Grandes malacos da história

Galeria dos grandes malacos
Figuras inesquecíveis que ajudaram a dar uma entortada no mundo

 

MAIA, Tim - O currículo e o legado de vida e obra deixado por Sebastião Rodrigues Maia nos deixava na obrigação de listar o nome deste cantor/compositor/intérprete nesta galeria logo nas primeiras edições, tal a importância de um sujeito que soube como poucos viver (e morrer) como um grande malaco - assim como os mestres João Antônio, Robert Crumb, Iggy Pop e Hunter Thompson, incluídos desde cedo nesta lista. Feito o mea-culpa, vamos lembrar alguns dos feitos deste carioca nascido em 28 de setembro de 1942 como o penúltimo filho de uma família de 19 irmãos. Precoce, já compunha aos oito anos e aos 14 já tocava bateria na banda Os Tijucanos do Ritmo, que durou menos de um ano. Passou a estudar violão e, em 1957, já participava d'Os Sputniks, conjunto pelo qual passaram o inseparáveis camaradas Roberto e Erasmo Carlos.

Depois da morte do pai, no final dos anos 50, foi para os Estados Unidos, onde começou a cantar num grupo chamado The Ideals e a colocar a malaquice em ação. Pena que acabou levando uma chinfra dos meganha e foi preso por porte de maconha em 1963. A prensa lhe custou seis meses de cadeia e o vôo de volta ao Brasil. A partir de então se passaram mais alguns anos de dureza até o lançamento do primeiro disco, homônimo, em 1970, um dos marcos da black music no Brasil. Não à toa - e graças a canções que até hoje são favoritas de rádios a botequins como "Azul da cor do mar" e "Primavera", de Cassiano - o disco foi o mais tocado no Rio de Janeiro por meses a fio. Com a carreira sendo sedimentada disco a disco, começou a se criar também a lenda de artista irascível que sempre o acompanhou, com os eternos atrasos e migués que dava nos produtores de shows, seguindo a lógica malaca de primeiro a diversão e o resto que se foda.

Até que um dia... lhe caiu em mãos o livro Universo em Desencanto, uma cartilha (dizer o quê, filosofia? Seita? Escola de pensamento?) que dissemina a Cultura Racional e a idéia da "imunização" perante os sentimentos animais (logo, irracionais), que serviria para iluminar o caminho humano (blá blá blá...) e que Tim começou a usar para tentar se redimir do passado desregrado. O lado bom: os míticos dois volumes de Tim Maia Racional, lançados de forma independente (pelo selo Seroma, que depois veio a se chamar Vitória Régia) entre 1974 e 1975, cuja raridade e qualidade os tornaram não só objetos de culto como também alguns dos melhores discos de soul/funk já lançados no Brasil. O lado ruim: a pregação das letras ("leia o livro, o único livro, o livro de Deus..."), que não só tornam o trabalho "conceitual", mas praticamente xiita.

Mas esse lado pastoral não foi muito longe. Ao invés de se tornar um Cat Stevens ou Al Green (ou pior, Nelson Ned) e enveredar a carreira (musical) pro lado religioso, Tim voltou à carga e ao lado vagabundo da vida no hedonista Tim Maia Disco Club (78), legítima cria da era Dancin' Days, que lançou o hit "Sossego". Passou a década seguinte "colecionando sucessos", como "Descobridor dos Sete Mares" e "Do Leme ao Pontal" e fez algumas bobagens que sequer serviram para macular o conjunto de sua obra. Apesar de toda a lenda criada pelos seus intermináveis atrasos em shows, a última apresentação completa de Tim Maia, num festival de verão em Florianópolis em fevereiro de 1998, transcorreu sem maiores contratempos. Infelizmente, não foi o que aconteceu alguns dias depois, durante um show em Niterói, quando passou mal logo na primeira música. Saiu dali para o hospital, onde veio a falecer no dia 15 de março devido a uma infecção generalizada. Os versos de "Bom Senso", da fase Racional, bem que poderiam servir como epitáfio ("já senti saudade/já fiz muita coisa errada/já pedi ajuda/já dormi na rua..."), mas Tim preferiu manter a coerência e seguir se divertindo.

Fabrício Rodrigues

 

Ilustração: Ivan Jerônimo