Coluna

Pessoas do século passado fazem o livro do futuro


Tinha de ser bandas com “D”. Doors. Dire Straits. Dead Kennedys. Devo. Deee-Lite. Def Leppard. Dominó. O último a falar levava tapa. O roqueiro gritou Depeche Mode. Perdeu. A brincadeira chamava-se “adedonha”. Os participantes sorteavam uma letra. O desafio era dizer algo começado por ela. Música foi uma escolha natural. Todos gostavam. Alguns até tocavam. A maioria só dançava. A punição doía. O atrasado estendia a mão. A palma ficava para baixo. Cada competidor dava um tapa. O dedo médio e o indicador esticados pegavam bem nas veias. O roqueiro lamentava. Um vermelhão ia manchando a cobra tatuada que ia do seu pulso até o mindinho. Ele usava um penteado mullet. Baixista. Fã dos caras. Não se conformava em ter esquecido do Deep Purple.

É facíl descrever o banal. Nem precisa de vírgula. Uma ação por período. O estilo torna-se seco. Direto. Com ritmo. Só se for um hardcore dos mais fuleiros. O que tem de neguinho por aí tirando onda de literato não está no gibi. Escritor maldito, então, é uma praga. Por isso, a chegada de Dodô Azevedo e seu Pessoas do Século Passado deve ser saudada com entusiasmo. O livro é o desdobramento mais recente de uma idéia que surgiu com uma festa no Rio e virou disco, site e espetáculo musical. Reúne uma série de relatos de moradores fictícios de uma mesmo prédio no bairro Santa Teresa, todos respondendo por e-mail à pergunta “o que mais marcou a sua vida no século XX?”.

Mesmo em versão impressa, o projeto extrapola o papel. Cada um dos 38 personagem indica um link que aprofunda o assunto abordado pela sua mensagem. Todos têm endereço eletrônico para receber as impressões dos leitores a respeito da questão (teste aí e depois me conte). Isso permite que a obra continue para sempre a ser escrita na internet, por qualquer um, no mais puro formato pós-moderno que dá espaço até para quem não tem nada a oferecer. De volta ao suporte livro, um capítulo lista palavras-chave (senhas) para se entrar no espírito das histórias. Em ordem randômica, claro, são dispostos verbetes como Prozac, Paulo Zulu, grunge, bestialismo, Hitler, copy/paste, ou barroco, com algumas definições marotas (“Drogas - Tem gente que precisa. Tem gente que não”).

Mas essas bossas todas não adiantariam se o principal - a leitura - não funcionasse. Pois funciona até demais, ressaltada pela diagramação pop sem afetação. A entrada é aleatória, influência confessa de O Jogo da Amarelinha, do argentino Júlio Cortázar. Nesse caso, o pós-modernismo vale a pena: a página que você abrir ou a ordem que seguir não influem no entendimento, não no sentido de prejudicá-lo. Essa aparente bagunça até reforça o conceito de que nunca foi tão difícil conectar-se ao outro exatamente porque, com o desenvolvimento das tecnologias de comunicação, nunca foi tão fácil. “Somos vizinhos que não se conhecem”, diz a introdução. O autor faz a gentileza de apresentá-los uns aos outros - e ao público, provocando uma série de reflexões e desatinos.

Assim, há Mariana Avancini, 42 anos, psiquiatra, explicando que “homem que sente nojo do caldinho da mulher não cresceu”; Dênis Argollo, 26, jornalista e disc-jóquei, que conta suas aventuras em um baile funk (“Ficamos burros por uma noite - aquela burrice que invejamos quando vemos o povo feliz”); ou Catarina Rossi, 52, analista de recursos humanos, para quem “dez minutos de paraíso já seriam um inferno”. Enfim, está para aparecer outro prédio com moradores tão especiais. Sorte da coleção Safra XXI, da editora Rocco, que estréia com um autor como Dodô Azevedo. Nos anos 90, ele tocava bateria na banda Pelvs, muitas vezes incompreendida pela crítica. Os comentários mais maldosos sugeriam que os integrantes do grupo deviam procurar outra coisa para fazer. Não estavam de todo errados.

Emerson Gasperin
Coluna publicada no site www.fiambresgasperin.blogspot.com