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Dusko Popov,
o espelho de 007
O astuto e bon-vivant espião iugoslavo
que teria inspirado Ian Fleming
Quando
Ian Fleming criou seu célebre personagem James Bond, o espião
inglês a serviço de sua Majestade e com licença
para matar, no romance de estréia Cassino Royale, o iugoslavo
Dusko Popov pôde sentir sua própria história espelhando
a ficção. Popov e Fleming chegaram a trabalhar juntos
em Lisboa, e esta aproximação acabou aumentando a lenda
de que 007 seria o iugoslavo. Ou melhor, que o iugoslavo era 007. Agente
duplo durante a Segunda Guerra Mundial, Popov, que trabalhava para o
Serviço Secreto Britânico, se enfileirou entre os espiões
nazistas da agência alemã Abwehr - que o conheciam como
Ivan - para tentar descobrir e revelar aos Aliados os planos do Reich.
Pelo menos uma aventura de Bond teve contornos
semelhantes à biografia de Popov. É 007 Contra o Foguete
da Morte (79), que se passa no Brasil, e que teria sido inspirada na
vinda de Dusko ao país no início da década de 40.
Mais precisamente no final de 1941, quando a esquadra japonesa atacou
Pearl Harbor, dando início à entrada dos Estados Unidos
na 2ª Guerra. Popov não só sabia que o ataque estava
planejado como levou o segredo debaixo do braço até o
diretor do FBI em Nova York, J. Edgar Hoover, que não só
ignorou a "descoberta" do espião como o proibiu de
ir até o Havaí (onde fica o porto de Pearl) para cumprir
mais uma missão dupla contra os alemães. Foi aí,
logo após o bombardeio japonês, que Popov veio "tirar
férias" no Brasil e que os EUA ganharam o motivo que o presidente
Franklin Roosevelt tanto queria para entrar na guerra. No livro Crime
e Poder, do jornalista e escritor Flávio Moreira da Costa estão
relatadas algumas das peripécias tropicais do espião iugoslavo.
Mas não foi só a astúcia
investigativa de Popov que ajudou a moldar a personalidade de James
Bond. Mulherengo em uma época que ser chamado de playboy era
privilégio, o iugoslavo era chamado pelos colegas ingleses de
"triciclo", pela predileção em levar duas mulheres
pra cama. Quando esteve em Nova York a serviço do FBI, ficou
um mês ter muito com o que se preocupar, a não ser encontrar
um tempo para se dividir entre uma milionária inglesa e uma atriz
francesa Simone Simon e freqüentar os endereços mais sofisticados
da Big Apple.
Depois de três semanas no Rio de
Janeiro, conseguiu sair do Brasil a bordo de um navio que levava um
grupo de balé, e na metade do caminho já estava namorando
uma das moças do espetáculo. Atacado pelo puritanismo
invejoso de Hoover, que dizia que o iugoslavo era um imoral, respondeu
com uma sinceridade jamais ouvida da boca de James Bond: "não
sou um espião que virou playboy, mas um homem que sempre viveu
bem e que se tornou um espião".
Fabrício
Rodrigues
Entrevista originalmente
publicada na edição número 12 de O
Malaco