Grandes
malacos da história
Galeria
dos grandes malacos
Figuras inesquecíveis
que ajudaram a dar uma entortada no mundo
BRANDO,
Marlon - Paradoxos marcam os grandes malacos. Veja o caso do senhor
Brando, ícone de uma era ainda dourada do cinema americano: se
hoje defender bandeiras étnicas e ambientais é um ato
"politicamente correto", no início dos anos 70 demonstrava
uma atitude de bravura contra o comodismo das classes dominantes. O
menosprezo com que tratou o Oscar recebido em 1972 pela interpretação
de Don Vito Corleone em O Poderoso Chefão foi uma de suas
mais célebres traquinagens. Na ocasião, ele não
só se recusou a receber o prêmio como enviou uma bela moça
em trajes indígenas para erguer a estatueta e protestar contra
os abusos do homem branco. O episódio foi relembrado por Neil
Young em 1979, na música "Pocahontas": "Marlon
Brando, Pocahontas and me...", cantava no refrão.
Outra contradição do velho
Brando está em sua silhueta. Tá certo que é difícil
manter a boa forma na terceira idade, mas para o galã que sabia
mesclar músculos com atuações impecáveis,
bater nos 50 com uma pança quase mórbida não deve
ter sido uma coisa das mais agradáveis. Aquele Brando de O
Selvagem, Sindicato de Ladrões e Um Bonde Chamado
Desejo foi se deformando entre camadas de gordura ao longo da decepcionante,
para ele, década de 60. Naquela época, Brando havia criado
a Pennebaker, produtora de filmes gerenciada pelo seu pai. E a família
já começou fazendo bobagem, durante as gravações
de A Face Oculta, em 1961. Com o orçamento estourando
em três vezes mais do que havia sido previsto, os Brando tiveram
que pedir arrego para a Paramount, que para fazer valer o investimento,
achou melhor cortar o final deprê da versão original.
Anos depois, estava mais para o folclore
(ao gravar piadas como Sayonara e por promover orgias quase diárias
durante as filmagens de Mutiny On The Bay) do que para as grandes
atuações do passado. Aos 42 anos e ainda milionário,
comprou um arquipélago no Pacífico Sul e se isolou. A
meditação no paraíso ajudou o mestre a voltar em
grande forma (não física, diga-se) em clássicos
como O Poderoso Chefão, Último Tango em Paris
e, mais pr
a
frente, em Apocalypse Now. Apareceu também em Superman
(78), numa ponta que lhe valeu um cachê de US$ 14 milhões
(o equivalente a quase metade do que custou a superprodução
Apocalypse Now).
Tragédias familiares marcaram sua
vida a partir dos anos 90, quando o filho Christian matou o namorado
da irmã Cheyenne. Ela acabou se suicidando cinco anos depois
e Christian foi condenado a dez anos de prisão. Marlon Brando
ainda fez participações esporádicas em filmes de
menor importância como A Ilha do Dr. Moreau, Don Juan
de Marco e A Cartada Final. Voltou a ser notícia quando
completou 80 anos, no último mês de abril, e quando foi
divulgado o montante de sua dívida pessoal: 20 milhõesde
dólares. O maior anti-herói da história do cinema
faleceu no dia 1º de junho de 2004 e teve suas cinzas lançadas
ao mar da Polinésia Francesa, bem ao modo de vida reservado que
vinha levando nos últimos anos. Resta agradecer a Brando pela
influência decisiva na carreira de outros grandes malacos e grandes
atores, como Paul Newman, Robert DeNiro, Harvey Keitel e Sean Penn.
Fabrício Rodrigues