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O boca torta já foi legal
Oito motivos para não odiar Sylvester Stallone

Antes de ler as próximas linhas, esqueça que ele protagonizou bombas como O Juiz, O Especialista, Minha Filha Quer Casar e, mais recentemente, O Implacável – A Verdade Machuca. Também desconsidere as ridículas trilhas sonoras que ajudou a selecionar para alguns de seus filmes – afinal, muitas vezes ele estava apenas descolando um bico para o irmão e músico medíocre, Frank Stallone. Outra sacanagem seria colocar nas costas do sujeito toda a culpa da proliferação das seqüências em Hollywood (há quem defenda que a prática só virou mania depois dos sucessos de Rocky e Rambo e suas respectivas continuações).

Na verdade, Sylvester Stallone não merece homenagem deste site apenas pela malaquice com que vem conduzindo sua carreira. Esta matéria tem por finalidade principal reparar uma injustiça iniciada com a famosa disputa Stallone X Schwarzenegger, em meados dos anos 80. De lá para cá, os críticos vêm pendendo para o lado do segundo troglodita por um único motivo: sua atuação em O Exterminador do Futuro. Pudera! Para interpretar um andróide musculoso, basta manter a boca fechada, realizar movimentos robóticos e caprichar na dose de anabolizantes.

Já na filmografia de Stallone, é possível encontrar muito mais do que um momento “inspirado”. Constam no seu currículo, a elaboração de diversos roteiros eficientes, algumas direções satisfatórias e até indicações para o Oscar (não que o prêmio signifique muita coisa). E, se alguém ainda insiste em dizer que o austríaco é menos pior ator, lançamos o desafio para que seja apresentado um número equivalente de filmes bacanas protagonizados por Schwarza:

Bananas (Bananas) - 1971
Direção: Woody Allen. Com: Woody Allen e Louise Lasser.

Stallone comeu o pão que o diabo amassou com o rabo antes de fazer sucesso no cinema. Depois de visitar todos os estúdios possíveis, o grandalhão conseguiu uma ponta como trombadinha num filme secundário de Woody Allen. Escancarando com o terceiro mundo e o regime de Fidel, Allen interpreta um piloto de testes que vai para a América do Sul e acaba comandando uma revolução.

Os Lordes de Flatbush (Lords of Flatbush) - 1974
Direcao: Stephen Verona e Martin Davidson. Com: Perry King, Henry Winckler e Susan Blakely.

As andanças de uma gangue na Nova Iorque do final da década de 50 são registradas neste filme que virou cult das madrugadas globais. Sly (apelido dado por amigos boiolas) aproveitou a deixa para exercitar-se como roteirista, função que iria retomar em diversas outras oportunidades. Na trilha sonora, constam alguns clássicos do rockabilly. Diversão mais do que garantida.

Rocky, Um Lutador (Rocky) – 1976
Direção: John Avildsen. Com: Burgess Meredith, Talia Shire e Carl Weathers.

Na metade dos anos 70, a Guerra do Vietnã e o escândalo de Watergate deixaram o povo dos EUA quase tão cabreiro quanto no último dia 11 de setembro. Neste período de incertezas e de baixa auto-estima, Rocky, Um Lutador caiu “como uma luva”. O filme rendeu quatro continuações, dez indicações para o Oscar (duas, pasmem, para o próprio Stallone, de Melhor Roteiro e Melhor Ator) e muita, mas muita da grana. A partir daí, as portas se abriram definitivamente para o fortão, que ocupou o posto de garoto-propaganda da chamada “Era Reagan”. Já Talia Shire (Adrian), Carl Weathers (Appolo Creed) e Burt Young (o Polly), garantiram o cabidão por mais de uma década.

Fuga Para a Vitória (Victory)
Direção: John Hurt. Com: Michael Caine, Pelé e Bobby Moore.

Stallone goleiro? Atuando ao lado de Pelé? Dois motivos que justificam não só a locação, mas a aquisição da fita. Durante a Segunda Guerra, oficiais alemães decidem promover um jogo de futebol entre militares e prisioneiros, a fim de demonstrar a superioridade da raça ariana. O time de presos, formado por jogadores de diferentes nacionalidades, aceita a proposta somente para tentar colocar em prática um plano de fuga. Pelé deve ter sido contratado para demonstrar que o americano está longe de ser o pior ator do mundo.

Taberna do Inferno (Paradise Alley) - 1978
Direção: O próprio. Com: Lee Canalito, Armand Assante e Anne Archer.

Dois anos depois de encarnar o boxeador mais bem-sucedido da história do cinema, Stallone voltou aos ringues, mas para uma outra modalidade esportiva. No primeiro filme escrito e dirigido por Sly, três irmãos acreditam que vão ganhar grana no mundo da luta livre, mas acabam descobrindo que o buraco é mais embaixo. Fotografia bem-elaborada e uma narrativa criativa contam a favor desta obra, que a Rede Globo dificilmente exibia antes das duas da madrugada.

F.I.S.T. (F.I.S.T) - 1978
Direção: Norman Jewinson Com: Rod Steiger e Peter Boyle.

Poucos sabem que aquele que foi o símbolo do anticomunismo nos anos 80, já encarnou um líder sindicalista. Cansado de trabalhar para o diabo dar risada, o funcionário de uma fábrica se filia ao Sindicato dos Motoristas de Caminhão, na década de 30. Depois de conseguir um certo respaldo com a classe, ele se envolve com o crime organizado. F.I.S.T. é inspirado na vida de Jimmy Hoffa, que no Brasil poderia ser enquadrado perfeitamente no termo “pelego”.

Falcões da Noite (Nighthawks) - 1981
Direção: Bruce Malmuth. Com: Rutger Hauer, Billy Dee Williams e Lindsay Wagner.

Um terrorista internacional azucrina Nova Iorque (não é o Bin Laden). O trabalho de capturar o bandido fica a cargo de uma dupla de policiais para lá de malacos. Aqui, Stallone deixou a barba e o cabelo crescerem e meteu um óculos estilo ambervision para encarnar o agente Da Silva. Além de ser legalzinho, o filme oferece duas oportunidades raras para o espectador: ver Stallone travestido e Rutger Hauer num papel convincente.

Rambo – Programado para Matar (First Blood) - 1982
Direção: Ted Kotcheff Com: Brian Dennehy e Richard Crenna (dois canastrões de quinta).

John Rambo é um ex-fuzileiro que ficou perturbado graças à Guerra do Vietnã e busca se reintegrar à sociedade. Após a tentativa inútil, ele acaba se desentendendo com a polícia e passa a ser perseguido até o final do filme. O legado de Rambo é extenso. A clássica briga entre SBT e Rede Globo (que está cada vez mais longe de terminar), o hilário concurso “Rambo Brasileiro”, duas continuações, uma pior que a outra, e meia dúzia de roteiros para o quarto episódio, que a humanidade reza para que não saia. Mas é importante destacar a diferença entre o primeiro filme da série e os demais. Em Rambo - Programado Para Matar, não existe um décimo dos exageros contidos em Rambo II – A Missão ou Rambo III. Isso porque o enredo mantém uma certa fidelidade ao livro homônimo de David Morrell, cujo objetivo não era criar um super-herói para representar os EUA na Guerra Fria. Por mais que não tivessem feito uma obra-prima, tanto Morrell (o escritor), quanto Ted Kotcheff (o diretor), só queriam demonstrar os efeitos colaterais de mais uma guerra promovida pelo Império Americano. Além de ganhar alguns trocados, é claro.

Ramiro Pissetti

 

Entrevista originalmente publicada na edição nº 7 de O Malaco.