Bôscoli. E ele sabia que o projeto era do Bôscoli. Quer dizer, o que foi brecado ali foi mais o Bôscoli do que a minha minissérie. A minha minissérie era uma coisa profissional, uma sinopse que podia ser usada por qualquer um, mas tinha a presença do Ronaldo Bôscoli. Então havia esse medo de que o Ronaldo Bôscoli fosse sacanear a memória da Elis. Não era a intenção dele, mas já tinha havido muita briga antes, então não deu.

MD - A Rolling Stone foi uma das primeiras ou a primeira tentativa de se fazer uma revista musical no Brasil. Por que você acha que até hoje não deu certo, nenhuma revista se firmou fazendo esse tipo de jornalismo musical e alternativo?
LCM - Eu não sei exatamente o porquê. Imagino que tenha sido venda baixa, porque se tivesse uma venda alta daria mais dinheiro. Aí os anunciantes se interessariam mais em manter aquele veículo.

MD - E quanto à imprensa alternativa de hoje, você vê alguma coisa interessante?
LCM - Eu não vejo nada de imprensa alternativa. Isso existe? Eu nem vejo, nem penso nisso porque minha cabeça está em outras coisas. Eu tenho um projeto de imprensa alternativa que é a "Kaos". Eu reencontrei o meu amigo Jorge Mautner, nós tivemos essa idéia há muitos anos. Ele teve a idéia, na verdade. Ele queria fazer uma revista chamada "Kaos" com "k", que é o nome do partido dele, do qual ele é o único militante, porque não precisa de mais. Ele queria fazer essa revista e me chamou para editar. Agora apareceu esse menino, o Sérgio Cohn, que tem uma editora, a Azougue, que só edita livro de poesia, todos sempre com patrocínio. Eles sabem mexer nesses negócios de projetos, Lei Rouanet, engambelar uns empresários, pegar uma grana e tal. Eles publicaram as obras completas do Mautner, três volumes, dentro de uma caixa, uma edição luxuosa, um negócio que deve custar caro à beça e deve ter vendido uns 50 exemplares, mas se pagou, com patrocínio. Então ele ficou de fazer o projeto e conseguir patrocínio para nós.

MD - E como ficou o perfil da revista?
LCM - O perfil da revista ficou meio qualquer coisa, porque não tá muito definido. Mas o caos é isso mesmo, o caos tem que acontecer. Agora, se você perguntar isso para o Mautner, ele vai fazer um discurso completamente metafísico (risos). Os editores somos nós dois, o Mautner e eu. Claro que eu vou trabalhar sozinho (risos). O Mautner vai fazer discursos, fazer shows, falar da revista nos shows. Quem vai recolher material, compor a revista e tudo, sou eu.

MD - E na internet, você tem visto algo de interessante?
LCM - Aí eu não sei porque não vejo. Eu tenho uma preguiça de navegar, eu não tenho saco. Eu só entro na internet obrigado. Por exemplo, eu escrevi alguns artigos para a Gazeta Mercantil, aí eu tinha que entrar na internet, tinha que me informar sobre a direita americana. Mas eu só uso a internet assim, para pegar alguma coisa que eu esteja precisando. Eu nem conheço muitos sites. Eu já tive um site também, mas aí eu abandonei, não fiz mais nada, não paguei domínio e tiraram do ar.

MD - Na parte audiovisual, você tem acompanhado o trabalho dos novos roteiristas na TV?
LCM - Não vejo, não. Eu sei que é um trabalho bom que alguns estão fazendo e tudo, mas eu não vejo. Eu não assisto TV Globo, eu não assisto TV aberta, só vejo coisa americana no cabo.

MD - Afinal o que tem lhe interessado ultimamente?
LCM - Não tenho visto muita coisa ultimamente. Vejo uns documentários no GNT, documentários sobre jazz, porque eu sou jazzófilo, até gravei. Nem precisei comprar o DVD, estou com as fitas que gravei lá, de graça. Eu era fã de Arquivo X, eu acompanhei durante muito tempo, sabia toda a história, uma grande obra de roteiro. Uma época eu fui chamado de volta pela Globo para fazer coordenação de roteiro para o extinto "Você Decide". A primeira coisa que eu pedi foi uma cortiça grande, uma mesa com duas cadeiras onde eu podia ficar com o roteirista discutindo a escaleta do roteiro dele, pregado na cortiça com cartões. Porque é assim que o Chris Carter (criador de Arquivo X) fazia. Colocava os cartões, dividia os blocos, mudava seqüência de cenas e discutia com o roteirista assim. E acertava com o roteirista o formato final do episódio. Então, a primeira coisa que eu disse foi "ah, quero uma cortiça igual a do Chris Carter" (risos). Mas isso não foi para a frente. Mas eu ainda vou ter um projeto para a televisão e vou usar esse método.

MD - Agora está acontecendo uma pequena abertura para produções independentes na Globo, o Cidade dos Homens é produzido pela O2...
LCM - Isso porque morreu o Roberto Marinho. É verdade. Porque quando chegavam propostas de produções independentes o doutor Roberto dizia, "não tenho sócios". A Globo tinha que produzir tudo que ia para o ar. Ele criou o Projac para isso, a Globo queria produzir todo o seu material e produzir para outras emissoras também. Ele queria um monopólio de produção.

MD - E você tem acompanhado o novo cinema nacional?
LCM - Eu vi esses que todo mundo viu e achei bacana. Filmes interessantes, Cidade de Deus, Carandiru, O Homem que Copiava, uma produção com um certo nível. Gostei do Amarelo Manga, feito por um pernambucano, que eu não conhecia (Cláudio Assis). Interessante mesmo, com cenas meio chocantes, a morte de um boi, meio brutal.

MD - Mas há uma profissionalização no roteiro hoje em dia? Eles estão mais bem cuidados?
LCM - Sim, é porque tem mais conhecimento técnico. Na época do Cinema Novo era tudo intuitivo, dependia da genialidade do diretor. O João Ubaldo Ribeiro escreveu o roteiro de Tieta com o Cacá (Diegues). O roteiro chegou a ter 600 páginas. E o Cacá queria mais. O Ubaldo disse "Cacá, não está mais na hora de escrever cenas novas, está na hora de cortar, você tem que me dizer o que eu devo cortar do roteiro". Aí o Cacá mandava cortar duas cenas com grande dor no coração e depois escrevia mais quatro novas, aí não dava. Um dia o João Ubaldo chegou lá no Leblon e disse "Leon Tolstói está vivo, mora na Gávea e usa o nome de Cacá Diegues" (risos). Se você conhece as técnicas de roteiro, não precisa escrever nada tão longo. A técnica do cinema brasileiro era de escrever muito e depois começar a cortar. Então deixava em ordem e tudo que tivesse dificuldade para se filmar era cortado. Aí o resto você filmava. Aí levava para a moviola. Tudo que não estivesse bem filmado, cortava. E o que sobrava era o filme. A estrutura do filme era afetada pelos acontecimentos. Não havia estrutura de roteiro, o filme era só o que restava no fim. Por isso que eram ruins. Os filmes do Cacá não são bem roteirizados, nunca foram bem roteirizados. Agora esse pessoal mais novo conhece o Syd Field, o que já ajuda muito o roteiro.

MD - O Syd Field tem a fama de ter deixado um legado perverso.
LCM - Mas não é bem assim. Como é que esses caras acham que Quentin Tarantino faz roteiro? Faz tudo direitinho e aí ele inventa, bota pra frente, bota pra trás. O Mulholland Drive? Acha que o David Lynch escreveu o roteiro daquele jeito? Claro que não! Escreveu uma historinha caretinha, quadradinha e depois inventou. Eu digo sempre nas aulas, "faz tudo em ordem cronológica, tudo certinho, tudo bem caretinha. Quando você for fazer a escaleta, aí você pode brincar." É só mudar as cenas de lugar. O método tradicional da escaleta, com cartão, permite isso. Se você quiser fazer uma coisa bem louca, pega os cartões, joga tudo para o alto, cata, e na ordem que você for catando, monta o roteiro.

MD - Então David Lynch fez isso no Mulholland Drive...
LCM - Não, não fez não. Ele fez tudo malandramente. Fez a história das duas mulheres e depois maceteou.

MD - Mas no "Estrada Perdida" fez, então...
LCM - No "Estrada Perdida" pode ser...

 

Entrevista: Gabriel Rocha, Giuliano Ventura e Romeu Martins
Foto de Maciel: www.semanadojornalismo.ufsc.br
Capas da Rolling Stone: www.senhorf.com.br