Grandes
malacos da história
Galeria
dos grandes malacos
Figuras inesquecíveis
que ajudaram a dar uma entortada no mundo
NOVA,
Marcelo - "Sou baiano mas não sou Caetano". A frase
de identificação é direta, sem meias-palavras ou
ironias escondidas, como as canções da banda que o tornou
conhecido pelo país na década de 80, o Camisa de Vênus.
Ao lado do baixista Robério Santana, do baterista Aldo Machado
e da dupla de guitarristas Gustavo Mullem e Karl Hummel, Marcelo Nova
e o Camisa chegaram aos ouvidos punks em 1981 chutando a cidade natal
em "Controle Total" (notadamente inspirada em "Complete
Control", do Clash): "Ô, ô, aqui em Salvador,
a cidade do axé, a cidade do horror". Isso um bom tempo
antes do aparecimento de pragas de madrinha como Margareth Menezes,
Luiz Caldas, Daniela Mercury, Banda Eva, Carlinhos Marrom e seus agregados
do inferno.
Em tempos de Lulu Santos, Paralamas do
Sucesso e Barão Vermelho tomando conta de rádios e Chacrinhas,
muito mais divertido era ouvir os versos anárquicos de "O
Adventista" ("Eu acredito em quem anda com fé, eu acredito
em Xuxa e Pelé") ou da eterna "Sílvia"
("Todo homem que sabe o que quer pega o pau pra bater na mulher"),
que o próprio autor fez questão de destratar anos depois:
"Essa padece do mal de ser música 'engraçada'. Depois
da décima audição, o que parecia um escracho hilário
transforma-se num desconforto entediante".
A
única coisa que realmente ligava Marcelo à cultura baiana
era o fascínio pelo conterrâneo Raul Seixas, outro cidadão
de grande estima ao rock brasileiro e à malaquice em geral. Após
o (primeiro) fim do Camisa, em 1987, Marcelo transformou o ídolo
em parceiro, resgatando-o para uma turnê pelo país e para
as sessões de gravação de A Panela do Diabo,
que acabou se tornando o testamento de Raulzito, morto três dias
depois do lançamento do disco.
Entre álbuns acústicos não-picaretagem
(é o caso de Blackout, de 1991), a volta do Camisa em 1995 com
uma formação mais roqueira do que punk, e material inédito
composto nos últimos anos, a carreira sempre irriquieta de Marcelo
Nova ganhou um tratamento especial em 2001, com o lançamento
do triplo Tijolo na Vidraça, uma coleção
de 49 canções que explicam bem a trajetória de
um grande malaco a serviço do mal, da sacanagem e de um rock
brasileiro, enfim, digno.
Fabrício Rodrigues