Grandes
malacos da história
Galeria
dos grandes malacos
Figuras inesquecíveis
que ajudaram a dar uma entortada no mundo
ROTH,
Samuel - Em epidemiologia existe o conceito
de paciente zero, a primeira pessoa ou animal a se infectar com uma
doença contagiosa e que a partir dele se alastra por toda uma
comunidade. Podemos dizer que Samuel Roth, um austríaco que emigrou
com a família para os EUA em 1904, é o paciente zero das
conquistas anti-censura da América. Sem sua luta obsessiva para
a liberação de material considerado obsceno n aprimeira
metade do século XX, a liberação sexual e a contracultura
que estenderam seus tentáculos a partir dos anos 60 teriam, no
mínimo, sido retardados por vários e vários anos
(com todo tipo de prejuízo para sabe-se lá quantos artistas
malacos). O jornalista Gay Talese, em seu painel sobre a revolução
sexual americana, A Mulher do Próximo, dedicou um capítulo
à história do imigrante austríaco onde afirmou:
"qualquer um que procurasse restringir o que se podia ler ou escrever
estava em guerra com Roth; por isso ele se resignou a uma vida inteira
de ataques e represálias".
Na sociedade americana marcadamente puritana das primeiras décadas
do século passado, eram muitos os que estavam em guerra com Roth
e foram muitos os motivos para ataques e represálias. Quase tudo
o que fosse um pouco fora dos padrões era carimbado de obsceno
e automaticamente censurado, até obras como Ulisses, do
irlandês James Joyce, que foi editado de forma pioneira nos EUA
por Roth. Isso sem contar uma infinidade de outros livros, como o Kama
Sutra, quase sempre pirateados pra dentro dos Estados Unidos por
nosso obcecado paciente Zero. Roth era descendente de judeus ortodoxos,
que o expulsaram de casa aos 15 anos e dizia que sua luta pela liberdade
literária foi inspirada quando um rabino o proibiu de ler o Novo
Testamento, na mesma viagem Áustria-EUA, aos 9 anos. Ateu e anarquista
por convicção, enfrentou diversas punições
por seu trabalho como editor e escritor clandestino. Suas condenações
eram em ordem crescente, primeiro 60 dias, depois três meses,
em seguida três anos... Na última delas, em 7 de fevereiro
de 1956, aos 62 anos de idade, a pena foi de meia década.
As
apelações que se seguiram a essa sentença possibilitaram
uma conquista primordial: os conceitos de obscenidade foram redefinidos
em julgamento de última instância, em termos muito mais
liberais que existiam até aquela data (a legislação
americana sobre o tema ainda era influenciada por códigos ingleses
criados em 1868). Como o sistema jurídico dos EUA é baseado
em jurisprudências, aquela reformulação serviu para
abrir caminho a toda uma turba de obras, da revista de peladas artísticas
Playboy até os quadrinhos underground da Zap Comix. Ironicamente,
o avanço pouco adiantou a um ocupante da penitenciária
federal de Lewisburg, como constatou Talese: "E enquanto cumpria
ali sua sentença, que se prolongou pela década de 1960,
Roth podia receber pelos correios, em sua cela, quase todos os livros
que haviam sido responsáveis por sua condenação
e prisão". Esse mártir da liberdade de expressão
morreu em 1974.
Romeu Martins