'Brothers and Sisters' é uma série de ficção. É óbvio que os dramas e romances da família Walker passam longe do que conhecemos por 'dramas e romances do mundo real'. Das vidas do mundo real. O que faz 'Brothers and Sisters' ser tão cativante são as pequenas coisas, os pequenos diálogos e a grande coisa que existe por trás das tramas dos episódios e das falas: você pode não ir pra guerra, você pode não ser gay, você pode não ser uma assessora política, você pode não ter uma mãe como Nora Walker - mas uma família? Isso eu sei que você tem. Que seja apenas sua mãe, sua avó, seu pai, um tio. Que não tenha o mesmo sangue, mas divida o sobrenome e/ou o teto nos primeiros anos de vida. Você veio de algum lugar.
Janta junto todo dia, nunca perde essa mania
No meu caso, em especial, não me identifico tanto com o núcleo central familiar. Diferente da família "matriarca, cinco filhos e agregados", me acostumei desde cedo a ter duas casas - mas nunca, nunca, nunca "dois pais e duas mães", embora tenha tido dois responsáveis legais e seus cônjugues, totalizando quatro pessoas que cuidaram de mim (ainda cuidam) e me amaram (e ainda amam) incondicionalmente. Ao meu núcleo familiar principal, devo tudo o que consegui até agora - nada material (ainda), mas tenho certeza de que eles criaram uma mulher responsável, educada, inteligente e com um caráter digno de orgulho. A eles, e aos filhos que eles tiveram depois de mim e que merecem os mesmos adjetivos que acabo de mencionar (além de lindos, cara, lindos), devo todo o meu amor. Devo? Não, não, não devo. Simplesmente é assim. É incondicional.
Pausa: os vocais de apoio ensaiam um 'Family affair', até que Madonna, mais diva do que nunca, entra com 'Keep it together', aquela música que acho que só eu gostava:
O que me conquistou em 'Brothers and Sisters' não foram os jantares, apesar dos almoços de domingo na casa da minha avó. Definitivamente não foram os exageros de roteiro naqueles momentos de ostensiva união familiar. Não foram os assuntos sobre os quais não se deve falar - na série, a negação de Nora à possibilidade de seu filho não voltar da guerra; na minha ou na sua família, essa negação pode ser a respeito de qualquer assunto, vinda de qualquer membro, e teremos reações parecidas ou completamente diferente das retratadas na série: mas a negação está lá, não negue. Não foram os encontros em que o núcleo se expande, e você se lembra não da sua mãe e de seus irmãos, mas da família de onze filhos da sua avó; das festas de família, dos primos de segundo grau no aniversário da bisa, geral caindo na piscina, alguém bêbado e/ou sem noção, trenzinho no salão e 'Macarena' no som; dos entreveros por dinheiro, de como tudo vem à tona depois do enterro do avô, de alguém que disse o que não devia, das crises - e de como tudo passa, menos a família. Família é incondicional.
Porque tem isso, né? Você pode perder contato com um amigo, e nem lembrar mais que ele existe depois de anos. A mulher da sua vida, daqui a dez anos, pode ser ex-mulher e você pode não querer vê-la nem pintada de ouro depois. Ex-professores, ex-chefes, tanta gente transitória - mas não existe ex-mãe, se você me entende. E por mais que suas relações sejam conturbadas ou até mesmo inexistentes, eles podem nem estar lá para diálogo, conciliação ou o que quer que seja - mas, tanto na presença como na ausência, a existência dessas pessoas é peça fundamental da sua existência, da maneira como você foi criado, do seu processo de subjetivação. A existência da família é tão certa como a da morte - então por que negar? Por que lutar contra? E, a partir do momento em que você aceita-os como a base do que você é, por que não torná-los realmente uma base?
Família, família, cachorro, gato, galinha...
Cada um tem seus motivos, seu histórico, sua relação com sua família. Por mim, só posso dizer que, mais do que meu ponto de apoio, mais do que a entidade que eu sei que sempre estará lá se tudo der errado (e me orgulho de poder ir cada vez mais longe, sabendo que não sou apoiada incondicionalmente, mas sempre sob a condição de tomar decisões aparentemente sensatas e responsáveis), mais do que o único dispositivo de controle que realmente tem controle, não pela lei, mas pelo discurso, que sempre me pareceu sensato e, definitivamente, bilateral e aberto a propostas e discussões, mesmo que às vezes existam momentos ruins ou divergências de pontos de vista, são as pessoas que eu amo - não por dever, gratidão ou neurose, mas... mas... não tem motivo. Porque é assim e pronto.
Então hoje, depois da Maratona 'Brothers and Sisters' no Universal Channel, percebi que o que me conquistou na série foi o amor incondicional que existe ali, apesar das intrigas, dos problemas, das discussões, das picuinhas e das coisas que dão errado. Da série mostrar uma família anormal, verdade, mas que tem a instituição família como peça fundamental na construção dos caráteres. Como eu, a família é sempre o lugar pra onde você pode voltar, se precisar. E se você respeita e ama a sua como eu respeito e amo a minha, ainda vai chorar vendo um episódio de 'Brothers and Sisters'...
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Uma coisa engraçada: o 'Portocarrero', meu nome do meio, nunca teve nada a ver com a tradicional família Portocarrero: meu bisavô era Goldsmith, e resolveu se chamar Portocarrero porque achou legal. Daí cê vê...
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Um pequeno spoiler do final da segunda temporada, mas como já está há tempos no site oficial da série, acho que você pode saber: Rebecca não é uma Walker. Adivinha...?
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Top 5 músicas familiares
Titãs - Família
Madonna - Keep it together
Sister Sledge - We are family
The Cranberries - Ode to my family (apesar de que eu acho Cranberries chato pra dedéu)
e falta uma, ajuda aí.