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"Segura
essa, Floripa!"
Uma semana de putaria
soft em Santa Catarina
Aquela
era a última coisa que os três malacos escalados para cobrir
esta pauta esperavam encontrar: batalhões de casais bem trajados
sendo recepcionados por duas belas morenas em vestidos longos. O endereço,
data e o horário eram aqueles mesmos, Centro de Convenções
de Florianópolis, sábado, 12 de janeiro, 18h. Mas tudo
estava chique demais. Desconfiado, o trio malaco, munido dos habituais
tênis, calças de moleton, jeans, pochetes (N.E.: Só
o Romeu), camisetas e afins, foi seguindo a fila grã-fina,
até que um cartão entregue por uma das morenas esclareceu
o equívoco. Naquela entrada, a principal do Centro, tava rolando
uma formatura. Nada a ver com os interesses deste site. Meia volta,
saída pela direita, na entrada secundária do prédio
encontramos o ar esperado. Num lugar com pinta de galpão agropecuário,
um negão fazia a revista usando detector de metais. Agora sim,
estávamos presenciando o último dia da primeira edição
da Erotika Fair em Santa Catarina.
Pacata como ela só, Florianópolis
não tem muita tradição ou diversidade na área
do sexo mediante remuneração. Se o sujeito tiver fôlego
suficiente, pode cobrir todo o circuito da sacanagem na cidade em uma
única noite. Há menos de meia dúzia de puteiros
na capital (sempre anunciados como saunas ou whiskerias) e, claro, temos
nossa própria Vila Mimosa. A rua Conselheiro Mafra, no trecho
em que concentra hotéis populares, reúne as prostitutas
mais baratas, e mais acabadas, da cidade. Até o único
cinema pornô florianopolitano foi fechado pra dar lugar a uma
dessas igrejas tipo fast food.
Sendo assim, não foi novidade que
o evento, depois de causar furor em São Paulo, Salvador e Curitiba,
ter dado pouco movimento em sua versão catarina. Duas barracas
de sex shop eram a única coisa que dava a moral pra chamar o
negócio de feira. No mais, havia uma exposição
de desenhos supostamente eróticos (ou erotikos, como parece preferir
a organização), um palco e uma casa cercada com buracos
de fechaduras para os showzinhos ao vivo, seis áreas reservadas
para brincadeiras cobradas à parte do preço do ingresso
(10 pilas) e um pequeno bar. Resumindo: quem foi pra lá esperando
um climão liberou geral, meio Sodoma e Gomorra, se deu mal. Nenhuma
trombeta divina foi ouvida, nem pessoas foram transformadas em estátuas
de sal.
Adriana/Docinho
- Durante as seis horas diárias do evento, que ficou na cidade
por uma semana, a rotina era a mesma. A cada meia hora havia um rodízio
entre as apresentações ao vivo. No palco, logo de cara,
pudemos presenciar a picaretagem em ação. A primeira mina
a tirar a roupa na noite foi anunciada como sendo Adriana, uma loira
de cabelos curtos e tatuada. Beleza. A roupa foi caindo e, apesar de
uma barriga que a deixaria de fora de qualquer concurso de modelos,
a dona deu conta do recado. Passam os minutos e no segundo strip tease,
surpresa! O japonês que organiza a feira erótica anuncia
o "nome" da "nova" garota: Docinho. Chegando perto
dava pra notar a semelhança com a outra senhorita, das tatuagens
aos pelos pubianos. Na verdade, a única diferença era
a peruca esquisita utilizada por Docinho... Atenção Procon:
uma única buceta acabava de ser vendida pelo preço de
duas.
Depois de revolucionar o conceito de cara-de-pau,
Adriana/Docinho virou o que pode ser chamado de carne de vaca, protagonizando
a imensa maioria dos shows daquela noite. Quando não era ela,
ou seu clone, ocupando o centro das atenções, o palco
abria espaço para a chamada lamba-erótica (feminina e
masculina) ou para uma drag mala cantando baboseiras (o nome da criatura,
creia, era Perturbada Vogel). Teve ainda o show mais inusitado da noite.
Quando o japa chamou a nova stripper foi possível perceber que
o perfil dela era ainda maior que o das suas já avantajadas colegas
de trabalho. Foi quando o cara berrou o motivo: "Apesar de estar
grávida de três meses, fulana não perdeu sua sensualidade".
Os leitores vão ter que perdoar, mas não deu pra anotar
o nome da futura mamãe. Nessas horas, o japa gritava o bordão
da feira - "Segura essa, Floripa!"
Fazendo dobradinha com os espetáculos
do palco, tinha a tal casa esburacada, identificada por uma placa como
"Voyer" (sic). Era algo como uma Casa dos Artistas sem o edredon,
já que até o símbolo, o buraco da fechadura, era
o mesmo. Ao todo, 33 deles se dividiam pelas quatro paredes, em três
níveis de altura diferentes, o que muitas vezes levava a massa
de tarados a ficar em posições bem ridículas. Pra
piorar, nesses momentos o japa, aquele, mudava o bordão para:
"Tá todo mundo olhando pelo buraquinho da fechadura",
ou, ainda, "Calma, calma, tem buraco pra todo mundo". Por
dentro da casa, pessoas se apresentavam fazendo desde sexo explícito
até simulações pilantras. Além da nossa
conhecida Adriana/Docinho, a fauna que habitou o lugar contou com uma
dupla masculina (algo que os malacos se recusaram a presenciar) e outra
de mulheres. Aqui o Procon merece ser acionado novamente. A morena,
ao contrário de sua parceira loira, se recusou a baixar a calcinha,
para desgosto da galera.
Ver,
tocar, ser tocado - Fora esses espetáculos culturais, cobertos
pelo valor do ingresso, o evento deixou à disposição
do povo seis opções de brincadeiras, ao custo de dois
contos cada uma. Conforme nos explicou um dos carinhas da organização,
essas brincadeiras se dividiam entre aquelas em que você podia
ver, mas não podia tocar ou ser tocado; outras em que se era
tocado, mas nada de ver, nem tocar. Num lugar cheio de sujeitos esquisitões,
de sunga e sem camisa, esse papo de tocar ou ser tocado por algo ou
alguém sem que se possa enxergar o que está acontecendo,
nos pareceu demasiadamente arriscado. Por isso, para praticarmos aquilo
que pode ser chamado para fins acadêmicos de "Gozo Journalism",
escolhemos uma opção em que era possível ver e,
em menor escala, tocar e ser tocado.
"Massagem Erotika" é
o nome da brincadeira escolhida. Ou melhor, dois terços da equipe
escolheu. O terceiro integrante do nosso esforço de reportagem
chocou a todos ao se revelar o último dos românticos. "Não,
só faço por amor", declarou o rapaz. Seja como for,
os dois reais valeram a atenção de uma morena gostosona
(certamente ela estava entre as top five daquela noitada) vestindo um
biquini preto. Durante o que devem ter sido uns 10 minutos, a morena
cujo nome também se perdeu na nossa memória coletiva,
dançou, simulou uma siririca, fez umas caretas e deu uma bela
dançada no colo dos repórteres (só pra ficar claro,
um de cada vez). A garota só fez uma quantidade exagerada de
doce na hora de ser tocada. Nos peitinhos, então, nem pensar.
O ponto negativo foi uma máquina estúpida que ficava tremendo
feito lavadora velha, sobre a qual os clientes eram obrigados a apoiar
os pés. E quando uma das pernas saia do lugar, a morena mostrava
que sabia ficar zangada...
Romeu Martins, Gabriel
Rocha e Fabrício Rodrigues
Originalmente publicado na edição
nº 8 de O
Malaco
Imagens da Erotika Fair em São Paulo: www.abalada.com