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- Entrevista - Fausto Wolff
O
lobo continua vermelho
Fausto Wolff solta
os cachorros na "nova esquerda" brasileira
Esta
é uma entrevista antiga, de 2001, concedida por Fausto Wolff
logo após a morte da revista Bundas e antes do lançamento
do Pasquim 21. Foi editada novamente em 2004 e as passagens que
se referiam a eventos específicos de 2001 foram extirpadas.
Um dos melhores e mais mordazes
escritores brasileiros, Wolff foi pego de supetão por três
irresponsáveis no lançamento de um livro em Florianópolis.
Durante a conversa, ele cantou a "Internacional Socialista"
a capela, falou bem dos velhos comunistas e muito mal da "nova
esquerda" - tudo sem se separar de uma garrafa de uísque.
Marca Diabo - E a Bundas? Por
que a revista não deu certo?
Fausto Wolff - A Bundas foi a revista mais bonita do mundo.
E eu acho que ela deu certo, acontece que ela foi vítima de uma
burrice do Ziraldo, que insistiu nesse nome só pra fazer oposição
àquela revista lá, a Caras. Só que isso
não trazia anúncios, porque os clientes não queriam
associar sua marca a uma publicação com um nome daquele.
Quando a revista chegava lá em casa o porteiro interfonava e
me dizia: "Seu Fausto, chegou 'aquela' revista lá"
e eu já sabia qual era. Eu não queria esse nome. Se dependesse
de mim, se chamaria Vida Cotidiana, só que fui voto vencido.
MD - E quanto ao Natanael Jebão
(pseudônimo que Fausto usava para escrever uma coluna na Bundas)?
Quem é ele afinal de contas?
FW - Ele é um sujeito que ninguém conhece, ninguém
viu. É o único cara de direita na revista, só que
ele se ele deu bem.
MD - O senhor continua escrevendo ficção?
Pretende lançar algum livro novo neste ano ainda?
FW - Eu estou escrevendo um livro de poemas, que vai se chamar
Pacto de Wolffenbüttel. Deve sair em outubro. Resolvi me dedicar
aos poemas porque quero provar que isso vende. Não tenho influência
nenhuma, mas posso dizer que gosto muito do que o Millôr e o Manoel
de Barros fizeram.
MD - Que autores o senhor ainda relevantes
para a literatura brasileira?
FW - Andam me dizendo que o Tabajara Ruas é bom, mas eu
não li. Tem também o Rubem Fonseca, o Carlos Heitor Cony,
Millôr, (Luís Fernando) Veríssimo, Aldir Blanc...
esses aí.
MD - O Mino Carta (mal citamos este
nome e Fausto faz uma careta), em sua estréia na ficção
(O Castelo de Âmbar), usa uma linguagem difícil
e rebuscada, já que ele diz que "estão aviltando
a língua brasileira". O que o senhor acha disso?
FW - Ah, o Mino Carta... (em tom de desdém). Se ele continuar
desse jeito, quem vai aviltar a língua brasileira é ele
(risos).
MD - E suas convicções
políticas?
FW - Eu sou comunista, e se você é comunista, já
está de um lado. O comunismo não é esse PPS aí,
um partido Oscar Wilde, que não quer mostrar o nome. Sou comunista
e creio que o homem deve ser feliz. Se na primeira vez não deu
certo, na segunda vai dar.
MD
- Existe algum político que merece seu voto?
FW - Por mim votaria sempre no Brizola. Mas seria um tiro n'água,
porque ele não iria ganhar. Mas votaria nele pelo pressuposto
que representa, por aquilo que ele fez quando era governador do Rio.
Pô, colocar 500 escolas não é pra qualquer um.
MD - E esses caras aí que dizem
representar a "nova esquerda", como o Ciro Gomes?
FW - O Ciro Gomes não é nem cocô de cachorro
(risos). O neoliberalismo lida hoje com uma arma religiosa, que diz
que o cara que tem talento chega lá. Pra mim tá mais para
o neonazismo. Pra se ocupar um carguinho, tem que ser lourinha, isso
ou aquilo. Em São Paulo você não vê um garçom
negro nos melhores restaurantes. E os brancos que estão lá
já vêm com o 3º científico. Você vê
arquiteto dirigindo táxi. Mas eu não tenho pena desses
arquitetos, porque eles ajudaram a levar esse sistema à frente.
MD - Vê alguma alternativa então?
FW - É o comunismo como algo humanista. Mas esses putos
aí só falam do velho comunismo, que não deu certo.
Tá certo, houve tirania, mas a engenharia era fantástica.
Veja só o Sputnik, por exemplo, além da parte de educação,
não havia analfabetismo lá na época.
MD - Nem as sociais-democracias poderiam
funcionar como um meio termo?
FW - Olha, enquanto eu morei lá [na Europa], o negócio
funcionava, era bom. Até o Mercado Comum Europeu entrar de vez
e forçar a criação de um nicho de mercado para
coisas americanas, como o cinema. A saúde deles continua ótima,
mas há violência. E violência pela violência.
Acho que vocês poderiam encerrar a entrevista com uma frase que
atribuo a mim e ao Bakunin: "Liberdade sem comunismo é privilégio.
Comunismo sem liberdade é tirania".
Entrevista: Fabrício
Rodrigues / Gabriel Rocha / Hugo Oliveira
Fotos: Agência Universidade Aberta (UFSC)
Originalmente publicado
na edição nº 3 de O
Malaco