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O festival do
consenso, versão 2003
Os convidados de sempre
fazendo o show que todos já viram antes
O
clima é de festa, sol, praia e... consenso. Sim, porque assim
que se chega na estrutura montada para o festival Planeta Atlântida,
que se repete há quase uma década na região Sul,
nada pode ser ruim. Independentemente da qualidade das bandas, dos serviços
oferecidos, e até mesmo da segurança pública, tudo
é bom. As bandas sempre levam o público ao delírio,
os ingressos sempre estão esgotados, os banheiros sempre estão
limpos, a comida nunca é cara e, já que ninguém
fala mal mesmo, é porque ruim não pode ser.
Em Florianópolis, esta é
a sexta edição do evento, que leva o nome de uma famosa
emissora de rádio em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, e
que tem divulgação massiva em toda a grade de horário
de uma das maiores redes de televisão do país, a RBS (retransmissora
da Globo em SC e no RS). É claro que, investindo tal montante
(não divulgado) na "maior festa do verão no Sul",
tudo tem que ser bom. Sempre. E como a imprensa local, ou boa parte
dela, costuma fazer vistas grossas, críticas e questionamentos
fazem um "planeta" sempre excelente. Afinal de contas, são
sempre os mesmos convidados que fazem a mesma festa.
A
banda santista Charlie Brown Jr. (foto), por exemplo, esteve em todas
as edições do Planeta Atlântida. O Jota Quest é
aluno assíduo desde o ano 2000. Skank e Capital Inicial vêm
um ano sim, outro também. Sim, temos as exceções,
como a participação de Tim Maia em 1998 (que fez em Florianópolis
seu último show completo, vindo a falecer no Rio de Janeiro um
mês depois), de Jorge Ben Jor em 2002 e no "sambista que
embalou o penta" Zeca Pagodinho, neste ano. Fora eles, grupos e
cantores como O Rappa, Titãs, Barão Vermelho, Engenheiros
do Hawaii e Lulu Santos são mais do que VIPs, dependendo apenas
do lançamento de um disco ou de um hit (se tanto) para garantir
a presença ao longo dos anos. Até o Men At Work, grupo
australiano de muito sucesso no ano em que Footloose era o filme
do momento, virou a atração principal do planeta, em 2000.
Mas eles não tocaram mais de trinta minutos. Porque certos consensos
ficam menos convincentes com o passar do tempo...
Foi graças a essa "força
ao rock nacional" que o Planeta Atlântida proporciona, que
as bandas que protestaram contra a escalação anti-nacionalista
do Rock In Rio III (todas já citadas acima, por sinal) aproveitaram
este festival de verão para, em 2001, descer a lenha contra os
promotores do evento do Rio de Janeiro. Vieram todos e outros mais,
trocando elogios mútuos e lustrando seus egos, numa comunhão
raras vezes vista na história do showbiz nacional. Aqui, Carlinhos
Brown pediu paz e foi novamente ovacionado. Só que com aplausos
e gritos de "Brasil, Brasil", não com garrafas d'água
anti-nacionalistas.
Naquele 2001, a chuva forte acabou causando
a queda de uma das torres de luz do palco principal, ferindo algumas
pessoas durante o show de Lulu Santos e provocando o cancelamento dos
demais shows daquela noite. Para evitar um fiasco maior e, pior ainda,
o risco de indenizações milionárias, os organizadores
promoveram um show gratuito dois meses depois com as atrações
que não puderam se apresentar na noite do dilúvio. E todos
ficaram felizes. E o consenso venceu de novo.
Leia aqui como foram os shows do primeiro
e do segundo
dia do Planeta Atlântida do ano passado, e veja se mudou alguma
coisa de lá pra cá.
Fabrício Rodrigues
PS: Na edição deste ano,
a maior novidade é a presença de bandas alternativas à
programação óbvia do festival, como Los Hermanos
e Sepultura que tocam no mesmo dia, intercalados por Jota Quest e CPM
22. Depois reclamavam da escalação de bandas do Rock In
Rio...