Coluna

Abram alas porque o circo místico chegou


A primavera nem sempre começa quando o calendário determina. Todos lembram que, no ano passado, sua chegada ocorreu quatro dias antes do 21 de setembro convencional, com a celebração da Paz Internacional na Onu. Claro que não pela paz, pela Onu nem pela homenagem aos 22 funcionários da entidade mortos em um atentado (o brasileiro Vieira de Mello entre eles) no mês anterior em Bagdá. O estopim da nova estação foi o secretário-geral Kofi Annan mandando o protocolo às favas para se atracar com o primeiro atabaque que Deus deu, que Deus dá e cair no suingue de “Toda Menina Baiana”, executada por Gilberto Gil. Naquele momento, enternecidos pelo primeiro carnaval (primeiro pelourinho também), cinturas duras de várias nacionalidades mostraram santos e encantos, jeitos e defeitos.

Pois em 2004, impulsionado pela famosa maldição dos anos pares - o horário político -, o inverno estendeu-se além da conta. O final da campanha, no dia 30, parecia que iria sepultar de vez o frio e a escuridão. Mas o calor e a luz fizeram-se presentes apenas a partir de 3 de outubro. Não, não teve nada a ver com as eleições: é primavera porque, desde domingo, o vizinho amanhece escutando reggae. É isso aí mesmo, apesar do insólito da situação. São necessários anos de preparo em diversas técnicas de purificação espiritual para perceber a mudança manifestando-se por meio dos detalhes mais prosaicos. Onde o cartesiano vê método, o iniciado sente a poesia. Logo, se uma borboleta batendo asas na Tailândia provoca um maremoto na Bolívia, um estranho ouvindo Bob Marley pode demarcar o início de tempos mais finos, elegantes e sinceros. Principalmente porque a Bolívia não tem mar.

Melhor explicar qual é a do vizinho: nunca houve fã mais fiel do que ele. Deve ter uns 25 anos, profissional em ser largado. Mora com os pais em uma casa de madeira verde-água com as aberturas em roxo-terra. Da janela avista-se paredes cheias de pôsteres do rei em volta do bandeirão verde, amarelo e vermelho. Não importa a hora, o som está sempre ligado e sempre rolando Bob Marley. Seja no quarto, seja na garagem da casa abandonada ao lado, onde seu Uno verde metálico fica estacionado na garagem. O transeunte passa, vira-se para a direção do reggae e balança a cabeça, pensando como os veículos da Fiat fervem com facilidade. O vizinho, na dele, não esquenta com isso.

Até que um dia, lá por abril, os amigos que lotavam a garagem não apareceram mais. O Uno, desativado, pegava poeira em silêncio. O quarto não renovava mais o ar. O vizinho, outrora tão movimentado, permanecia semanas sem ser visto por ninguém. O reggae acabou. As manhãs tornaram-se inúteis, as tardes apodreceram e a noite perdeu o luar. Aventou-se de o aparelho de som estar estragado, hipótese rapidamente descartada pelo fato de haver ainda o do carro, e só muita infelicidade faria com que os dois deixassem de funcionar ao mesmo tempo. No desespero, sugeriu-se a heresia: ele enjoara de Bob Marley. O palpite durou até que alguém esqueceu a janela aberta e os pôsteres continuavam lá. Parecia cocaína, mas era só tristeza.

Pois no último domingo o vizinho acordou com “Waiting In Vain” a mil. A música subiu até o sétimo andar e motivou a encomenda de um som fresquinho. Um usuário esperto ofereceu o disco Brazuca Matraca, do brasileiro Wagner Pá. Hã? O cara é carioca, vive há uns 20 anos em Barcelona e tabela com Manu Chao e Sergent Garcia. Brazuca Matraca é também o nome de sua banda, que já gravou quatro CDs. Talvez nem seja desse ano. Naquela hora, porém, era a coisa mais inovadora do mundo, mostrando aos deuses que a porta do novo século já está entreaberta. Satisfeito com a relação de causa e efeito proporcionada pelo seu ídolo, o vizinho sorria no portão de casa. Para todo mundo que passava, ele gritava que “a lei é seca, mas não é apagada”.

Emerson Gasperin
Coluna publicada no site www.fiambresgasperin.blogspot.com