Grandes malacos da história

Galeria dos grandes malacos
Figuras inesquecíveis que ajudaram a dar uma entortada no mundo

 

TARANTINO, Quentin - Como não ficava nada bem pro currículo confessar que sua única ligação com a cinedramaturgia era um emprego de balconista na locadora Video Archives, de Los Angeles, o Quentin Tarantino de início de carreira usou um expediente dos mais malacos: mentiu descaradamente. O cara inventou na maior que participou como coadjuvante da versão de Rei Lear dirigida por Jean-Luc Godard. Tremendo migué engolido por todo o mundo - teve até revista brasileira especializada caindo no golpe, e consta que muita enciclopédia cinematográfica refez os créditos do filme para incluir o nome do cara. Felizmente, nem a lorota conseguiu fazer o sujeito virar ator de verdade, o que o obrigou a passar a escrever seus próprios filmes. Foi aí que começou a história de verdade, o que acabou resultando na mais contudente reviravolta do cinema americano dos anos 90, além de abrir as portas para uma saudável renovação na casta de diretores.

Sem muito nome na praça, ele não conseguiu bancar uma estréia como diretor logo de cara, e foi obrigado a passar dois roteiros adiante. Amor à Queima-Roupa caiu nas mãos de Tony Scott, e Assassinos Por Natureza sobrou para Oliver Stone. Detalhe, o irmão mais novo do Ridley Scott transformou a estrutura circular de Amor à Queima-Roupa (antecipando o que seria Pulp Fiction em 1994) em uma historinha padrão. Puto da cara, o malaco pegou a merreca que tinha ganho até então e partiu para a produção do filme que muitos consideram o melhor da década passada: Cães de Aluguel, de 1992. Roteirizando, dirigindo e fazendo uma ponta, Tarantino criou uma espécie de Nevermind do cinema, ou seja, não redescobriu a roda, mas lembrou muita gente pra que diabos ela serve. Daí veio a onipresença. O homem se meteu em tudo, produziu filmes de amigos (Parceiros do Crime), dirigiu seriado de TV (Plantão Médico), consertou roteiro alheio (Maré Vermelha), escreveu para outros filmarem (Um Drink no Inferno), etc, etc. Tudo isso até seu último filme, o fraco Jackie Brown, de 1997. De lá pra cá, só silêncio... Escreve aí, se inventarem que ele se matou, vai ter muita gente, de revistas a enciclopédias, acreditando.

(N.E.: Texto escrito em 2001. Agora até o Seu Manoel do Mercado sabe que o cara acaba de fazer os dois volumes de Kill Bill)

Romeu Martins

 

Ilustração: Ivan Jerônimo