Grandes malacos da história

Galeria dos grandes malacos
Figuras inesquecíveis que ajudaram a dar uma entortada no mundo

 

BARBOSA, Adoniran - Se os malandros dos morros cariocas de hoje têm Bezerra da Silva como legítimo porta-voz, os caipiras das malocas paulistanas dos anos 40 e 50 contavam com o saudoso João Rubinato, ou se preferir, Adoniran Barbosa. Compositor de aproximadamente 120 músicas, além de várias esquetes do programa humorístico de rádio "História das Malocas", esse filho de imigrante italiano que sequer completou o curso primário ainda tem muito o que ensinar aos malvadões do, com perdão da palavra, rock nacional. Aliás ele tem muito a ensinar a muito mais gente, pois qual lingüista que se preze não negociaria a alma pra ter sido o primeiro a registrar preciosidades ítalo-caipiras-paulistanas como a expressão "talbua de tiro ao álvaro"?

Ele começou aos 10 anos trabalhando com o pai em ferrovias no interior de São Paulo, passou a torneiro mecânico, foi garçom e até de entregador de marmitas labutou. Dessas andanças, das leituras dos jornais da época e do bate-papo com a malocada que encontrava nos botecos, Adoniran tirou inspiração para as enormes letras que criava (boa parte delas registrada pelos Demônios da Garoa, o conjunto que virou verbete do Guinness pela sua longevidade). Com isso, além de sambas da mais alta qualidade, ele ajudou a retratar as transformações de uma cidadezinha periférica que estava se tornando a maior metrópole da América Latina. E o que é melhor: sempre do ponto de vista da parte estrepada da sociedade.

O exemplo maior é a canção mais conhecida de seu repertório, a "Saudosa Maloca" (construimo nossa maloca/mais um dia/ - Nois nem pode se alembrá/Veio os homens c'as ferramentas/e o dono mandou derrubá/Peguemos todas nossas coisas/e fumo pro meio da rua) sobre o problema da habitação que começava a ficar crônico. Mas ele registrou também o "caos" do trânsito em "Iracema", sensibilizado por uma nota de jornal sobre a mulher que "atravessou a São João/veio um carro, te pega, te pincha no chão". E ainda tem gente que prefere musiquinha contando que acontece alguma coisa no coração do autor quando ele cruza a Ipiranga com essa mesma São João. Tenha dó.

Romeu Martins