Acho que já é público e notório que eu não estudei cinema. Trabalhei com produção de arte pra tv, mas não estudei cinema. Pesquiso sites de compartilhamento de vídeos on-line, o que é sim um estímulo para criar, uma forma de fazer um novo cinema, mas não estudei cinema. Fui estagiária da Cinemateca, cresci em salas escuras com telas enormes e luminosas, uma com pinturas de macacos na parede lateral, outras com balas coloridas pra comprar do lado de fora, outras eu era muito nova para ir sozinha, em outra era melhor não sentar nas fileiras da frente, a menos que você quisesse sentir um cheiro forte de cigarro que passarinho não fuma.
De todas essas salas - eram duas no Centro, das quais mal me lembro; uma no Cine Center, outra no Trade Center, outra numa galeriazinha e duas na praia de Icaraí, na pacata cidade de Niterói -, que me educaram tanto ou mais do que salas de aula, só sobrou o Cinema da UFF. O Cinema 1 chegou a respirar como Estação Icaraí, mas não vingou; uma virou bingo, outra virou loja fuleira, outra virou anexo chique do shopping, o Icaraí não vai ser salvo, a despeito de todas as manifestações, porque já foi vendido há muito tempo - e o Cine Windsor, aquele do Trade Center... acredita que ele ainda está lá? Fechado, sim, mas pelo estatuto do condomínio do prédio, é obrigatório ter um cinema ali. Até alguém bancar o espaço...
Mas o Cine Art UFF... esse é o único que continua vivo, firme e forte, exibindo filmes que já saíram ou mal entraram no circuito da cidade, abrigando mostras e lançamentos. Se ele está lá, é porque existe uma faculdade de cinema vinculada à instituição - que cria demanda, que cria programação. Apesar das mortes brutais das minhas escolas (literalmente, já que o Pio XI, escola de verdade também foi abaixo), Niterói tenta manter a vocação cinematográfica - há rumores da construção de um museu dedicado à sétima arte, o que será ótimo.
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Alguém aí viu um filme chamado 'Cada um com seu cinema'? São vários curtas de diretores renomados de diversos países, falando sobre cinema.
Pra uns, cinema é a arte da imagem-movimento/imagem-tempo.
Pra outros, cinema é trabalho.
Pra outros, cinema é memória.
Pra outros, ainda, cinema é o espaço físico onde são exibidos filmes. E eu ri com alguns episódios, me emocionei com outros, mas fiquei particularmente tocada com 'The Electric Princess House'.
(assiste aí, é bem curtinho)
Lembrei dos cinemas do Centro em dias de chuva, do Windsor e das balinhas, lembrei do Icaraí, daqueles macacos horrendos do Cinema 1, do panfleto com a programação do Cine Center, da adolescência indo sozinha ao Estação porque ninguém mais gostava do que eu gostava; de Godard a sessão tripla de Star Wars no Cinema da Uff, mas esse está lá, firme e forte, que bom. Mas dá vontade de chorar quando eu lembro, viu? Meus referenciais, e justamente os referenciais de cinema, que eu tanto aprecio, adoro e respiro, foram todos, ou quase todos, demolidos.
E essa faculdade de cinema que mantém o cinema funcionando em Niterói, que formou centenas de profissionais que hoje estão aí, escrevendo, filmando, dirigindo, produzindo e atuando, faz quarenta anos. De alguma forma, me considero produto dessa faculdade - afinal, papai se formou em uma das primeiras turmas, e agora é responsável por formar esse povo todo. Não é fácil crescer numa casa com um pôster enorme do Glauber Rocha na parede da sala, sabe?
Então não esqueça: o curso de Cinema da UFF faz 40 anos, eu tenho trinta, meu pai faz 57 no dia da zombie walk e 31 de outubro, às 20h, haverá uma homenagem aos 80 de Nelson Pereira dos Santos, também professor da Universidade.
Na rua Miguel de Frias, 9, Icaraí, Niterói.
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