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Mamma Mia! Que filme...

O que caracteriza um filme bom para você?

Pra mim, existem dois caminhos que podem tornar um filme memorável. Um, é uma história excelente, um roteiro bem-construído e bem amarrado, impecável, sem absolutamente nada que desfaça sua credibilidade - gosto muito, aliás, de filmes que façam com que me sinta burra. Um ótimo exemplo é 'O Sexto Sentido', de M. Night Shyamalan, aquele em que o personagem do Bruce Willis é um psicólogo que atende um garotinho que vê pessoas mortas. O óbvio estava ali, na minha frente, e só percebi no final, quando a coisa começou a ficar óbvia. 'Os outros', de Alejando Amenábar, também foi inteligentíssimo neste sentido. Já em 'A Vila', a fórmula já havia sido usada não uma, mas duas vezes, e a história do grande segredo no final foi tão forçada que não tive outra opção senão odiar aquele filme. Sou capaz de amar 'Mais estranho do que a ficção' ou 'Quero ser John Malkovich, porque suas premissas são nonsense e deliberadamente falsas, e odiar um filme de super-herói como 'Batman, o Cavaleiro das Trevas', mesmo tendo adorado este último 'Superman', porque o título de 'Cavaleiro das Trevas' não foi honrado, simples assim.

O outro caminho para a glória cinematográfica é aquele caminho que só mesmo uma boa dose de subjetividade para explicar! 'Rocky Horror Picture Show', por exemplo: é um mito, há todo um universo em torno do filme que faz com que as atuações canastríssimas e aquela história porca que desanda lá pela metade, depois que Rocky nasce e Dr. Frank'N'Furter canta 'I can make you a ma-a-a-a-a-n!!' alcem 'Rocky Horror Picture Show' ao posto de clássico, independente da qualidade do roteiro, direção, atuações ou qualquer critério.


- I see you suffer with anticip... ation

Talvez sejam as músicas - convenhamos, para entender um musical você precisa deixar o senso crítico em casa. Só a falta de senso crítico explica o gosto por um gênero cinematográfico em que as pessoas cantam no meio da rua, dançam no meio do hospital, em que arranjos musicais aparecem do nada e personagens que nunca se viram executem coreografias perfeitamente sincronizadas. Partindo deste princípio, que o senso crítico ficou pra trás há muito tempo, não existe outra opção senão entrar no clima e curtir aquilo, por pior que seja.

Agora pensa comigo: se você não gosta de ABBA, por que então foi ao cinema ver 'Mamma Mia', que você já sabia que era um musical costurado por músicas do grupo sueco?

Pois é.

Mas eu amo ABBA. Mesmo. Não, cara, tou falando sério. Não é pelo chacundum de 'Fernando', nem pelos cabelos, figurinos ou pela aura de breguice - tudo isso é muito pequeno e não quer dizer nada se comparado à música bem-feita, ao pop redondíssimo escrito e arranjado por Benny Andersson e Björn Ulvaeus e às vezes lindamente, às vezes divertidamente cantado por Agnetha Fältskog e Anni-Frid Lyngstad. ABBA é muito mais do que hits gays - imagine um Carpenters em dobro e muito mais animado. Quanto às roupas e cabelos, ora bolas! O que seria da Cher sem o glamour ou do Kiss sem as máscaras? Você consegue imaginar como seria o Manowar se houvesse superego? Arte e superego são coisas totalmente incompatíveis!

Pois eu tenho LPs de vinil do ABBA em casa, canto todas as músicas, faço dancinhas - por que raios deveria me preocupar com atuação ou roteiro de um musical costurado pelas minhas músicas preferidas? E mais: numa sala de cinema em que pessoas que não gostam de ABBA passam longe, como evitar de cantarolar as músicas junto com os atores? Olhei pra trás e estava todo mundo fazendo. Nascia um clássico.

Um clássico, não necessariamente bom.

A história da menina que nunca conheceu seu pai e rouba o diário da mãe às vésperas de seu casamento, para descobrir que sua mãe andou com três caras naquele mês há vinte anos atrás - e chama os três, na esperança de saber quem é seu progenitor e ser conduzida ao altar por ele - é absolutamente capenga. Todos os atores e atrizes, por mais gabarito e dignidade, estão absolutamente canastrões. Mas, ah, vamos lá: um musical costurado por músicas do ABBA não pode ser levado a sério.

Quando você entende isso, mas entende mesmo, e admite os diálogos horrorosos, os personagens comicamente grotescos (como a amiga de Donna que mais parece uma drag ou o barman do mundo bizarro) e as situações constrangedoras (a tiazinha correndo atrás do tiozão desesperadamente, e todas, eu digo TO-DAS as soluções que brotam no final) como parte fundamental de 'Mamma Mia', e em vez de ficar puto você entra no clima de breguice instaurada, subitamente o filme se torna uma das coisas mais divertidas que você já viu nos últimos tempos: as lindas ilhas gregas servem de cenário para trinta rapazes de sunga dançando num píer enquanto alguém canta 'Gimme! Gimme! Gimme! (A Man After Midnight)', música cujo próprio título já se encarrega de te fazer imaginar coisas terríveis. Você, profundo conhecedor da obra do ABBA, consegue identificar perfeitamente o momento em que as músicas virão - como quando, numa espécie de ABBA Gold ilustrado, você não sabe se ri de constrangimento ou se chora de emoção quando Meryl Streep tem uma d.r. com Pierce Brosnan, olha para o lado e diz, dramaticamente, 'I don't wanna talk'...

...e você sabe que lá vem 'The winner takes it all'. O-ba. Tudo, tudo, tudo é pretexto para alguém cantar uma música do ABBA e, como se isso já não fosse o bastante, algumas alegorias do filme (como a impagável seqüência de 'Money, Money, Money') tornam tudo mais... mais...

...mais camp. 'Mamma Mia' é totalmente camp.


- Does your mother know that you're out?

Mas ainda falta. O filme pode ser um grande fiasco nos cinemas, mas se algum programador tiver a manha de exibir 'Mamma Mia' em alguma mostra de filmes gays ou sessão de meia-noite com hosts estimulando a platéia a, digamos, se soltar, tenho certeza de que o filme bomba. Bomba, no sentido de bombar, veja bem. Sente só:

Entendeu?

Tem tudo pra ser um clássico.

Take a chance on them.

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