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Sem estrelas, mas com a taça
Há 13 anos o Criciúma E.C. surpreendia e se tornava campeão nacional

Um empate sem gols foi o suficiente. Jogando em seus domínios, diante de milhares de torcedores, nem foi preciso vencer o adversário para que o time do Criciúma, desconhecido fora de Santa Catarina, se tornasse campeão da Copa do Brasil. O título lhe deu direito a ser um dos dois representantes do país na Taça Libertadores da América. Aquele dia 2 de junho de 1991 entrou para a história não só da cidade, do estado e do clube, mas também do futebol brasileiro, que viu incluso na sua lista de campeões um escrete malaco, sem estrelas ou craques geniais, mas entrosado, que jogava junto há alguns anos e que, antes de se tornar febre entre os torcedores (como foi o São Caetano no passado recente), já tinha a taça guardada na sala de troféus.

A verdade era que, até aquela data, pouca gente fora de Criciúma estava dando atenção à façanha daquele time com camisa parecida com a Peñarol (amarelo, branco e preto) e nem mesmo para aquela competição. Afinal de contas, qual é a moral de um campeonato que teve sua primeira edição apenas dois anos antes, no qual só podiam participar dois times por estado, e cujo primeiro campeão havia sido o Grêmio?

É fato também que, para chegar ao título, o Criciúma não enfrentou nenhum dos "grandes times" do Rio de Janeiro e São Paulo, mas teve pela frente adversários com bom currículo nacional, como Remo (tá, esse nem tinha tanta diferença assim), Goiás, Atlético-MG e o já citado Grêmio, contra quem disputou a final do campeonato.

O time base do Tigre (mascote e alcunha mais corriqueira do Criciúma) poderia ser desconhecido para qualquer desavisado, mas se tornou símbolo de coesão e entrosamento numa época de vacas magras para o futebol brasileiro: Alexandre no gol, Sarandi e Itá nas laterais, além de Vilmar e Altair completando a zaga. No meio, Roberto Cavalo, Gelson e o já experiente Grizzo. O ataque era formado por Soares, Jairo Lenzi e Vanderlei Mior, o maior artilheiro da história do clube.

Na enxuta campanha de dez jogos, cinco times foram eliminados pelo Criciúma, que terminou a competição invicto (seis vitórias e quatro empates). Nos jogos finais, a redenção foi ampliada pelo excesso de confiança que a imprensa gaúcha depositava no nada confiável time do Grêmio de 1991. Terceiro colocado no Brasileiro do ano anterior e campeão da primeira Copa do Brasil, em 1989, a equipe da Azenha parecia franca favorita ao título e estava "a 180 minutos da Taça Libertadores da América", como foi noticiado à época.

Só que na primeira partida da decisão, no Estádio Olímpico, a surpresa. Uma cabeçada fulminante do zagueiro Vilmar abriu o placar para os visitantes, que após o final da partida saíram comemorando o empate em 1 X 1. Como a regra da Copa do Brasil dá vantagem para a equipe que marca gols fora de casa, o Tigre sequer precisou vencer ou marcar gols contra o time gaúcho para erguer a taça. Do banco de reservas saiu o principal maquinador da campanha vitoriosa, o ex-técnico da Seleção Brasileira Luís Felipe Scolari, que anos depois iria repetir a comemoração com a camisa do rival de 1991.

Assim, o Criciúma entraria no hall dos seletos azarões que levantaram um título brasileiro. Algo semelhante havia acontecido em 1978, quando o Guarani (que até hoje sequer foi campeão paulista) venceu o Brasileirão. O feito foi repetido em 1985 pelo Coritiba, na final mais malaca de todos os tempos, contra o Bangu, no Maracanã. Detalhe: naquele ano, o terceiro lugar ficou com o Brasil de Pelotas e em oitavo, o Joinville.

Por pouco, outro time pequeno não rouba a atenção e se torna campeão nacional naquele mesmo ano de 1991. O Bragantino, treinado por Carlos Alberto Parreira, deixou escapar diante do São Paulo a taça do Campeonato Brasileiro. A "grande final" foi disputada em Bragança Paulista num mísero estádio onde mal cabiam 12 mil pessoas. Coincidência ou não, aquele foi um dos anos mais pobres para o futebol brasileiro. Além de perder para a Argentina na Copa de 90 (com um dos times mais toscos de todos os tempos) e ter que engolir a pior classificação (9º lugar) desde o fiasco na Copa da Inglaterra em 1966, a Seleção Brasileira tentava renovar sua base com um bando de zé ruelas escalados por novo técnico Paulo Roberto Falcão. Não deu outra. Perdemos a Copa América daquele ano, de novo pra Argentina de Caniggia e Goycochea, que acabou campeã.

Correndo a América - No meio dessa zona toda que se encontrava o futebol no país, falar do título da Copa do Brasil do "pequeno" Criciúma sem comentar a boa performance do time na Libertadores de 1992 é se limitar à metade da história. Com a vaga assegurada na competição internacional, o Criciúma cumpriu a obrigação caseira e garantiu o tricampeonato catarinense no final daquele ano. Nos meses seguintes, a ordem era se preparar para o importante torneio sul-americano. Sem Felipão, mas com Levir Culpi no comando, a estréia do Criciúma na competição foi fulminante. De cara, o São Paulo, que nove meses depois se sagraria campeão mundial interclubes. O técnico Telê Santana preferiu poupar alguns titulares e deixou o Heriberto Hülse com um placar de 3 X 0 nas costas. Na partida de volta, ainda pela fase classificatória, deu o troco com um implacável 4 x 0, resultado que não tirou do Tigre o primeiro lugar na chave, que contava também com dois representantes bolivianos, o San Jose e o Bolívar, tendo que jogar contra a altitude e tudo.

E onde o Criciúma resolveu fazer os treinamentos para se preparar contra este inimigo geográfico? Na praia do Rincão, na cidade vizinha Içara mesmo, atitude que valeu críticas ferrenhas de comentaristas esportivos locais. Que não valeram de nada, pois o time catarinense subiu a lomba, venceu o San Jose (2 X 1) e empatou com o Bolívar (1 X 1), no mesmo país onde no ano seguinte a Seleção Brasileira perderia a invencibilidade em eliminatórias da Copa ao ser derrotada por 2 X 0 para a Bolívia, pouco mais do que um misturado dos times que o Tigre havia enfrentado.

Nas oitavas-de-final, o Criciúma desclassificou o time peruano Sporting Cristal vencendo em Lima (2 X 1) e em casa (3 X 2). Como o regulamento não permitia que dois times do mesmo país disputassem a semi-final, Tigre e São Paulo voltaram a se enfrentar nas quartas, só que desta vez não deu pro time catarinense. Com a vitória da equipe de Telê no Morumbi por 1 X 0, o empate em 1 X 1 no Heriberto Hülse significava o final do sonho criciumense de ganhar o continente. Nem o petardo que o volante Roberto Cavalo mandou no travessão do goleiro Zetti nos últimos minutos de jogo ajudou. Sobrou a honra local de ter ficado em quinto lugar na competição, ou como muitos preferem, a cinco jogos do título Mundial Interclubes.

Fabrício Rodrigues

 

Campanha da Copa do Brasil:
Ubiratan-MS 1 X 1 Criciúma
Criciúma 4 X 1 Ubiratan-MS
Criciúma 1 X 0 Atlético-MG
Atlético-MG 0 X 1 Criciúma
Goiás 0 X 0 Criciúma
Criciúma 3 X 0 Goiás
Remo 0 X 1 Criciúma
Criciúma 2 X 0 Remo
Grêmio 1 X 1 Criciúma
Criciúma 0 X 0 Grêmio

 

Campeão numa terra estranha
Esporte reflete as particularidades de um estado excêntrico

O futebol de Santa Catarina tem tanta importância para o futebol brasileiro quanto a Irlanda do Norte tem no cenário europeu. Participou de algumas competições, os mais sabidos dizem que já saiu jogador bom de lá, mas sempre tem algum outro esporte que dá mais orgulho, popularidade e respeito para seus habitantes.

O caso catarinense tem paralelo no país? Encravado entre dois estados com projeção nacional no futebol (Rio Grande do Sul e Paraná têm seis times disputando a primeira divisão do Campeonato Brasileiro), um estado que é economicamente forte para o tamanho poderia se assemelhar ao Espírito Santo que, mesmo entre Minas Gerais, Bahia e Rio de Janeiro, ainda não teve nenhum time com expressão nacional. Mas se levar em conta a competitividade nacional, o futebol perde para esportes menos praticados como vôlei, tênis, handebol, surfe e, claro, punhobol.

Santa Catarina é um estado tão excêntrico que tem diversos pólos facilmente reconhecíveis (metal-mecânico no norte, cerâmico no sul e agropecuário no oeste), mas a capital é menos populosa do que uma cidade do interior (segundo o censo de 2000, Florianópolis tem cerca de 140 mil habitantes a menos do que a industrial Joinville).

Este sinal se reflete no futebol. Ao contrário dos estados "normais", onde a maior rivalidade se concentra na maior cidade, ou seja, na capital, os principais títulos e as equipes com maior projeção nacional saíram do interior. Nos anos 60, a mesma cidade de Criciúma abrigou o Metropol, time formado por jogadores que moravam na região central da cidade e que disputou uma das mais bem sucedidas temporadas européias feitas por um time nacional (nesse ponto, superou até o mítico Santos daquele pessoal que todo mundo cita até hoje) e foi bicampeão sul-brasileiro na década de 60.

Mais recentemente, fora o Tigre campeão do Brasil em 1991 e quinto colocado na Taça Libertadores da América em 1992, a outra força do estado é do Joinville Esporte Clube que, nos anos 80, ficou na quinta colocação do bizarro campeonato nacional de 1985 (aquele, com Coxa e Bangu decidindo o título), além de ter se sagrado octacampeão estadual.

Nesse meio tempo, a acirrada rivalidade dos times da capital, Avaí e Figueirense, foi nivelada por baixo. Sem participações notórias no primeiro escalão do campeonato nacional, os avaianos se orgulham do título da Série C (popular terceira divisão) em 1998, enquanto o rival alvinegro até 2001 jamais havia vencido um jogo sequer na Copa do Brasil.

Isso apenas prova a estatística de que o futebol catarinense costuma ser fraco de uma forma geral, sem se restringir a um só time. O próprio Criciúma, depois do período de vacas gordas, tornou-se o saco de pancadas da primeira divisão do Campeonato Brasileiro, em meados dos anos 90. O diferencial é que, em dado momento da história, uma ovelha negra resolveu formar um time decente (as divisões de base foram essenciais para isso) e ganhou uns jogos a mais do que deveria, ou pelo menos mais do que a torcida poderia esperar. Com os grandes patrocinadores aumentando cada vez mais o abismo entre os "clubes grandes" e os mais modestos, vai ser muito difícil ver outro milagre desse se repetir em plagas catarinas (N.E.: Só até 2004, obviamente).

Fabrício Rodrigues

 

 

Originalmente publicado na edição nº 3 de O Malaco