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Alienígenas
à nossa imagem e semelhança
O cinema e a TV insistem
em representar os Ets como seres antropomorfos, uma escolha que pode
esconder razões bem mais terrenas
Jack
Cohen é um biólogo especializado em reprodução
que se diverte criando imaginários seres alienígenas,
levando em conta fatores como a influência da gravidade e a questão
da adaptação em ambientes diferentes do nosso planeta.
As versões que ele faz dos Ets são bem distintas daquelas
que estamos acostumados a ver no cinema e na televisão. "Encontrar
outro planeta com dinossauros ou pessoas iguais às da Terra é
mais improvável do que encontrar uma ilhota do Pacífico
cujos habitantes falem alemão fluentemente", escreveu Cohen
para o semanário de divulgação cientifica New
Scientist (no Brasil, o artigo foi traduzido e publicado pela Superinteressante,
em 1992). Apesar do ceticismo científico e da crítica
bem-humorada de Cohen, e apesar do fato de que as princiais apostas
da Ciência em termos de alienígenas sejam simples bactérias
e microorganismos, os alienígenas antropomórficos ainda
são a maioria, tanto nos relatos supostamente reais quanto na
ficção científica.
Isso acontece, até mesmo, no caso
mais famoso em que esses dois extremos estão unidos. Estamos
falando daquelas fitas que correram o mundo em 1995 mostrando o que
seria a autópsia dos Ets do "Incidente Roswell". Esse
é o nome pelo qual ficaram conhecidos os boatos de uma nave espacial
que, muitos juram, teria caído nos EUA, no dia 4 de julho de
1947 (vários filmes fazem referência à história,
os mais recentes são Independence Day e Caso Roswell,
respectivamente de 1994 e de 1996). Por todo o mundo, especialistas
em imagem garantiram que tais fitas são uma farsa e que os autopsiados
são bonecos de borracha como aqueles dos seriados japoneses.
Mas o fato é que, sendo uma farsa
ou não, os seres correspondiam à descrição
da maioria dos relatos dos chamados contatos imediatos de terceiro grau
(além de ser nome de filme de Steven Spielberg, o termo em jargão
ufológico trata do encontro entre humanos e extraterrestres).
Ou seja, eram humanóides atarracados, com cabeça e olhos
enormes e a pele em um tom que vai do cinza ao verde. Dessa forma, chega-se
a uma questão interessante: os filmes retratam as criaturas espaciais
como seres antropomórficos para serem fiéis a tais relatos
ou cada vez mais pessoas, influenciadas pelo que vêem no cinema
e na TV, são levadas a crer na existência de homenzinhos
verdes? Seria muito simplista dizer que os cineastas procuram ser realistas
quando apresentam aliens em seus filmes, afinal essa é a explicação
em poucos casos, por exemplo no telefilme Intruders, mas na maioria
das vezes as razões são bem diferentes.
A
mais famosa delas é a de que Ets infiltrados entre nós
são a metáfora perfeita para tratar do medo que temos
de quem pensa diferente. Os exemplos de filmes pós-II Guerra
apresentando versões espaciais dos soviéticos são
clássicos. Em Vampiros de Almas (também conhecido
por aqui como Os Invasores de Corpos), a história contada
em flash-back mostra uma cidadezinha americana invadida por uma espécie
de vagens das quais brotam clones perfeitos dos moradores. O ano era
1956, e bastava dormir para ser substituído por um desses invasores.
As criaturas contam seus planos para o casal de mocinhos (Kevin McCarthy
e Dana Wynter): criar uma sociedade "em que todos são iguais"
e desprovidos de sentimentos como "amor, desejo, ambição,
fé". Poderia haver uma melhor descrição da
visão de um americano em relação aos comunistas,
naqueles tempos de Guerra Fria? Mas é bom lembrar que o diretor,
Don Siegel, sempre afirmava que na verdade estava fazendo uma caricatura
de seres bem mais próximos de nós: os produtores de cinema.
Exatamente 40 anos depois, A Invasão,
de David Twohy, utilizou o mesmo princípio para tratar de um
novo inimigo dos EUA. É bem verdade que uma cena na qual um alienígena
ataca o herói com uma foice faz lembrar do tempo dos comunistas
do espaço, mas agora os invasores não são mais
da cortina de ferro, do segundo mundo. São do terceiro. Estranhos
seres montam bases nos países subdesenvolvidos ("onde não
há leis rígidas de controle ambiental") para alterar
a Terra, transformando-a em uma segunda versão do planeta deles.
Os Ets, que já são antropomórficos por natureza,
disfarçam-se de mexicanos, com as características étnicas
dos descendentes dos astecas. Quando o mocinho (Charlie Sheen) conta
para a namorada a história de aliens invasores, ela responde
aproveitando-se do duplo sentido do termo em inglês: "É
melhor que você esteja falando de imigrantes ilegais". Os
novos invasores da América somos nós, "brazucas",
"chicanos" e "cucarachas" em geral que não
sabemos cuidar de nossos países e vamos para lá incomodar
os coitados.
Outra
questão que deve ser levada em conta são as implicações
religiosas de Ets antropomórficos nos filmes. A visão
de mundo ligada ao cristianismo diz que fomos criados à imagem
e semelhança de Deus. Se existir vida fora da Terra, Ele deve
ter usado a mesma lógica ao povoar outros planetas - dessa maneira,
os alienígenas, e nós mesmos, seriamos todos seres teomorfos,
certo? Dando um giro de 180 graus e analisando o caso pela ótica
da "religião das ciências", os fatos são
bem outros: segundo os positivistas, foi o homem quem criou a idéia
de deus à sua semelhança, e não apenas Jeová,
como todos os demais panteões, do hindu ao egípcio, são
criações antropomórficas. E, em última análise,
o que é o conceito de Deus além do de um ser de fora do
planeta, ou seja, um extraterrestre?
Não se trata de fazer a defesa
das idéias de Erich Von Daniken, o escritor de arqueologia fantástica
que acredita na interferência direta de seres de outros planetas
na Terra, cujos sinais de sua presença seriam os cultos de figuras
míticas. Mas é inegável que o homem procura encontrar
repesentações de si mesmo naquilo que escolhe para adorar
ou para temer. É natural que se transfira essa analogia para
as criaturas de outros mundos que ele se propõe a imaginar. A
partir de pequenas variações desse formato é posível
construir uma série de simbolismos em torno dessas figuras -
as presas e garras com que H. R. Giger produziu os monstros de Aliens
e de A Experiência representam perfeitamente a idéia
do mal; enquanto que os grandes olhos brilhantes e a pequena estatura
do ET, de Spielberg, e do mestre Yoda, de Guerra nas Estrelas,
despertam simpatia.
A
motivação para se criar alienígenas de forma humana
pode ter ainda razões bem prosaicas, tal como a falta de dinheiro.
E pouca verba e muita imaginação é sinônimo
da série clássica de Jornada nas Estrelas, criada por
Gene Roddemberry, que deu origem até agora a oito longa-metragens
para o cinema, desde 1979, e outros três seriados televisivos.
Uma de suas inovações estava na tripulação
da USS Enterprise. Além de um oficial russo, o piloto Pavel Chekov
(interpretado por Walter Koening), em plena época de Guerra Fria,
o segundo-em-comando da nave era um alienígena. Para fazer o
papel do vulcano sr. Spock, Leonard Nimoy só contava com as famosas
orelhas pontudas e um irritante senso de lógica. Outras diferenças
anatômicas, como o sangue verde e o coração no lugar
do fígado eram só sugeridas ao longo dos episódios.
Existe outra série que também
sabe lidar bem com a semelhança entre Ets e humanos que o formato
televisivo praticamente obriga a seguir. "Arquivo X" é
aquela mistura de policial-suspense-ficção científica-terror,
criada por Chris Carter em 1993. O ponto forte do seriado é o
relacionamento de dois agentes do FBI, um extremamente crédulo
e outra completamente cética, que investigam casos inusitados,
com ênfase nos ligados a extraterrestres. Nos melhores episódios
existem evidências que podem se encaixar tanto na ficção
quanto em uma perspectiva científica. Um exemplo são os
episódios "Os Japoneses" e "O Falso Alienígena"
(o título em português é bem inadequado), do terceiro
ano da série, disponíveis em vídeo no Brasil na
fita Autópsia. O caso parece envolver experiências com
híbridos humanos-aliens, mas também há evidências
de que os seres encontrados na trama possam ser humanos portadores de
hanseníase.
A verdade é que nenhuma das características
vistas aqui exclui as demais, e duas ou mais delas (ou ainda outras,
como a simples falta de imaginação, presente em dezenas
de produções, ou a intenção satírica
de filmes do tipo Spaceballs e Mars Attacks) podem coexistir
em uma mesma obra motivando a apresentação de alienígenas
antropomórficos. E quanto a disputa do biólogo Jack Cohen
e dos cieneastas para ver quem está certo nessa história
toda, só podemos esperar para ver. Veremos se no dia em que fizermos
contato vamos encontrar do outro lado da linha homenzinhos verdes ou
simplesmente um bando de melecas esverdeadas.
Texto e ilustrações:
Romeu Martins
Originalmente publicado na edição
nº 10 de O
Malaco