Entrevista
- Ota
Sem largar o
osso
Ota, o eterno editor da Mad, divide seu
tempo com a produção de desenhos animados
Desde
que chegou ao Brasil, na década de 70, a revista Mad já
foi publicada por três editoras, iniciando na Vecchi, passando
pela Record e estacionando na Mythos. Em todos esses momentos Ota esteve
presente como editor e colaborador desta publicação que
aqui pode até não dar muito certo (até hoje acham
que Mad é o nome de Alfred E. Newman, o garoto propaganda
da revista), mas que nos Estados Unidos já tem seu valor incluído
no orçamento de qualquer família (com exageros).
Editor eterno da revista Mad,
o cartunista Otacílio d'Assunção há 30 anos
se dedica à elaboração de quadrinhos e cartuns,
mas na virada do século ele resgatou um antigo desejo e resolveu
botar seu sonho de fazer trabalhos animados em prática. Jornadas
de 18 horas por dia num total de quatro meses, resultaram no filme "A
Dança do Acasalamento", a primeira história pornô
liberada para menores de 18 anos, uma revolução que iria
dar início a muitos outros projetos da Otanimation.
Junto com o animador Fernado Miller e
André, o sobrinho responsável pelo escaneamento das 3.000
ilustrações do tio Ota que geraram o filme (haja saco),
o cartunista deu vida a Mooon, um personagem criado inicialmente para
animar sua página na internet em 1996, que três anos depois
foi promovido e ganhou uma namorada, a Nooon. Ambos são Flomps,
espécie de seres criada pelo cartunista que, de acordo com ele,
podem até mesmo se encontrar no seu estômago (e dizem que
vermes são um problema).
MARCA DIABO - Quanto tempo trabalhou
na primeira animação, e a quanto trabalha na segunda?
OTA - A animação foi feita em dois meses e a
finalização levou mais dois. Só que trabalhamos
full-time nele, e full-time significa uma jornada média de 18
horas por dia e depois uma jornada normal na filmagem. Esse teve quatro
minutos de animação, mais os créditos, etc, em
um total de 4 minutos e 48 segundos. O segundo, não tenho noção
exata com quanto vai ficar, porque ainda estão sendo acrescentadas
coisas, mas vai ficar entre 8 e 10 minutos. Só que o Miller tá
trabalhando em outros lugares e faz apenas parte dos desenhos. Eu tô
trabalhando uma média de sete horas por dia, o filme começou
a ser feito em dezembro, e ainda está mais ou menos pela metade.
MD - Qual foi o retorno do público
em relação à primeira?
OTA - O retorno do público foi favorável, mas o filme
só passou em alguns festivais. As pessoas gostavam, mas não
é um filme pra ganhar festival. O segundo, acredito, vai arrebentar.
MD
- E quanto foi o gasto?
OTA - Eu só vou considerar o filme pago quando ele render 10
mil dólares, metade disso foi o que gastei efetivamente, o resto
corresponde aos salários, meu e do Miller, que não foram
pagos. Não voltaram ainda nem 1.000 dólares do investimento.
O filme encareceu porque foi passado pra película. Até
a fita demo ficar pronta eu tinha tirado do bolso efetivamente 1.000
reais, na hora de passar pra filme a conta disparou.
MD - Pra esse segundo trabalho
está sendo investindo quanto?
OTA - Ainda não comecei a gastar o dinheiro. O que esta
sendo investido é tempo e suor, por enquanto. Vou tentar arrumar
um patrocínio pra parte de película, o resto estou me
virando. Bom, tô com um assistente e pagando uma ajuda de custo
a ele, mas isso começou há uns três meses. O Miller
tá fazendo os desenhos básicos sem cobrar nada, porém
ele só pode fazer nas horas vagas.
MD - Pretende realizar algum trabalho
próprio em forma de quadrinhos, fora o que é produzido
para a Mad?
OTA - Sempre tem planos, né. Mas falta tempo, já
que o filme dois é prioritário. Por enquanto, estou me
virando só com a Mad. Tenho várias historias boladas,
porém preciso de tempo pra executá-las.
MD - Por que a revista Mad
mudou de editora?
OTA - A Record extinguiu a divisão de revistas. Restava só
a Mad, mas tinha parado de dar lucro. Para eles era complicado
continuar, ainda mais porque exigia que fosse feita numa gráfica
externa e não na máquina deles.
MD - Qual foi o motivo da mudança
no projeto gráfico?
OTA - A Mythos manda imprimir fora, logo a revista pôde voltar
a ser em off-set e ter um caderno colorido, a Mad americana
está metade colorida atualmente.
MD - E esses primeiros números
já tiveram algum resultado positivo? Quantos números seriam
necessários para chegar a esse resultado?
OTA - Não estou
a par dos números, mas parece que esta vendendo em torno de 10
mil exemplares. Eles se deram satisfeitos com o resultado.
MD
- Como é feito o contato com a Mad americana?
OTA - As editoras fecham contrato com a Mad americana, e obtêm
licença pra publicar a revista, o processo é similar ao
de todas as outras publicações. Eu sou contratado pra
fazer a adaptação local.
MD - Por que desde o final de
80 a revista começou a repetir inúmeros trabalhos publicados
na década de 70 e início de 80?
OTA - Os leitores vão se renovando de cinco em cinco anos. Eles
só lêem a Mad enquanto são adolescentes.
O público que lê hoje não é o mesmo de 10
anos atrás. Algumas coisas não perdem atualidade. Mas
90% do material é inédito.
MD - A produção
dos cartunistas tem diminuído?
OTA - A verba encolheu devido ao fato de a revista estar vendendo menos,
por isso não posso gastar mais como antes, quando a revista era
50% nacional. Na época, a Mad americana saia apenas
oito vezes por ano, e havia falta de material. Hoje é o contrário,
a americana é mensal e a brasileira sai em média oito
vezes por ano.
Frederico Carvalho
Entrevista originalmente
publicada na edição número 4 de O Malaco