Passei um ano sem entender o que aquele livro sobre a história da sexualidade fazia entre tantos textos sobre cinema, filosofia, olhar, memória, cibercultura. Claro! Óbvio! O tema é o de menos, mas a metodologia (hipótese, análise histórica, estudo do discurso) é fundamental.
Então resolvi testar o método de Foucault aqui, em Lounge, com um assunto um pouco mais simples. Vamos ver se eu consigo utilizar o conceito direito. Relevem.
A TV Japonesa é uma das coisas mais surreais já feitas por seres humanos. O país das Ganguro girls, Gothic lolitas, onde uma dança como Para Para faz o maior sucesso, onde a TV produz coisas como Dancing Sushi People...
Existem duas hipóteses para isso acontecer:
Uma, que talvez faça algum sentido, tem a ver com o sistema de escrita dos japoneses. No ocidente, com a escrita da esquerda para a direita, onde o significado das palavras é dado por combinações lineares de 26 letras mais alguns sinais gráficos, tudo geralmente organizado por sílabas mais ou menos predefinidas, onde o 'q' sempre vem com um 'u' depois, é tudo muito previsível e matemático, por assim dizer. É uma escrita racional, que só faz sentido com a soma dos caracteres. Já os japoneses têm suas palavras formadas por desenhos - em vez de somar caracteres e decodificar as palavras com base nessas combinações, as palavras lá são conceitos visuais - e, pra gente, são BEM abstratos. Afinal, ninguém diz que aquele desenho representa 'amor', 'vulcão' ou 'família'. De qualquer forma, uma vez que você entende isso, não tem necessidade do processo linear da esquerda para a direita: é bater o olho e reconhecer de imediato a figura. Isso pode levar a uma capacidade de abstração e de lidar comconceitos, ao invés de fórmulas, muito maior do que a nossa.
A outra hipótese é a Hipótese Kure Kure Takora.
Quem faz televisão no Japão provavelmente assistiu a mais 'Kure Kure Takora' na infância do que deveria.
'Kure Kure Takora' é um programa infantil dos anos 60/70 - um desses fabulosos programas com bonecos grandes, coloridos e fazendo comédia pastelão. As diferenças desse para todos os outros programas infantis feitos no planeta até hoje são:
- O sistema não-linear de leitura e codificação de sinais escritos do povo que produziu isso;
- Alguma coisa estranha na água do Monte Fuji.
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Acho importante que você tenha uma base teórica para começar a entender 'Kure Kure Takora', que em português quer dizer 'Polvo me dá me dá' e consiste exatamente isso: num polvo que quer tudo pra agora e não poupa esforços, junto com seus amigos (uma morsa, uma raposa e um freaking amendoim gigante), para conseguir - muitas vezes, o polvo quer apenas recuperar seu brinquedo. Outras, ele quer apenas torrar a paciência dos guardas.
Para começar a entender, o artigo da WFMU é um excelente começo. Eu disse 'começo' - a continuação do artigo está aqui. O discurso de apologia às drogas, às armas e ao desacato às autoridades é praticamente o tema do programa, e é válido no sentido de que o discurso excessivo também pode ser uma forma de controle - quanto mais polvo doidão de flit, mais a sociedade varre o tema para debaixo do tapete, provocando, assim, certas perversões culturais, como Oshirikajiri Mushi (um VÍRUS que CANTA)...
Oshirikajiri Mushi. Sinta medo.
Agora analise os fatos: a saga do polvo pidão tem pelo menos 715 amigos no site de relacionamentos Myspace. Entre eles, as 5-6-7-8's.
Faça como elas. Como Marcelo Birck e como o Rodrigo Kothe. Primeiro, leia a bibliografia mais ELUCIDATIVA que você já leu sobre qualquer assunto no universo. Calhou de ser sobre 'Kure kure Takora'. Em seguida, assista aos episódios.
Mas ver pelo blog talvez faça mais sentido, já que eles dão uma espécie de sinopse para que você entenda ALGUMA COISA.
Se a lavagem cerebral tiver surtido efeito, enfie o pé no Torrent.
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Desculpaê, Michel Foucault, onde quer que você esteja - mas é que eu precisava de um pretexto, só unzinho, pra falar besteira. Tenho pensado e feito muita coisa séria. Foi mal aí...
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Se o estimado leitor se animar, cada link desses leva a vários outros vídeos relacionados - um mais estranho que o outro...