Arquivo
A complexidade
das coincidências
"Vocês
não entenderam. Não sou eu que estou preso aqui com vocês.
Vocês estão presos comigo"
Se
você acha que tem opinião formada sobre gibis de super-heróis
(contra ou a favor) e nunca leu Watchmen, está completamente
por fora. É bem possível que seja olhado com estranheza
se não captar alguma referência matreira à série
escrita por Alan Moore e desenhada por Dave Gibbons em 1985 e publicada
pela Abril duas vezes, em 1988 e 1999 (N.E.: E prestes a ser republicada
pela Via Lettera). É um clássico dos quadrinhos de
super-heróis, tanto quanto o primeiro Cavaleiro das Trevas
era antes de o Frank Miller resolver fazer uma continuação
que rendesse uns trocos para, provavelmente, comprar uma Ferrari ou
dar uma volta ao mundo com a Lynn Varley. Mas isso é literalmente
outra história.
A idéia de Watchmen é
imaginar como seria o mundo se realmente tivessem existido super-heróis.
Com essa premissa, acaba fazendo uma ácida crítica dos
anos da Guerra Fria. Alan Moore, com seu detalhismo obsessivo e ironia
afiada em esmeril, cria esse mundo mostrando as conseqüências
sociais, políticas e até tecnológicas dos heróis.
Os primeiros teriam surgido nos anos 30, em parte inspirados pelos primeiros
heróis de quadrinhos - o primeiro Coruja dizia ter se inspirado
em Action Comics 1, o gibi de estréia do Super-Homem.
A partir dos anos 60, a conjugação de superpoderes com
conservadorismo político foi devastadora. Nixon, por exemplo,
se manteve no poder até 1985, e em certo ponto alguém
menciona o fato de terem encontrado os cadáveres de Carl Bernstein
e Bob
Woodward
em uma garagem. Ah, sim: a impopularidade que os heróis ganharam
por existirem de verdade naquele mundo fez com que gibis como o do Super-Homem
acabassem por ser extintos. Quente era ler gibi de pirata.
Os personagens de Watchmen são
falíveis, muito falíveis. Rorschach é paranóico
e esquizofrênico. Há duas personagens com o nome Espectral,
mãe e filha. A velha se apraz em folhear catecismos à
la Carlos Zéfiro feitos sobre ela quando era jovem. A filha faz
estilo de rebelde, mas gosta da farra de bater em bandido. O segundo
Coruja é um otimista que broxa quando não está
fantasiado. Alguns, como o Comediante (que morre no começo da
história, dando o ponto de partida para a trama), aceitam o papel
de ir para a guerra, mas isso não acontece como ocorreu com os
super-heróis da Marvel no extinto O Conflito do Vietnã.
O Comediante tinha prazer em dar porrada, em puxar fundo o gatilho de
uma metralhadora e esquecer o dedo lá, em estuprar aldeãs
vietnamitas.
Foi
a primeira história "séria" em quadrinhos em
que se pode ver os super-heróis tomando uma cervejinha e falando
mal uns dos outros e dos bandidos que espancam. Mas os dois personagens
mais fascinantes da trama são o Doutor Manhattan e Ozymandias,
o poder infinito e a egolatria de fins que justificam os meios. Ozymandias
forjou sua personalidade espelhado nos faraós e nos grandes conquistadores
da antigüidade. Toda sua personalidade está resumida no
número 11. Mannhattan, forjado pelo átomo, tem uma visão
cosmológica própria, sem lugar para distinções
tão mundanas como passado, presente e futuro. Para ele, tudo
é um contínuo e o fato de alguém estar vivo ou
morto não importa, já que ambos os corpos são formados
pela "mesma quantidade de partículas". O número
4 da série, onde ele é o personagem central, é
um primor de filosofia aplicada aos quadrinhos. O 9, em que ele é
o principal coadjuvante, é um primor de narrativa poética.
Um bom exemplo das diferenças de abordagem entre os dois personagens
é o fato de Ozymandias ver ondas mediúnicas onde Mannhattan
percebe nuvens de táquions.
Watchmen não é uma
série para ler uma vez só. Exatamente pela quantidade
de detalhes. Na primeira leitura a gente deixa de perceber muita coisa.
Alguns fragmentos de diálogo ou detalhes de cena podem ser mais
esclarecedores do que se imagina de início. Um mapa-múndi
casualmente exibido em uma cena sugere que o Brasil teria anexado a
Argentina e o Uruguai, embora tivesse entregue uma enorme fatia da Amazônia.
O tema do holocausto nuclear é onipresente, e a idéia
que embasa a arquitetura da história parece ter saído
direto da música "A Paz", de Gilberto Gil. Não
deixe de ler com muita atenção os textos publicados ao
fim das 11
primeiras
histórias. Por mais insignificantes que pareçam, eles
trazem chaves para entender melhor o que vem depois. Aliás, em
Watchmen nenhum detalhe é insignificante. Num gibi do
Monstro do Pântano publicado originalmente em 1984 (traduzido
aqui em Superamigos 33), Moore escreveu que "a coincidência
é o fio secreto que amarra o mundo". Em Watchmen,
ele transformou isso em técnica narrativa.
Os detalhes também influenciam
a forma da narrativa. Quando ler ou reler a parte 5, "Terrível
Simetria", compare a diagramação dos quadrinhos na
primeira e na última página. E na segunda e na penúltima.
E na terceira e na antepenúltima, e assim por diante. Compare
também os personagens que estão em cada uma delas. Sim,
Alan Moore e Dave Gibbons não tinham mais nada o que fazer. Ainda
bem.
Apesar
de o final ser deixado em aberto, não significa que seja necessária
uma continuação. Há anos o pessoal tem cobrado
de Alan Moore que faça uma continuação de Watchmen.
Talvez uma série dos Minutemen, os heróis dos anos 40.
Há anos, Moore solenemente se recusa a fazer isso. Nunca tinha
convencido muito, até que Frank Miller, em sua pífia continuação
do Cavaleiro das Trevas, deu os argumentos definitivos para ele
prometer seriamente que não vai não fazer isso e a gente
poder acreditar seriamente que ele não pretende fazer. O trecho
abaixo é de uma entrevista recente dada à revista Wizard:
"Com os 25 anos de Watchmen em
2011, você consideraria fazer uma minissérie dos Minutemen?
Não, não, não, não, não, não,
não, não, não, não. Deixe-me dizer de novo:
não! Não vou fazer mais nada relacionado a Watchmen.
Houve apenas 12 edições dela. Essa foi a história
inteira. Esses personagens deixaram de existir com o final do número
12. Não existiram antes do começo do número 1.
Essa é a história toda. E eu não quero trapacear.
Foi um bom trabalho.
Nada
parecido tinha sido feito nos quadrinhos antes, e não acho que
muitas coisas parecidas foram feitas depois. Estou falando sobre o que
realmente era importante em Watchmen, que não eram de
forma alguma os super-heróis - era a forma de contar a história.
Estou muito, muito orgulhoso dela. Acho que fazer seqüências
ou qualquer coisa do gênero só ia baratear o trabalho original.
Poderia existir alguma razão
para você revisitar os personagens de Watchmen? Alguma idéia
que você não usou na série original?
O único motivo para eu fazer isso seria tirar um monte de grana
dos leitores. Por que eu faria isso? É, dava pra fazer alguma
coisa. Imagina como seria fácil eu chegar lá e dizer "olha,
vamos fazer uma minisseriezinha dos Minutemen ou uma sequência
de Watchmen, e vamos botar na rua todos aqueles brinquedos e
bugigangas, e talvez um jogo de computador". Eu podia ganhar milhões
contando com os leitores enganáveis se eu fosse cínico
com eles. Não sou o mais simpático criador de quadrinhos
do mundo, sei disso. Não vou às convenções,
não saio para encontrar meus leitores. Não sou amigável,
não sou fofinho. Sei tudo isso. Mas não é porque
eu não os respeite; é muito porque eu os respeito. Não
quero ver o pessoal me tratando como um deus e não respeitando
a si próprios, então eu fico em casa. Mas eu tenho respeito
pelos meus leitores; não os trato cinicamente. Não os
trato como uma horda de vacas de dinheiro que eu posso ordenhar sempre
que quiser. Sei que eles têm uma afeição genuína
pelo meu trabalho. Muitas vezes eles leram quando eram jovens, e provavelmente
isso vai ter um lugar especial em parte de suas vidas. Aprecio isso.
Respeito isso. Fico genuinamente emocionado com isso. Tenho um grande
respeito por eles e acredito que eles tenham um grande respeito por
mim. Mas não acho que esse respeito aumentaria de forma alguma
se eu tentasse capitalizá-lo.
Marcelo Soares
******
Notas do autor do texto:
1 - É interessante notar que o
final de Watchmen é o 11 de setembro ao contrário - uma
matança provocada em Nova York que põe fim a uma guerra
no Afeganistão.
2 - Sugiro que quem não leu a série
leia número a número com pelo menos uma semana de intervalo
entre os dois na primeira leitura. Pra entrar no clima paranóico
da série.
Originalmente publicado na edição
nº 12 de O
Malaco