Arquivo - Blade Runner

O milagre de Ridley Scott
"O homem criou o homem à sua imagem e semelhança. Agora o problema é seu"

Em 1968, quando Do Androids Dream of Electric Sheep? (Os Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas?), de Philip K. Dick, foi publicado, Martin Scorsese logo percebeu o potencial cinematográfico do romance futurista. Envolvido com outros projetos, o diretor acabou deixando de lado a idéia de adaptar a história para as telas. Nos dez anos seguintes, os direitos do livro despertaram o interesse de alguns roteiristas, mas acabaram sendo adquiridos por Brian Kelly. Com muito custo, ele convenceu Michael Deeley a assumir a produção do filme e convidou seu amigo Hampton Fancher para escrever o roteiro.

A dificuldade em convencer os estúdios de Hollywood a bancarem a idéia, devido aos custos elevados da adaptação, acabaram prorrogando o início das filmagens por mais dois anos. Eis que, em 1980, Ridley Scott, que havia chamado atenção com Alien - O 8º Passageiro um ano antes, assumiu a bagaça definitivamente.

De início, Scott fez uma série de modificações no roteiro, mas aceitou uma (boa) sugestão de Fancher: substituir o termo detetive por blade runner, inspirado no título de um livro de William Burroughs. Outra alteração foi em relação ao ano da ação, pois no livro a história se passava em 1992, data próxima demais do ano de produção. Para garantir uma data convincente, foi escolhido o ano de 2019.

As filmagens foram finalizadas em apenas quatro meses, mas os chefões da Warner conseguiram segurar o lançamento por mais algum tempo. Os toupeiras consideraram a trama muito complicada e "sugeriram" alguns remendos significativos: incluir a narração do personagem principal e modificar o final do filme. Em vez da ambigüidade da última cena, os executivos impuseram aquele happy-end insosso, utilizando sobras das filmagens de O Iluminado, de Stanley Kubrick.

Nem isso fez com que a crítica e o público americano assimilassem o filme. A recepção a Blade Runner só começou a melhorar quando passou a ser exibido na Europa. Conseqüentemente, o lançamento em vídeo garantiu o retorno para a Warner. A companhia mordeu a língua mais uma vez em 1990, quando a versão original passou a ser exibida clandestinamente no circuito universitário. O frisson foi tanto que a Warner recolheu os rolos de filme, deu um esporro nos estudantes, e chamou Ridley Scott para lançar o material novamente e do jeito que quisesse. A "versão do diretor", como todo mundo sabe, excluiu a narração e incluiu novas cenas, entre elas, o sonho de Deckard com o unicórnio.

Vinte anos após seu lançamento, é impossível sugerir um único retoque em Blade Runner. Ridley Scott, indiscutivelmente no seu melhor momento, cometeu um pequeno milagre. A começar pelo elenco, na época constituído por atores pouco conhecidos. A exceção talvez fosse Harrison Ford, que já havia cativado o público como Han Solo (Guerra nas Estrelas) e Indiana Jones (Caçadores da Arca Perdida). Daryl Hannah, porém, consegue - pela primeira e última vez - excelentes resultados como a replicante Pris. Infelizmente, a atriz acabou deixando sua carreira rolar ladeira abaixo, participando de besteiras do nível de Splash - Uma Sereia em Minha Vida. Rutger Hauer, aquele andróide polaco que morre por último, também não desempenhou outro papel à altura, seja antes ou depois de Blade Runner. E Sean Young, então, nem se fala.

Philip K. Dick, autor da obra que inspirou o filme Ah, a história: no ano de 2019, a terra continua um lixo e, como hoje, os mais espertos fogem das cidades superpopulosas. Graças aos avanços da engenharia genética, tornou-se possível produzir não só animais artificiais (porque a maioria das espécies entrou em extinção), mas também protótipos humanos. Nada demais para quem acompanhou a novela O Clone? O detalhe é que na época em que Phillip K. Dick escreveu o livro, os tataravôs da ovelha Dolly nem tinham soltado o primeiro "bééé" e até os bebês-de-proveta faziam parte de uma realidade distante.

Rick Deckard (Ford) é o blade runner do título, contratado para eliminar quatro replicantes que se misturaram com seres humanos normais. A narrativa, que no original era ambientada em São Francisco, foi transferida para uma Los Angeles sombria e chuvosa. A ambientação é perfeita e empresta elementos da estética noir, com locações inspiradas em Metrópolis (1926), a endeusada obra de Fritz Lang. Por fim, a trilha sonora assinada pelo grego Vangelis, e executada pela The New American Orchestra, não é apenas "supimpa", como confere ao filme o selo definitivo de obra-prima.

 

Ramiro Pissetti

 

Originalmente publicado na edição nº 11 de O Malaco