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Ele queria a
perna do Rei
Raul de Souza contou
como Robertão lhe passou um calote
Aproveitando
a volta ao país natal, aonde veio passar a lua-de-mel com uma
francesa, Raul de Souza, considerado um dos maiores trombonistas do
mundo, não se conteve e realizou uma espécie de turnê-relâmpago.
O artista se apresentou com músicos convidados no Rio de Janeiro
e no litoral paranaense, mais especificamente em Pontal do Paraná,
no Cimples Bar - Clube de Samba e Choro. Falando assim, parece que a
vida do moreno sempre foi uma teta: fama internacional, turnê
de última hora, francesas dando mole...
Na verdade, Raul de Souza ralou, e muito,
para chegar onde está (se é que alguém consegue
distinguir um trombone de um gramofone). Além de passar quase
50 anos virando noites a soprar seu instrumento em botecos, clubes e
outros estabelecimentos, o coitado levou calote até do Rei Roberto.
Confira a entrevista:
Marca Diabo - Há muito samba
e MPB em seu set list de jazz. É de propósito, para comprovar
a proximidade entre os estilos musicais?
Raul de Souza - É de propósito... e meio por acaso
também. Na verdade, a própria banda que está me
acompanhando tem essa pegada mais jazzística. Afinal, são
músicos que tocam jazz há anos. Na França, por
exemplo, eu participo de outro projeto, que mistura funk com eletrônico.
Um lance que soa totalmente diferente.
MD - Você mora na França,
mas nasceu no Brasil e já morou um tempão nos Estados
Unidos. Dá para explicar melhor sua trajetória, citando
datas e tal?
RS - Deixa ver se eu lembro.
Na verdade eu sou carioca. Toco trombone desde o final da década
de 50. Morei no Brasil até 1969, depois fui para o México,
para os Estados Unidos, onde eu morei 20 anos. E agora estou na França.
Mas, no Brasil de gravar com Sérgio Mendes, antes dele ir para
os Estados Unidos e voltar daquele jeito, sabe? Também acompanhei
o Roberto Carlos, infelizmente.
MD - Infelizmente? Ele já queria
gravar um disco acústico naquela época?
RS - Não, é que era muita sacanagem. Eu comandava
a banda do cara, no programa Jovem Guarda (TV Record), em 67. Só
que não recebíamos nenhum tostão. Cheguei a ficar
devendo três meses de aluguel, mandaram ordem de despejo. E eu
lá, na televisão. Como eu ia dizer para os meus credores
que eu não tinha dinheiro, aparecendo toda a semana na TV, para
todo o Brasil?
MD - E o Roberto Carlos não
pagava?
RS - Não pagava e cada vez contratava mais seguranças,
esbanjava mais...
MD
- E vocês não tomaram nenhuma atitude?
RS - Antes de eu sair de vez, foi engraçado. Eu estava
no avião, voltando de um show, e nem perto de receber. Pensei:
"é agora que eu pego esse filho da puta!" Eu estava
no fim do corredor, com um copo de uísque, ligado há uns
três dias, porque naquela época era foda... Quando o cara
chegou perto, eu agarrei ele pela camisa e disse: "agora você
não escapa! Vou arrancar a tua perna! Cadê a chave de fenda?".
Ele ficou apavorado.
MD - E conseguiu arrancar?
RS - Não, mas se eu achasse uma chave de fenda, teria
arrancado a perna mecânica do Roberto Carlos. Só sei que
armei o maior barraco e foi aí que eu não recebi mais
nada mesmo.
Ramiro Pissetti
Originalmente publicado na edição
nº 7 de O
Malaco