Grandes
malacos da história
Galeria
dos Grandes Malacos
Figuras inesquecíveis
que ajudaram a dar uma entortada no mundo
ANTÔNIO,
JOÃO - Respeito, meus amigos, pois ele continua sendo o melhor.
Escritor e jornalista, orgulhosamente malaco até a raiz do último
fio de cabelo. E brilhante. Escreveu reportagens e livros indispensáveis,
sempre mergulhado no submundo dos malditos. Destacamos aqui um livro
que reuniu os dois lados, o de jornalista e do ficcionista, Malhação
do Judas Carioca, por três motivos: 1.É uma revolução,
o que de melhor foi feito no Brasil levando o nome de reportagem; 2.
Sinuca, um texto dissecando o mundo da malandragem em um dos
seus hábitats favoritos; 3. Corpo-a-corpo com a notícia,
carta de princípios que propõe um novo engajamento da
literatura, para a qual respeitosamente abrimos aspas:
"Precisamos de uma literatura? Precisamos.
Mas de uma arte literária, como de um teatro, de um cinema, de
um jornalismo que firam, penetrem, compreendam, exponham, descarnem
as nossas áreas de vida. Não será o futebol o nosso
maior traço de cultura, o mais nacional e o mais internacional;
tão importante quanto o couro brasileiro ou o café of
Brazil? A umbanda não será a nossa mais eloqüente
religião, tropical e desconcertante, luso-afro-tupinquim por
excelência, maldita e ingênua, malemolente e terrível,
que gosta de sangue e gosta de flores? A desconhecida vida de nossas
favelas, local onde mais se canta e onde mais existe um espírito
comunitário; a inédita vida industrial; os nossos subúrbios
escondendo quase sempre 75% de nossas populações urbanas;
os nossos interiores - os nossos intestinos, enfim, onde estão
em nossa literatura? Em seus lugares não estarão colocados
os realismo fantásticos, as semiologias translúcidas,
os hipermodelismos pansexuais, os supra-realismos hermenêuticos,
os lambuzados estruturalismos processuais? Enquanto isso, os aspectos
da vida brasileira estão aí, inéditos, não
tocados, deixados pra lá, adiados eternamente e aguardando os
comunicadores artistas e intérpretes".
Pungente, não? Este texto é
de novembro de 1975. Mas como estamos no Brasil, provavelmente o último
escrito dele é de outubro de 1996, uma carta para o jornalista
Mylton Severiano, que estava em viagem para Santa Catarina. Ele pedia
que o amigo comprasse um pijama Hering, mais barato, mais de acordo
com seus rendimentos. João Antônio foi encontrado dias
depois, já em avançado estado de putrefação,
abandonado em seu apartamento no Rio de Janeiro. Respeito que ele merece.
Romeu Martins