Matérias
Tarantino fora
do cinema
Alguma coisa para
se ler enquanto Kill Bill não vem
O
esquema de distribuição de filmes no Brasil é coisa
de doido. Se X-Men 2 chegou às nossas salas um dia antes
de sua estréia nos próprios cinemas americanos (medo da
pirataria foi a desculpa da época), o mais que esperado novo
filme de Quentin Tarantino, Kill Bill, só aportará
por aqui quatro meses depois do lançamento lá na matriz
e em dezenas de outros países equipados com projetores e salas
escuras. Sim, se desde outubro americanos, ingleses, argentinos e etc.
já tiveram a oportunidade de conferir o fim de um bloqueio criativo
de seis anos, nós só vamos ter a chance de assistir oficialmente
ao quarto filme do diretor e roteirista mais comentado dos anos 90 em
fevereiro de 2004. Ou melhor, a primeira parte do quarto filme do diretor
e roteirista mais comentado dos anos 90, uma vez que o pessoal da Miramax
resolveu chupar a estratégia de marketing do finado Matrix
(que o Diabo o carregue) e também lançar um filme pelo
preço de dois.
Atraso de quatro meses, bloqueio criativo
de seis anos, marketing copiado de trilogia picareta... Tudo isso seria
mais que suficiente para abortar qualquer expectativa, caso não
estivéssemos falando do cara que há 10 anos criou o sensacional
Cães de Aluguel, talvez o único filme que supere
em termos de violência Sob o Domínio do Medo, do
sempre nocivo Sam Peckimpah. O mesmo sujeito que dois anos depois voltava
a surpreender com a estrutura complexa e os excelentes diálogos
de Pulp Fiction. Tá certo que o raio se recusou a cair
no mesmo lugar na terceira tentativa, e Jackie Brown foi bem
meia boca (e também o único que não partiu de um
roteiro original de Tarantino, mas sim de uma adaptação
feita pelo diretor de um romance de Elmore Leonard).
Para quem não está afim
de se aventurar a ver Kill Bill em uma cópia pirata com
a costumeira qualidade medonha, nem tem grana para se mandar pra um
país em que o filme esteja em cartaz, há uma chance de
conferir trechos da obra tarantinesca que nunca passaram no cinema.
A dica não é nova, mas continua valendo nesses tempos
de expectativa; faz um tempo saíram no Brasil versões
impressas dos roteiros do cara, quase todos com algum extra em relação
ao que passou nas salas. A editora desses livros é a Rocco, a
mesma responsável pelo lançamento da maior parte de bibliografia
do imortal Paulo Coelho. Apesar deles terem lançado a obra completa
do grande falastrão, vamos falar aqui só dos dois primeiros
filmes roteirizados e dirigidos por ele, Cães de Aluguel
e Pulp Fiction, já que Jackie Brown, além
de ser fraco não apresenta diferenças marcantes entre
o que tava escrito e o que foi filmado.
Cães
de Aluguel foi exibido pela primeira vez no Festival de Cannes
de 1992. Logo após, o próprio diretor veio apresentá-lo
ao Brasil, onde foi devidamente esnobado pela crítica local,
acusado de plagiar o Scorsese, essas coisas. Não demorou muito
para a maior parte da crítica perceber que havia mais naquela
história de assalto frustrado, policiais torturados e tiras infiltrados
que apenas cópias e referências a filmes antigos. Cães
de Aluguel abriu a picada para uma nova leva de diretores independentes,
não só nos EUA, dispensando efeitos especiais tolos, astros
adolescentes da moda e outras bobagens. No lugar disso tudo, ótimo
roteiro e grandes atuações, ou seja, cinema puro, simples
e direto. O roteiro deste que ainda é o melhor trabalho de Tarantino
traz alguns extras bacanas e até uma entrevista com o figura.
Resumindo, os trechos que não passaram no cinema são os
seguintes:
· Logo no início, na cena
que fez história com os cães de aluguel e seus ternos
bacanas andando em direção da câmera, estava previsto
um cartaz com o aviso: "Um desses caras é tira. No final
estarão todos mortos, menos um";
· Foi cortado um diálogo entre Harvey Keitel (Sr. White)
e o chefão do bando sobre mulheres e livros;
· Na melhor das cenas deletadas, é explicado por que White
tem tanto ódio de agentes infiltrados: uma história sanguinolenta
é narrada para o camarada que ficou com a missão de atuar
camuflado dentro do bando. Essa parte merece virar curta-metragem, HQ,
qualquer coisa do tipo;
· Joe (o chefão, interpretado por Lawrence Tierney) conta
uma piada sobre como um francês, um americano e um polonês
fazem para deixar suas mulheres loucas. No filme a cena foi substituída
por outra em que o personagem reclama dos outros sujeitos por só
ficarem contando piadas;
· Logo à frente, surge uma explicação do
porquê da polícia não ter esvaziado a joalheria
onde iria ocorrer o tal assalto, substituindo clientes e funcionários
por agentes disfarçados;
· No último trecho relevante, apagaram um diálogo
entre White e Eddie Legal (o Chris Penn) sobre as providências
a se tomar para ajudar o cara que foi baleado durante o assalto.
Pulp
Fiction, se não fosse pelo fato de ser um ótimo
filme, já mereceria todos os prêmios que ganhou pela façanha
de ter convencido uma divisão da Disney (a Miramax) a investir
em uma história sobre pessoas com overdose de heroína,
policiais sádicos e estupradores e assassinos religiosos. Bacana
(ou cool, se preferir) até o osso e, com sua montagem louca,
o filme não saiu da cabeça de quem o assistiu em 1994.
O livrinho da Rocco com o roteiro não é tão recheado
quanto o de Cães de Aluguel (sem entrevistas, só com um
texto introdutório contando a importância de Tarantino),
mas também revela seqüências que ficaram de fora do
filme original:
· Um bom diálogo cortado
estava previsto: era entre Vincent Vega (o papel da vida de John Travolta)
e seu trafica Lance (Eric Stoltz). Na mesma seqüência em
que Vincent compra a heroína que vai lhe trazer tanta dor de
cabeça, Lance desata a falar de seu ódio sobre pessoas
que dão informações erradas a motoristas perdidos;
· Na parte seguinte, quando Vincent vai bancar o acompanhante
da mulher do seu patrão, foi abduzido o trecho em que Mia (Uma
Thurman, a protagonista de Kill Bill , como se você não
soubesse) banca a videomaker. Ela grava as opiniões de Vincent
sobre filmes, seriados de TV e quadrinhos;
· Mais falas cortadas entre Vincent e Mia. Já na lanchonete
estilo anos 50, os dois trocam informações sobre amigos
em comum em Amsterdã e sobre os bares de haxixe de lá;
· Tá lembrado da cena em que Vincent acerta, acidentalmente,
um tiro em um carinha dentro de um carro guiado por Jules (Samuel L.
Jackson)? No cinema o sujeito morre na hora, no papel ele precisou levar
um segundo tiro pra acabar com seu sofrimento;
· O papel que o próprio Tarantino faz era para ser um
pouco maior do que vimos no cinema, com ele sendo mais rabugento;
· O Sr. Lobo (Keitel de novo) também teve falas cortadas,
principalmente na seqüência no ferro-velho para onde foi
levado aquele carro todo sujo de sangue e miolos.
Vale
uma lida, ou até uma relida se você comprou os livros na
época do lançamento, lá por 1997. Existem também
à disposição os roteiros escritos por Tarantino
e que foram dirigidos por outros caras e que de tão modificados
daria um segundo texto por aqui. Por enquanto, basta dizer que Oliver
Stone deixou Assassinos Por Natureza ainda mais insano e violento
que o original e que Tony Scott eliminou a estrutura circular (tipo
Pulp Fiction) de Amor à Queima-Roupa, além
de arranjar o final feliz por conta própria. Já no caso
de Kill Bill, o chefão da Miramax, Harvey Weistein, afirmou que
ninguém mete a mão nas mais de 200 páginas do roteiro,
daí a necessidade de dividir a produção em duas
partes. Mas se isso é verdade e se valeu a aposta, só
esperando até fevereiro.
Romeu Martins