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Música é o demonho!
Sobram gêneros musicais ligados historicamente ao Tinhoso

As conexões entre o Coisa Ruim e a música são bem anteriores às pseudo-controvérsias causadas pelas bandas de heavy metal. Na Idade Média, teóricos da Santa Inquisição proibiram uma certa progressão de acordes (a mais conhecida é o intervalo entre Fá e Si), sob o argumento de que ela causaria a evocação do Capeta. A esta progressão deram o nome de Diabolus in Musica (literalmente "diabo na música"), que os metaleiros do Slayer aproveitaram para batizar seu penúltimo álbum. Por ser considerada "a dissonância das dissonâncias", a Diabolus... era particularmente desagradável aos ouvidos medievais, acostumados a sons mais harmoniosos. Acabada a perseguição aos hereges, a Diabolus in Musica deixou de ser tabu, sendo utilizada por compositores como Paganini, Beethoven e Wagner.

Outro estilo musical com ligações demoníacas é o blues norte-americano. Histórias sobre músicos que venderam suas almas ao Dianho é o que não faltam. A mais célebre delas é a que conta a história do homem que estabeleceu todos os paradigmas do estilo, Robert Johnson. Depois de anos freqüentando apresentações de velhos bluesmen e tentando, sem sucesso, demonstrar a eles suas habilidades com o violão, Johnson decidiu seguir um estranho conselho. Pegou seu violão e o levou até uma encruzilhada no Mississipi à meia-noite. Do nada, surgiu um homem negro alto, a quem entregou o violão. O homem afinou o instrumento e o devolveu à Johnson. Estava selado o pacto. Em menos de um ano, já havia ganho notoriedade como o rei do Delta blues. Entre seus clássicos, estão canções de títulos como "Me and the Devil Blues", "Crossroads" e "Hellhounds On My Trail".

Mas Johnson teve pouco tempo para aproveitar a fama. Depois de beber uísque diretamente do gargalo, ele começou a passar mal e morreu dias depois, aos 27 anos. Johnson teria sido envenenado por um marido ciumento. Diz a lenda que suas últimas palavras foram: "eu rezo para que meu redentor venha e me tire de minha cova". Foi sepultado em um túmulo sem identificação em 1938. Em 1990, com a caixa The Complete Recordings, Johnson se tornou o primeiro artista de blues a vender mais de 1 milhão de discos. Estaria o pacto ainda em vigor? No Brasil, a mesma lenda existe entre os praticantes da autêntica música sertaneja. Pelo interior do país, pululam histórias de violeiros que venderam suas almas ao Cramulhão.

O filho mais ilustre do blues, o rock 'n' roll, já nasceu com a sina de maldito. Preocupados com suas filhinhas dançando lascivamente ao som da música dos negros, os pais brancos da América do Norte começaram a associar o ritmo com o satanismo. Elvis Presley, Chuck Berry e Little Richard eram vistos como a própria encarnação do Príncipe das Trevas. Aproveitado-se desta polêmica, Screamin' Jay Hawkings começa a se apresentar abusando de efeitos cênicos macabros: o cara começava os shows saindo de dentro de um caixão, sempre acompanhado de um crânio flamejante chamado "Henry". Seus maiores hits foram "I Put a Spell on You" e "Little Demon".

Nos anos 60, os maiores entusiastas de práticas diabólicas foram os Rolling Stones. Andando com companhias suspeitíssimas, como o cineasta e auto-proclamado bruxo Kenneth Anger, os Stones sempre flertaram com o Chifrudo. As histórias que corriam na época diziam que o guitarrista Keith Richards e sua então esposa Anita Pallenberg promoviam rituais de magia negra e vodu em sua casa. E a banda fazia questão de demonstrar suas afinidades com o demônio. Além de batizar um álbum de Goat's Head Soup, eles gravaram a música "Sympathy for the Devil", na qual escancaravam: "Assim como todo tira é um criminoso e todos os pecadores, santos/ Como a cara é a coroa, me chame Lúcifer/ Porque eu mereço algum respeito". Alguns atribuem a misteriosa morte do guitarrista Brian Jones, em 1969, a estes flertes com o Tinhoso. Até mesmo os maiores rivais dos Stones, aquela banda de Liverpool, colocou na capa de seu clássico Sgt. Peppers Lonely Heart's Club Band a foto do maior satanista do século 20, Aleister Crowley.

Outro músico que fez por merecer a fama de adorador de Belzebu foi Jimmy Page. De tão obcecado por Crowley, Page comprou o castelo do bruxo, às margens do Lago Ness. Toda a sorte de boatos acerca de rituais de necromancia no castelo rondavam pelo mundo. Muita gente jura de pé junto que ouvindo a famigerada "Stairway to Heaven" percebe-se frases como "oh, é meu doce satã" e coisas do gênero. Em "Over The Hills and Faraway" diz-se que está escondida a mensagem "Satã é realmente o Senhor". As diversas tragédias vividas pela banda são apontadas como provas de um suposto pacto com forças malignas. Robert Plant quase morreu em um acidente de carro na Grécia. Pouco tempo depois, o filho do cantor, de apenas cinco anos, morreu de uma doença misteriosa. Não bastasse tudo isso, o baterista da banda, John Bonham, morreu em 1980 no castelo de Crowley afogado no próprio vômito depois de beber 40 doses de Hi-Fi, o que selou o fim da banda.

Em 1970 era a vez do Black Sabbath entrar em cena. O primeiro disco, com uma bruxa na capa foi lançado em uma sexta-feira 13 e começava tétrico, com o tilintar de sinos no meio de uma tempestade. A canção arrastada narrava a história de um homem perseguido pelo Cão em pessoa, que queria arrastá-lo para um sabá, espécie de convenção de bruxas. Para botar ainda mais lenha na fogueira, a banda de Tony Iommi e Ozzy Osbourne batizou uma coletânea de We Sold Our Souls to Rock 'n' Roll. Contemporâneo dos ingleses do Sabá, o americano Alice Cooper pegava Screamin' Jay Hawkings como exemplo para seu teatro de horrores, que incluía simulações de enforcamentos e decapitações.

Na cola destes artistas, vieram inúmeros outros grupos de heavy metal que tornaram a temática de adoração a Satanás o maior clichê do gênero. E tome Iron Maidens, Metallicas, Judas Priests e Slayers para engrossar o caldo do Senhor das Moscas. Bandas escandinavas levaram essa história a sério demais e passaram a tocar fogo em igrejas e a cometer assassinatos de verdade.

No Brasil, Raul Seixas pregava que o "Diabo é o Pai do Rock" e baseava sua Sociedade Alternativa no Livro da Lei, de Crowley. De acordo com o site Mensagem Subliminar (www.mensagemsubliminar.com.br), diversos artistas brasileiros usaram da artimanha de gravar ao contrário para louvar o Exu.

Segundo eles, a música "Pais e Filhos", da Legião Urbana, contém os dizeres "Satanás aqui". Em "A Guerra dos Meninos", do insuspeito Roberto Carlos, estariam escondidas as frases " ...O inimigo sim, o mínimo Jeová, essa legião inimiga..." e " ...E esse diabo vai chamar de novo...". Mas quem tem já teria seu lugar no inferno seria Xuxa. A aparentemente inofensiva canção "Meu Cãozinho Xuxo" conteria a mensagem "Meu Anjo é o Diabo e o mundo tem que ter esse seu amor que recebo". E em "Marquei um X", quando ela fala três vezes o X (xis), ela estaria usando um anagrama para six (seis em inglês), significando então six, six, six. A mesma música, quando executada ao contrário, traria a seguinte mensagem: "Jesus é exu, exu é Rei".

Os porto-riquenhos do Menudo também iriam queimar nas profundezas por "Não se Reprima", que tocada ao contrário repetiria "Satanás vive". No site estão os supostos trechos invertidos em MP3 para quem quiser conferir.

Gabriel Rocha

 

 

Originalmente publicado na edição nº 6 de O Malaco