Arquivo
- Cidade de Deus
Nem
tudo está perdido
(Cidade
de Deus). BRA, 2002. Direção de Fernando Meirelles e Kátia
Lund. Alexandre Rodrigues, Leandro Firmino da Hora, Douglas Silva, Matheus
Nachtergaele, Phelippe Haagensen, Seu Jorge. 127 min.





O
momento é decisivo para os rumos do país e o mesmo pode
ser dito sobre o cinema nacional. Após o desgaste dos oito anos
da "república tucana" e das tentativas de emplacar
engodos como Roseana Sarney e Ciro Gomes, parece que enfim o Partido
dos Trabalhadores seduziu a massa para chegar à Presidência.
Se isso vai realmente mudar alguma coisa, são outros quinhentos,
mas a perspectiva está aí... No cinema, algumas baixarias
ainda continuam sendo produzidas (vide A Paixão de Jacobina),
mas o cabecismo-glauberiano-pós-moderno-retrô-do-cacete
parece que enfim está dando lugar a produções com
menos atores globais, temáticas mais oportunas e algum interesse
social. Se isso vai trazer alguma mudança definitiva, só
poderemos responder com certeza daqui a alguns anos, mas pelo menos...
Cidade de Deus, com seu exército
de atores semi-profissionais, seu modesto custo de R$ 3,3 milhões,
e seu incômodo realismo, vai naturalmente ocupar um espaço
de referência dentro da filmografia nacional, por uma série
de fatores bem sucedidos - um deles é a depuração
da longa narrativa que havia no livro homônimo de Paulo Lins.
Ao casar diferentes situações na pele de um mesmo personagem
(algo que Lins já havia feito no romance), a narrativa ganha
em agilidade e coesão. Nada que tire alguns dos defeitos do filme,
como a pouco utilizada relação dos moradores com a religião
"não-oficial" ou mesmo o texto metido a "cool"
de alguns trechos da narrativa.
Fora isso, Cidade de Deus é
um filme impecável. Exagera na violência sim, mas sem tirá-la
da nossa realidade. Capricha no visual moderno, como nas mais caras
peças de publicidade, mas isso depõe a favor do filme,
pois mostra um esmero de produção em todas as frentes,
da escolha dos atores à fotografia, ambientação,
contexto histórico. E exclui algumas escapadas do livro de Lins,
como chamar cocaína de "Brizola" (ironia comum no Rio
de Janeiro no final dos anos 80, ou seja, anos depois do período
em que a história se passa).
Tudo começa nos primeiros anos
da ditadura militar, em meados da década de 60, quando o governo
fluminense decide despejar dezenas de famílias pobres numa área
afastada do centro do Rio de Janeiro, a "Cidade de Deus" propriamente
dita. Dali, surge o "Trio Ternura", três moleques que
a partir de assaltos a caminhões de gás, se tornaram o
"terror das cercanias". A geração seguinte,
liderada por Zé Pequeno já escancara mais na violência
e tem como objetivo tomar todas as bocas de fumo da Cidade de Deus.
Nessa época, em plenos anos 70, a cocaína já tinha
se tornado o grande negócio do narcotráfico.
No "núcleo do bem" de
Cidade de Deus estão Buscapé - irmão de
um dos integrantes do Trio Ternura -, guri trabalhador que até
tentou partir pro crime, mas achava todo mundo "legal pra caramba"
pra ser assaltado, e Benê, braço-direito de Zé Pequeno,
traficante cujo sonho é comprar uma fazenda, comer sua mulher
e fumar maconha. Buscapé acaba virando fotógrafo do Jornal
do Brasil, onde ganha a chance de ser o único da cidade a
conseguir entrar nas bocadas da Cidade de Deus e registrar a guerra
declarada entre as facções de Zé Pequeno e do justiceiro
Mané Galinha.
Enquanto alguns vão suspirar, encher
o peito e, do alto de suas preocupações mundanas, dizer
que "com essa, finalmente ganharemos o Oscar", como se fosse
a coisa mais importante do mundo, quem convive no meio do caos social
no qual o Brasil se encontra vai perceber que a sanguinolência,
os tiroteios e a marginália toda descritas não fazem parte
de uma obra fantasiosa, maquiada para a classe dominante ficar se exibindo
nos festivais de cinema. Que o diga o juiz da vara da Infância
e Adolescência do RJ, Siro Darlan (que pretende processar a produção
por incluir menores em cenas de violência) e o próprio
governo do Rio (também na fila para entrar com um processo, alegando
que os realizadores tiveram que negociar com os traficas para poder
filmar nos locais mais "reservados"). Por essas e outras,
Cidade de Deus pode ser considerado, facilmente, o filme definitivo
sobre a violência e a marginalização de classes
no Brasil.
Fabrício Rodrigues
Texto originalmente publicado
na edição nº 11 de O
Malaco.
Cotações:




Cannes



Berlim


Oscar

Grammy
Nobel da Paz