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Lixoteca básica
Alguns discos essenciais
para você jogar frisbee com seu cachorro, brincar de disco voador,
presentear a(o) ex, ou para servir como fogueira para o churrasco.
JIMI
HENDRIX - NYC '68 with Jim Morrison
Poucas coisas no mundo conseguem
ser tão irritantes quanto um bando de hippies bêbados com
instrumentos na mão. E isso também serve para o guitarrista
mais importante do século. Tido como "raro", este disco
pode ser facilmente encontrado em balaios de supermercado por menos
de R$ 5. Qualquer fã de um dos músicos que se achar um
felizardo por ter adquirido esta "relíquia" pirata
vai mudar de opinião assim que o disco começar a tocar.
Ainda mais quando Jim Morrison começa a grunhir no microfone,
o que lhe valeu até uma faixa exclusiva: "Morrison's Lament".
Vá lamentar pro diabo que te carregue, ô praga! Não
satisfeitos em ficar tocando merdas inaudíveis, os dois ainda
cometem uma "versão" de "Tomorrow Never Knows",
dos Beatles, que pode ser qualquer coisa, menos uma cover dos Fab Four.
Belo exemplo para uma propaganda do Ministério da Saúde
contra o alcoolismo.
ZECA
BALEIRO - Todos
Como comentar todos os discos
deste gênio da língua portuguesa seria uma tortura grande
demais para qualquer pessoa em sã consciência, vamos pegar
seu álbum mais conhecido: Por onde andará Stephen Fry?
Mas que raios alguém se importa por onde anda Stephen Fry, Martin
McFly, ou seja quem diabos for? Se o senhor Baleiro caísse sem
pára-quedas no meio do fogo cruzado entre judeus e palestinos,
aí sim seria uma informação relevante. Não
fosse por esse disco, o mundo estaria livre de "canções"
como "Heavy Metal do Senhor" e "À Flor da Pele".
Isso sem contar a genial interpretação de "Proibida
Pra Mim", uma genial canção dos igualmente geniais
Charlie Brown Jr, incluída no recém-lançado e genial
Líricas. Os títulos que esse cidadão que
emporcalha a cultura da terra do ex-presidente Sarney põe nas
músicas são apenas a cereja do bolo, indicando que logo
ali, nas letras de cada canção, muita porcaria ainda está
pra vir.
LEGIÃO
URBANA - As Quatro Estações
No quarto disco de sua banda,
o "punk" virou definitivamente um "poeta". Talvez
porque já estivesse cansado de querer saber em que país
morava ou de xingar a molecada que bebia coca-cola. Infelizmente, os
nerds desta mesma geração acharam bonito e começaram
a endeusar a baboseira literária de Renato Russo. Frases como
"quero colo, vou fugir de casa", "eu gosto de meninos
e meninas" (ih..) e "parece cocaína mas é só
tristeza" viraram hinos nas insuportáveis rodinhas de violão.
E para coroar um disco que é pretensioso até no nome,
há "Pais e Filhos", a legítima "Stairway
to Heaven" da língua portuguesa, com tudo de ruim que essa
comparação dá direito.
LED
ZEPPELIN - IV
A herança maldita
da banda considerada uma das melhores do rock foi consolidada 18 anos
depois do lançamento de seu quarto disco, o "sem nome",
quando uma telenovela brasileira incluiu a balada épica "Stairway
To Heaven" no seu repertório de canções internacionais,
ao lado de podreiras como Oingo Boingo, Suzanne Vega e outros bagulhos.
E assim o Led Zeppelin teve o castigo que merecia. Nem mesmo as últimas
quatro músicas salvaram o disco de um calvário bíblico.
Junto com "Stairway...", que virou motivo de piada até
em Hollywood e também numa letra de Alice Cooper, a miséria
do disco é garantida por "Rock And Roll" e "Black
Dog", tocadas por quinze em cada dez bandas de rock de adolescentes
que dariam o dedo para estar vivendo nos anos 70 (o Black Crowes deve
liderar esta lista). Perfeito para ouvir ao lado de fãs de Raul
Seixas e Janis Joplin, isto é, no quinto dos infernos ou numa
sala acolchoada.
BARÃO
VERMELHO - Puro Êxtase
Se há uma cruz que
os fãs brasileiros dos Rolling Stones têm que carregar
é o fato de que, se não houvesse Mick Jagger, não
haveria Roberto Frejat. Depois de alguns bons momentos na carreira,
a banda carioca consegue afundar de vez o pé na merda com um
disco que não serve para rock, nem para pop radiofônico
e muito menos para o tecno. Quando o Barão Vermelho descobriu
que música eletrônica era "cool", o resto do
mundo já tinha reinventado a fórmula e deixado o modismo
de lado há um bom tempo. Coisas de país-colônia...
Não bastasse o passo em falso na área eletrônica,
Frejat e comparsas precisaram chupar "If not for you", de
Bob Dylan, para ter um hitzinho bem chinelo na rádio ("Por
você").
ANGRA
- Angels Cry
Os próprios desafetos
da banda devem achar que eles conseguiram fazer discos piores que esse.
Eles podem estar certos, mas se não existisse essa masturbação
instrumental, o mundo teria um bando de grupos de "heavy metal
melódico" e um xerox de Helloween a menos. Como levar a
sério um "metaleiro" que tem como musos inspiradores
pessoas como Kate Bush e o cantor do A-Ha, Morten Seiladoquê?
Com a pretensão de misturar peso com melodia usando nome de usina
nuclear, o único resultado que o quinteto paulista consegue é
criar uma bomba. E das grandes.
JEAN
MICHEL JARRE - Oxygene
Um motivo óbvio basta
para a execração do disco: ele é tocado por um
francês. E antes que bandas como Mano Negra, Air e Daft Punk viessem
tirar do limbo a cultura musical de seu país, durante os anos
70 a música popular na França se resumia a crooners chatíssimos
(de Charles Aznavour a Edith Piaf pra baixo), canções
para motel (aquela do "je t'áime" sussurada) e Jean
Michel Jarre. Enquanto que, na mesma época e no país ao
lado, o Kraftwerk se tornava uma referência mundial por tocar
melodias pop eletrônicas com muito sarcasmo e originalidade, o
francesinho seguia a herança maldita de bandas progressivas (especialmente
o Emerson, Lake & Palmer) e gravava discos com uma só música
subdividida em trocentas partes, como esse Oxygene (cujo título,
vinte e tantos anos depois, veio a inspirar outra grande praga divina,
o Jota Quest). Quem adorava Jarre era a Rede Globo, que costumava comprar
seus shows tecnológicos para transmitir a cada final de ano.
Mesmo com essa laia execrável de artistas, a música francesa
acabou evoluindo (e não deve ter sido por causa daquela "Voyage,
voyage"). Não se sabe como nem por que, mas evoluiu.
TITÃS - Titanomaquia, Domingo,
Acústico, Volume 2 e As Dez Mais
Se
for realmente verdade que a capacidade de adaptação é
um pré-requisito básico para a inteligência humana,
então pode se dizer que os Titãs são a banda mais
esperta do rock brasileiro. De cara, podemos perceber que a teoria é
totalmente falível. Esse septeto, que chegou a ter nove integrantes
fixos (noneto?), já teve a fase "vamos tocar no seu radinho",
depois virou anarco-punk, acabaram se tornando os queridinhos dos cânones
baianos da MPB e, na última faceta antes de se tornarem realmente
uma piada de mau gosto, gravaram um disco repleto de escatologias (Tudo
ao mesmo tempo agora, em 91). Agora, vamos explicar os motivos de
cada um destes cinco discos figurarem nesta honorável lista.
Titanomaquia, ao contrário do antecessor, pegou carona
na "febre do metal" do início da década e se
valeu do rock pesado e do grunge para voltar à vida. Oportunismo
é elogio. O seguinte, Domingo, é o mais chapa branca
de todos, ou seja, não caga nem desocupa a moita. Tentam, mas
não envenenam mais as guitarras (afinal de contas, Kurt Cobain
já era defunto e o grunge, coisa do passado), as melodias são
fracas como as letras, sem a ironia que uma vez foi a marca dos Titãs.
Acústico era o disco que faltava para a consagração
na MTV. Infelizmente, esta merda vendeu pra cacete. E a banda voltou
a aparecer no Faustão, no Gugu, no Aqui Agora, na casa do c***...
Volume 2, picaretagem ainda maior, era uma sequência do
acústico, cagando ainda mais nas músicas do passado (relativamente)
saudoso. E em As Dez Mais, os sete mentecaptos chegaram ao cúmulo
de regravar Mamonas Assassinas. Depois dessa, mereciam levar uma surra
de cinta do "amigo" Gilberto Gil.
Fabrício Rodrigues
Originalmente publicado na edição
nº 1 de O
Malaco