Coluna
A liberdade
de não ser público nem privado
Aí o
vocalista Dinho Ouro-Preto pára de cantar e diz que seu grupo
vai tocar uma música da “melhor banda de rock que esse
País já teve”. O público paulistano, muito
mais numeroso do que há duas semanas, quando a Nação
Zumbi ocupou a tarde no Sesc Interlagos, agita-se ante o anúncio.
O colunista idem, embora ainda seja acometido por flashbacks dos caranguejos
ofertando “Prato de Flores” aos comensais no domingo retrasado.
Larga a louça que está lavando e corre para a frente da
televisão, na expectativa de descobrir qual som dos Mutantes
será assassinado pelo Capital Inicial. As cracas de polenta na
panela ficam para depois, bem como noções rudimentares
da história do pop silvícola.
Parafraseando o maluco que leu George
Orwell, aqui o bagulho é sério, o processo é lento,
a parada é louca: uma visão de mundo capaz de projetar
oportunidades inéditas, considerada morta e enterrada com o comunismo,
está entre nós com outro nome e outra abordagem - porém
com a mesma finalidade. O sistema econômico, social e político
vislumbrado por Marx tomou um banho de loja e, de cara, ganhou um nome
mais condizente com as bossas atuais. Sai o termo derivado de “comum”
(que remete a reles, ordinário, vulgar, todos no sentido pejorativo)
e entra “liberdade” e suas variações. Só
com essa alteração, a causa ganhou adesão espontânea.
Ninguém é contra a liberdade, pelo menos não na
presença de terceiros.
A cirurgia não foi apenas plástica.
Mudou-se o conceito, acertando em uma parte cara ao capitalismo. O Estado
continua sem ser dono, mas a iniciativa privada também não.
Classificados como “livres” (ou pelo sinônimo globalizado,
“aberto”), softwares tornam-se propriedade coletiva, disponíveis
para estudo, execução, modificação e aperfeiçoamento.
O papo vagou entre a baderna e a utopia até que a IBM decidiu
trabalhar com o Linux (o mais conhecido dos sistemas operacionais livres),
abrindo os olhos do setor para o custo (pequeno) e a flexibilidade (grande)
da alternativa. A reboque desse movimento, viceja uma cadeia produtiva
formada por prestadores de serviços, fornecedores, distribuidores
e desenvolvedores.
Nessa área, Lula não precisa
pedir desculpas. Além de o Brasil figurar entre os primeiros
países a admitir as licenças elaboradas pela Creative
Commons - uma entidade americana que elabora instrumentos jurídicos
para distribuição, cópia e utilização
da propriedade intelectual -, o governo vem incentivando o conhecimento
compartilhado na prática. Mais de 60 órgãos estatais
já trocaram o Windows pelo Linux. O igualmente livre WebApache,
gestor de 70% das páginas de internet do mundo, substituiu outros
servidores em 750 endereços eletrônicos federais. Está
sendo preparado, ainda, o Guia Livre, para orientar as administrações
governamentais a migrarem para sistemas abertos e também servir
de referência para empresas que queiram seguir a mesma política.
Os fabricantes de softwares comerciais
encaram tal política com a apreensão de quem está
prestes a perder o bonde. Contudo, é cedo para dizer se o interesse
do planalto na abertura dos códigos-fonte pode conspurcar o meio
“livre”, que sempre prosperou na base da auto-regulamentação.
Vale tudo, desde que não desloque para o Estado a liberdade que,
vencido o mercado, hoje é das pessoas. Ah, o Capital Inicial:
para Dinho Ouro-Preto, a “melhor banda de rock que esse País
já teve” é a Legião Urbana. A platéia
saiu de órbita logo com os primeiros acordes. Talvez reagirá
com saudade parecida ao lembrar da época em que a Microsoft cobrava
pelos seus produtos. A música era “Tempo Perdido”.
Emerson Gasperin
Coluna publicada no site
www.fiambresgasperin.blogspot.com