Coluna

Crítica queima a língua com o novo isqueiro do U2


How to Dismantle an Atomic Bomb é um manual de como desagradar a opinião remunerada. É disco de banda velha, não sugere nada diferente, mais do mesmo. Reúne tudo o que o U2 era capaz de fazer até os anos 90. Ou, por outra, tudo o que ficou marcado como característico do grupo irlandês – o que, a grosso modo, pode ser resumido como aquela inegável vocação para a arena. Estranhamente, porém, o novo álbum do quarteto está sendo louvado como o melhor desde (coloque aqui o seu preferido da década de 80). As mesmas músicas que acabarão com os isqueiros nos shows também deixaram a imprensa emocionada. Reside aí a única, mas enorme façanha do décimo-primeiro disco do U2: denunciar que crítico é gente como a gente.

Há uma sentido oculto nessa revelação. Ao jogar no seguro em ...Atomic Bomb – e seu adulado por isso –, o quarteto esfrega na cara do mundo a certeza de que sempre esteve certo. As poucas controvérsias sobre a obra do U2 pairam somente quando a banda começou a desviar do seu padrão. Até 1991, o U2 era tudo, menos “cool”. Nada podia ser mais antiquado, piegas e careta do que o fervor de Bono, as guitarras de Edge, os temas humanistas. Achtung, Baby derrubou o estigma à custa da decepção dos fãs. Zooropa (1993) esbaldou-se no deslumbre, obtendo tantas estrelinhas quanto acusações de “traição”. O temor de que o U2 estivesse em um caminho sem volta cresceu com Pop (1997), reduzido a um “puro êxtase” na discografia do grupo com a chegada do álbum seguinte.

Apesar do sucesso de “Elevation” nas pistas, seria a melosa “Beautiful Day” que faria a fama de All That You Can’t Leave Behind (2000) e indicaria o rumo do próximo trabalho. A partir daí, a banda seria festejada pela manutenção (o que antes irritava), e não pela tentativa de inovação (o que depois irritou). Se o grupo corre algum risco no novo disco, é o de acreditar que, às vésperas de 2005, o mundo ainda esteja interessado nos valores e na musicalidade que o consagraram. Aposta ganha, já que a crença geral é a de que Bono fica muito mais verossímil no papel de messias burguês, cheio de culpa católica, do que como um hedonista que não curte drogas. Não se trata da apregoada “volta às raízes”, e sim de dar exatamente o que público e crítica querem.

Aceitar isso funcionou como uma bênção em ...Atomic Bomb. Foram convocados os velhos parceiros Steve Lillywhite, Daniel Lanois e Brian Eno, que assinam a produção dos primeiros álbuns do grupo, forjando sua sonoridade. Com isso, o disco não emana outra sensação que não a conhecida e identificada como “U2 clássico”. A pegada de “Vertigo” mira no fiel que tremeu ao escutar “I Will Follow” (do estréia, Boy, de 1980) pela primeira vez, enquanto “Sometimes You Can’t Make it on Your Own” é balada da cepa de “With Or Without You” (de The Joshua Tree, de 1987). O clima de “City of Blinding Lights” remete à atmosfera grandiloqüente de Unforgettable Fire (1984), lembrando aos filisteus o quão sublime pode soar a guitarra de Edge.

No tempo em que a mídia acompanha com avidez cada passo, cada gesto, cada declaração de Bono, a força do U2 vem de seu discreto guitarrista. São suas cordas, e não a garganta do vocalista, que revestem o disco de magia, como em “Love and Peace or Else” ou em “Crumbs from your Table”. Costumava ser assim antes do cinismo infestar a feição do grupo. A retomada de seus harmônicos, texturas e timbres no som da banda aponta para um passado idealizado, no qual juventude confundia-se com imortalidade e onipotência e o sonho era maior do que o pragmatismo. Por uma série de razões – a maioria, extramusicais –, talvez seja disso que o planeta precise. É o espírito (certo) da época (errada).

Emerson Gasperin
Coluna publicada no site www.fiambresgasperin.blogspot.com