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Pega ladrão: os policiais "slow motion" dos anos 70
Os bandidões da década de 70 corriam menos do que os de hoje. Só isso explica por que os filmes policiais daquela época eram tão lentos...

Bobagem. Infâmia. Mal de Bruce Willis. Acostumados ao ritmo frenético dos filmes de ação mais recentes, os espectadores de hoje poderiam ver com olhos caindo de sono alguns dos melhores filmes policiais da década de 70, a época em que o cinema - americano, principalmente - mais se dedicou a este gênero. Era o começo da "década dos diretores", que pareciam ter especial predileção por esse tema capaz de render roteiros intricados e mirabolantes, repleto de personagens sombrios e que expandiram a cinematografia de ação. A partir dessas possibilidades, se aventuraram jovens realizadores como Francis Ford Coppola, Sidney Lumet, Martin Scorsese, além de diretores mais experientes como Sam Peckinpah, John Frankenheimer e Roman Polanski.

Eles são alguns dos principais responsáveis por filmes que são referência para os Quentin Tarantino, Robert Rodriguez, David Fincher e Guy Ritchie que hoje trazem seus policiais às telas na tentativa de revigorar o gênero. Em alguns casos, como Jackie Brown em relação a filmes de "blaxploitation" como Shaft, a idéia é homenagear mesmo. Outros como Por Um Fio, de Joel Schumacher, tentam prender o espectador a partir de um único conflito, como em Um Dia de Cão. São algumas das marcas deixadas pelo legado dos diretores e seus filmes policiais de trinta e poucos anos atrás.

Agora imagine um sujeito médio, consumidor natural dos filmes de Jackie Chan/Chris Rock/Vin Diesel/Bruce Willis saindo do cinema para tentar ver, por exemplo, Serpico em casa. A possibilidade de dormir antes da metade ou sair xingando o personagem de Al Pacino é grande. E até se entende o porquê da irritação, pois o consumidor médio de filmes de ação em 2003 é bem diferente do que era em 1973, quando Serpico foi lançado. O próprio Martin Scorsese poderia correr o risco de amargar um fracasso se tentasse fazer um filme nos moldes de Caminhos Violentos, que lançou Robert De Niro e Harvey Keitel. Hoje a referência é outra. E um bom diretor sabe como lidar com a mudança dos tempos. Tanto é que Scorsese atualizou o tema 17 anos depois e fez Os Bons Companheiros.

A comparação está nas refilmagens. O Dia do Chacal, filme primoroso no detalhamento de personagens e na condução narrativa, virou um videoclipe violento de duas horas em O Chacal, em que a dupla Richard Gere e Bruce Willis (olha aí ele de novo...) explode tudo o que vê pela frente. O mesmo serve para Shaft, renovado na pele de Samuel L. Jackson. Tá certo, é isso que o pessoal quer ver nas salas de cinema com som digital hoje em dia: explosões a danar, perseguições, tiroteios que desafiam a lei da Física... Mas algumas das melhores cenas do gênero estão mesmo nos filmes lentões de antigamente.

Em termos de perseguição, ainda está para nascer o sujeito que vai bater as seqüências em que Steve McQueen, sem dublê, arranca feito doido com um Mustang pelas ladeiras de San Francisco em Bullitt (68) ou repetir a tensão de Gene Hackman atrás do volante perseguindo traficas por Nova York no primeiro Operação França (71). Tudo bem, eram cinco minutos de ação para quase duas horas de diálogos e alguns tiros esparsos, mas o ponto forte desses filmes era mesmo o roteiro. Que o digam Paul Schrader e David Mamet, que fizeram fortuna e até viraram diretores depois de trabalhar escrevendo roteiros do gênero.

Mesmo sem a aura dos romances noir, a narrativa era muito próxima ao dos livros de Raymond Chandler, Dashiell Hammett ou Conan Doyle. É assim em Klute, o Passado Condena (71) e mais explicitamente em Chinatown (74): o investigador se apresenta, mostra seu estilo, se envolve com uma loira fatal (Jane Fonda e Faye Dunaway, respectivamente), toma umas bordoadas, desvenda crimes complexos e... não, não vou contar como termina porque não é tão banal assim.

Do Scarface de Howard Hawks (32) para cá, volta e meia as facetas policiais aparecem nos cinemas novamente. Não tanto como as continuações de blockbusters, mas com alguma ou outra novidade que valha a pena. Depois dos "slow-motions" dos anos 70, aconteceram alguns bons revivals (Os Intocáveis e Los Angeles Cidade Proibida), novas linguagens (Cães de Aluguel, Parceiros do Crime, Traffic) e muita bomba também. Principalmente aquelas que se valem da instituição policial para destruir toda uma cidade e justificar a violência desmedida, os tiroteios em praça pública, os prédios explodindo... Caiam fora, republicanos!

Fabrício Rodrigues

"Slow-motions" recomendados:

Serpico - Chinatown - Bullitt - Os Implacáveis - O Dia do Chacal - Um Dia de Cão - Chinatown - O Poderoso Chefão I, II e III - Operação França I e II - Operação Yakuza - O Emissário de Macintosh - Klute, O Passado Condena - Caminhos Violentos - Um Lance no Escuro