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Cura para as
criancinhas
O criador de Ren
& Stimpy, que influenciou a atual boa safra de desenhos, tenta salvar
as futuras gerações
Dos
milhares de fãs de desenhos animados como As Meninas Super-Poderosas,
A Vaca e o Frango, O Laboratório de Dexter, South
Park e Beavis & Butthead, pouquíssimos estão
familiarizados com o nome de John Kricfalusi. Acontece que sem esse
homem é muito provável que nenhuma dessas animações
jamais chegasse às telas das TVs. Kricfalusi é o criador
da série de animação Ren & Stimpy, que
estreou no começo da década passada nos Estados Unidos
pelo canal por assinatura Nickelodeon.
Produzidas pelo próprio estúdio
de Kricfalusi, o Spumco, as aventuras de um raquítico cão
chihuahua e de um gato gordo foram fundamentais para o desenvolvimento
de tudo que de melhor foi feito em animação para a TV
na última década. As tramas giravam em torno do cotidiano
bizarro dos desajustados protagonistas. Pêlos, veias, bundas,
olhos saltados, verrugas, saliva, coriza e outras secreções
corporais eram retratados em close, nos mínimos detalhes, ao
estilo das animações dos anos 40. Diferente de tudo que
estava sendo produzido na época, em pouco tempo a dupla conquistou
um respeitavel séquito de admiradores.
Desagradáveis, escatológicos,
perturbados, populares e muito, mas muito, engraçados, Ren &
Stimpy pareciam ser o sonho de qualquer executivo de TV a cabo. Menos
os da Nickelodeon. Preocupados com o que chamavam de "atentados
aos padrões de bom-gosto e decência" da emissora,
após a primeira temporada do desenho os diretores da Nickelodeon
tiraram Ren & Stimpy das mãos de Kricfalusi e passaram
a produzir sua própria versão, bem mais light, do programa.
John K passaria os próximos dez anos longe da televisão,
veiculando suas animações somente através do site
www.spumco.com.
Apaixonado pelos desenhos clássicos
da Warner e Hanna-Barbera, como Pernalonga, Patolino,
Flintstones e Jetsons, o canadense Kricfalusi começou
a trabalhar profissionalmente com animação em 1980. Ele
foi contratado pelos estúdios Filmation para produzir novos episódios
de desenhos antigos, como Tom & Jerry, Jetsons e Droopy.
Segundo ele, o trabalho consistia em "destruir todos aqueles desenhos
que nós adorávamos quando éramos crianças.
E fizemos um excelente trabalho."
A
situação de trabalho para os cartunistas que faziam desenhos
animados nos anos 80 não era nada boa. Desde a segunda metade
dos anos 60 o antigo método de produção dos cartoons,
em que as histórias não eram produzidas com um roteiro
escrito, mas sim com o auxílio de storyboards produzidos na mesma
hora, havia sido abandonada para dar lugar à produções
estritamente baseadas em scripts. O problema era que ao contrário
dos profissionais da Era de Ouro da animação, estes roteiristas
não eram desenhistas e faziam aquele serviço esperando
conseguir um trabalho melhor em alguma sitcom ou em Hollywood. O resultado?
O fim de qualquer tipo de produção original, deixadas
de lado para o surgimento de programas fracos baseados em brinquedos
(He-Man, Rambo, G.I.Joe, Thundercats e afins),
todas elas de lucro fácil e com prazo para acabar.
Após sete anos fazendo um trabalho
que odiava, Kricfalusi foi convidado por Ralph Bakshi, um veterano das
animações (responsável pela adaptação
animada de Fritz,The Cat, entre outros), para trabalhar em uma nova
versão do Super-Mouse para a rede de TV CBS. Era a primeira
vez em 25 anos que um desenho animado voltou a ser inteiramente produzido
por cartunistas. Foi a oportunidade perfeita para John K experimentar
as técnicas que aplicaria três anos mais tarde em Ren
& Stimpy. A série do Super-Mouse acabou cancelada após
uma controvérsia gerada por um episódio em que o rato
cheirava uma flor para recarregar suas energias. Os produtores foram
acusados de fazer referências explícitas à cocaína.
A essa altura Kricfalusi já havia abandonado o Super-Mouse e
começava a trabalhar com o seu estúdio, o Spumco.
Sonho de um, pesadelo de outros
- Os estúdios Spumco eram o sonho da vida de Kricfalusi. Finalmente
os desenhos animados voltariam a ser feitos por quem entendia do riscado.
Quando soube que a Nickelodeon estava interessada em produzir uma série
original de desenhos, John K foi até os executivos da emissora
para mostrar suas criações. Após uma série
de negociações, vendeu para a Nick os direitos de produção
de Ren & Stimpy. O Spumco recebeu carta branca da Nickelodeon
para o desenvolvimento do novo programa. Kricfalusi contratou dezenas
de profissionais insatisfeitos com grandes estúdios e passou
a produzir Ren & Stimpy a todo vapor.
O pesadelo começou quando os executivos
da Nickeleodeon assistiram aos primeiros episódios da série.
E odiaram. Segundo John K, os manda-chuvas da emissora simplesmente
não entendiam as piadas. A Nickelodeon, então, contratou
um editor de histórias para tosar as idéias do pessoal
do Spumco. Um jantar de conciliação entre a diretoria
da Nickelodeon e os cabeças da Spumco acabou em bate-boca e na
exigência do canal da demissão do braço direito
de Kricfalusi, o também cartunista Bob Camp. Para satisfazer
a Nickelodeon, John K fingiu a demissão de Bob Camp, que continuou
a trabalhar no Spumco longe dos olhos da emissora.
Em
agosto de 1991 finalmente foi ao ar o primeiro episódio de Ren
& Stimpy. E desde a estréia a Nickelodeon já mostrava
suas garras. Uma cena em que Ren beijava Stimpy por engano enquanto
tinha um sonho romântico, foi tesourada. Imagine o que os executivos
iriam achar da idéia original, em que ao invés de receber
um beijo, Stimpy engravidaria de Ren. Contrariando todas as previsões
da Nickelodeon, Ren & Stimpy se transformou em uma febre.
O desenho foi o programa de entretenimento mais assistido em 1991 na
televisão norte-americana. Apesar do sucesso, a guerra entre
Nick e Spumco ficava cada vez mais acirrada.
Quando John K. preparava a segunda temporada
da série, descobriu que a Nickelodeon havia odiado as novas histórias
ainda mais. A emissora passou a reprisar os episódios da primeira
temporada enquanto não resolvia o impasse. Enquanto isso, Ren
& Stimpy continuavam mais populares do que nunca, recebendo até
uma indicação ao maior prêmio da TV americana, o
Emmy. A situação chegou ao limite quando a Nickelodeon
simplesmente parou de pagar o Spumco para produzir o desenho. Em setembro
de 1992, a emissora dispensou Kricfalusi e criou seu próprio
estúdio, o Games, para trabalhar em novos episódios de
Ren & Stimpy. Ironicamente, quem estava no comando do Games
era Bob Camp, antigo desafeto da emissora, que havia abandonado Kricfalusi.
Mesmo sem a inventividade de Kricfalusi, a série durou até
1995.
Seguidores aparecem - Enquanto
Kricfalusi caía no ostracismo, dezenas de crias de seu estilo
passaram a pipocar pelas TVs. Os desenhos "de autor" voltaram
à moda. Um dos principais incentivos à nova animação
foi a criação do Cartoon Network em 1993. Uma das primeiras
produções originais do canal foi a série Os
Dois Cães Estúpidos, claramente inspirado nos personagens
de Kricfalusi. Logo não tardariam a surgir séries como
Johnny Bravo, de Van Partible, A Vaca e o Frango, de David
Feiss, e As Meninas Super-Poderosas, de Craig McCracken. Todas
têm em comum o apuro visual e as histórias que agradam
tanto ao público infantil quanto o adulto. Afinal, que criança
captaria alusões descaradas à cocaína, como no
episódio da Vaca e o Frango em que o Frango toma uma dose
excessiva de cereal de café e fica trincando os dentes na cama?
Ou o episódio das Meninas Super-Poderosas composto exclusivamente
de referências aos Beatles?
No
campo das animações para adultos, Ren & Stimpy
foi igualmente influente. Mike Judge, o criador de Beavis & Butthead
e O Rei do Pedaço considera John K. "o maior diretor
de animação de nosso tempo". E se South Park,
de Trey Parker e Matt Stone traz episódios envolvendo temas controversos,
tudo se deve ao pioneiro John K (que considera o desenho "um amontoado
de piadas recicladas de Ren & Stimpy").
Na última década, John K.
tem se dedicado a desenvolver séries como George Liquor e Weekend
Pussy Hunt no site www.spumco.com.
O Spumco também produz comerciais e videoclipes, como "I
Miss You", da cantora Björk. Ano passado [N.E.: Matéria
escrita em 2001] Kricfalusi fez um episódio especial de Zé
Colmeia para o Cartoon Network. No melhor estilo Ren & Stimpy,
Catatau perdia o controle e se transformava em um urso selvagem. Para
este ano, John K. prepara sua volta à TV, com a série
The Ripping Friends, que desenvolve para a Fox Kids.
Em entrevista ao site www.theonion.com,
Kricfalusi descreveu os personagens como, "quatro heróis
casca-grossa que saem pelo mundo quebrando tudo, fazendo justiça
com as próprias mãos e tornando o mundo um lugar melhor
para ser um homem de verdade". "Eles são o oposto dos
homens lobotomizados de hoje em dia, que têm que fingir que são
sensíveis para levar as mulheres para a cama. Eles são
homens à moda antiga, antes do politicamente corrreto",
completa. Kricfalusi defende que "fará um desenho para curar
as crianças". O futuro da humanidade está em suas
mãos, John.
Gabriel Rocha
Originalmente publicado na edição
nº 4 de O
Malaco