Entrevista

Constrangendo o mercadão
Lobão lança revista/CD a preço camarada para dar chance aos artistas independentes

Em 1999, ele veio com A Vida É Doce. CD independente, som moderno, boas referências e 100 mil cópias pra conta - tudo numerado. Quatro anos depois Lobão ressurge com uma arma para duas batalhas. Ou num jargão marqueteiro, um projeto para dois nichos: o mercado fonográfico e o de publicações. Com Outra Coisa, ele pretende "constranger o mercadão" lançando uma revista sobre música acompanhada de um disco de artistas nacionais não abonados por grandes gravadoras.

E diferentemente do que aconteceu com A Vida É Doce, O Charada Brasileiro (do Papito) ou A Melhor Banda de Todos os Tempos... (dos Titãs), não se trata de um disco emoldurado por uma revista especial e sim um título com periodicidade que traz a cada edição o novo álbum de um artista/banda do cenário independente. A revista com o CD Enxugando Gelo, de B Negão, é vendida por R$ 11,90. O lado "constrangedor" para o mercado é que, via de regra, comprar uma revista de música na banca e um CD novo qualquer na loja dificilmente sai por menos de R$ 35 - uma brincadeira ardida pro bolso.

Lobão lançava a Outra Coisa em Curitiba na penúltima sexta-feira de novembro, numa revistaria da Rua 24 Horas em pleno horário de almoço. Graças à divulgação praticamente zero, Marca Diabo conseguiu bater um papo - coletivo, no final das contas - com ele e o rapper B Negão num momento de pura sorte. Ou cagada, como preferirem. Mais verborrágico do que costuma parecer (se é isso possível), Lobão estava era empolgado com o interesse dos fãs e curiosos que passeavam pelo empobrecido cartão-postal da capital paranaense. Não era muita gente - uma multidão de meia dúzia se revezava ao redor dele a cada dez minutos, mais ou menos - mas quase todos garantiam um exemplar da revista/CD e pediam um rabisco personalizado.

Aos 46, Lobão está curtindo a empreitada de ser um "publisher" como se fosse um estagiário recém-efetivado numa multinacional. Pensa, monta, desmonta, fala pelos cotovelos, passa de um assunto pro outro prometendo colocar na próxima edição... "A princípio, eu pensei em colocar na revista o nome de Blefe (blêfe, não bléfe, como teimam alguns), mas aí não ia servir. Só se acabasse no número zero". Podia ficar uma coisa meio Bundas, comentamos. "É, tinha isso também. Então eu peguei umas revistas gringas, como a Q, a Wired, e me surgiu o nome Outra Coisa e já fui fazendo o logotipo".

A revista tem perfil mais analítico que jornalístico. As pautas soam como manifestos contra o establishment e a tal da "ordem vigente" na indústria musical. Mais Caros Amigos, menos Bizz. Foge de seções-chavão como "Discoteca Básica" e "Cabra-Cega". Ao mesmo tempo, aborda a questão das rádios comunitárias, comenta um documentário sobre ativistas radicais americanos e desdenha o combate das gravadoras à pirataria. Tem tiras de Laerte, Angeli e Adão Iturrusgarai. E Glauco Mattoso rendendo homenagem a Marcatti e Lourenço Mutarelli. Poréns: uma rateada técnica que fez o texto sobre Direito do Entretenimento ficar quase ilegível; a falta de numeração nas páginas; e, como lembrou a jornalista Ana Maria Bahiana num artigo para o site Comunique-se, a ausência do "sanguinho novo" também entre os colunistas e colaboradores - já que a revista vem pra catapultar o meio independente, apostar em novos nomes também nesta área seria uma atitude louvável. Esperamos isso pras próximas, então.

Entre as pautas que devem figurar em futuras edições estão a utilização do ISRC (International Standard Recording Code) - um código de identificação para as músicas que visa regularizar os direitos autorais sobre sua execução - e a discussão da lei que criminaliza a prática do jabá nas rádios e em quaisquer meios de comunicação. "A gente vai reunir o pessoal que apóia, eu estou escrevendo o texto da proposta junto com o Fernando Ferro (deputado federal pelo PT de Pernambuco, que suscitou o projeto ao ministro da Cultura, Gilberto Gil, em abril passado) e vamos ver se colocamos aí de uma vez pra acabar com esse negócio de jabá". Lobão promete, para o segundo número, uns "vales-jabá" destacáveis. "Já que é proibido falar em jabá, vamos distribuir pra quem não pode um valezinho desses pra ver se o cara chega na rádio e consegue tocar sua música", provoca. O primeiro número da revista teve tiragem de 20 mil exemplares, mas para a próxima - que deve sair em janeiro - Lobão garante que serão 40 mil. Bom para Paulo Nápoli, o rapper carioca que lança seu CD de estréia na próxima edição de Outra Coisa.

No meio do papo, chega B Negão, vocalista do Planet Hemp e do finado Funk Fuckers, que fez naquele dia o lançamento do álbum Enxugando Gelo na cidade. E logo é avisado que Nápoli seria o próximo. "Pô, esse cara agora tá quase sócio comigo na revista", diz Lobão, tirando uma de B. "Eu tinha ido ali na revista só pra conferir se não tinha saído nada de errado na minha matéria, mas agora eu tô ali junto pras próximas, vendo quem vai sair também", conta o rapper.

A lista de músicos que devem aparecer no decorrer de 2004 não é pequena, e inclui gente de todos os cantos do país, como Rappin Hood (SP), Cidadão Instigado (CE), Cachorro Grande (RS) e a insólita dupla goiana Réu e Condenado, que transita pelo brega/punk/pop/escambau. "Colocar o Réu e Condenado no CD da revista é uma obsessão pra mim. Mas tem muita gente. Eu tô com mais de 10 mil discos em casa que recebi do pessoal que encontro", conta Lobão. Até nomes do mainstream já reivindicaram seu espaço no projeto. "Esses dias eu fui tocar no programa do Serginho (Groisman), encontrei todo mundo lá e o pessoal vinha pedindo pra aparecer na revista também. Até o Toni Garrido. Eu falei, 'porra, mas tu não tá na Sony?' Se fosse pra isso, a revista ia se chamar Mesma Coisa".

Chuck & Negão - Em meados dos anos 90, o "roqueiro maldito" da geração 80 esteve longe do mercadão, gravou discos pouco notados por público e crítica (Nostalgia da Modernidade, de 95, e Noite, de 98, que até rendeu "A Queda", música-tema de novela da Globo) e alternava sua música entre os sambões velha-guarda e o trip-hop à Portishead que apresentou em A Vida É Doce. Dali pra cá, xingou Caetano, respeitou Caetano, e continuava sendo fonte obrigatória para os repórteres em matérias sobre numeração de CDs, combate à pirataria, cena underground e quetais. Muito desse engajamento cultural se deve aos conselhos de Chuck D, do Public Enemy, notório ativista do circuito independente americana. "Eu mandei um e-mail pra ele em 1999, antes mesmo de lançar o A Vida É Doce, e me respondeu dizendo que eu devia organizar palestras, fazer uns projetos, tal. Agora, com a revista saindo eu mandei outro e-mail pro Chuck, ele se lembrou de mim e voltamos a nos falar". A participação do Public Enemy no Tim Festival, mês passado no Rio de Janeiro, facilitou as coisas.

A entrada de B Negão no projeto foi das mais casuais. Ele explica melhor: "Cara, o contato foi o mais inesperado possível. Um ano e meio, dois anos atrás, eu tava lá querendo fazer o disco, aí falei com a Regina (mulher do Lobão) e ela falou desse projeto da revista. Depois de um tempo é que acabamos acertando a parceria aí. O disco mesmo foi super rápido pra fazer. Numa semana eu tinha feito seis bases. O problema é que depois fiquei nove meses parado pra concluir ele". Ao lado da banda Seletores de Freqüência, Bernardo B Negão estraçalha no disquinho (leia a resenha aqui). E Lobão avisa que não haverá limitações no processo de divulgar e tentar constranger o esquemão: "Estamos conseguindo um espaço legal, vamos colocar o pessoal no Faustão, o B Negão gravou clipe pro Fantástico. Vai ser bem no meio do mercadão mesmo, furando o bolo", afirma, com a pior (ou a melhor?) das intenções.

Fabrício Rodrigues
Colaborou Rhodrigo Deda