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Traumas imaginários de infância

Jordy já dizia que é duro ser bebê. Concordo. O primeiro ano e meio da vida do ser humano deve ser muito traumático, a gente é que não lembra muito bem - mas observe os bebês alheios para comprovar o que quero dizer.

Você está lá, com dor de barriga, entediado, morrendo de calor, sendo levado por seus pais pra algum programa chatíssimo, nada que você possa manusear para descobrir sons (você ainda não conhece certos sons, e é muito divertido descobrir como eles são gerados!), nada muito colorido que você possa pegar e enfiar na boca, então você pergunta educadamente para sua mãe:

- Mãe, quando poderemos parar para que eu possa fazer cocô?

Claro, você não quer fazer cocô na frente de tanta gente, ainda que eles não façam a menor idéia do que acontece por baixo das fraldas. Sua mãe dá um sorrisinho e não dá a mínima para sua pergunta, porque provavelmente o que ela entendeu foi:

- Agadoi ogogogo nhããããã pababa! ah!

Só que você não sabe disso. Pra você, é inadmissível que aquela santa que te levou na barriga por nove meses, até hoje te alimenta todos os dias e com quem você terá que conviver por pelo menos mais vinte anos, não te entenda. Assim não dá. Se a comunicação já começa truncada, imagina como será na adolescência? Você cobra que ela faça um esforço para te entender, mas a cara que ela faz é como se você tivesse dito:

- Eeehh gogogogo! Ababrrrrrl!! Nhããããã!

Ela continua com cara de paisagem, achando bonitinho, mas ignorando o que você diz. Assim não vai ser possível! Se ela quiser fazer cocô, ela vai sozinha - você, não! Você depende dela pra sair do meio daquele monte de gente, e ela não dá a mínima para seus sentimentos. Chegou a hora daquela tática infalível para chamar atenção:

- UAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!!!!!! Iiiiiiiiihhhh!!!

"Pronto. Todo mundo olhando, vaca. Você não tem desculpa pra fingir que não me ouviu. Agora a gente vai ter um diálogo de mulher pra mulher", você pensa. Diálogo, que nada! Ela solta um "Ai, ai, ai!" tão ríspido que você fica até com medo. E berra mais ainda, de medo. Só que quanto mais você berra, mais ela parece irritada, e quanto mais irritada, mais ela te ignora. Cacete! Então você olha para a senhora sentada do seu lado (você está no colo) e percebe o olhar de compaixão da mulher. Sim, ela vai tomar partido! É agora que o bicho vai pegar! Mas a senhora abre a boca e diz:

- Ti foi? Bebê tá solando, é? Bububububu!

Esse mundo é muito estranho mesmo. Qual é o problema dessas pessoas, elas acham que só porque você não consegue se fazer entender, elas precisam falar feito idiotas?

Assim não vai ser possível...

* * *

Tudo isso porque hoje fiquei um tempo observando uma criança no ônibus, e as reações de seus pais e das pessoas em volta. Se você tem filhos ou pretende ter um dia, pense na sensação agoniante que é sonhar que grita e ninguém consegue ouvir sua voz. Estar num país estrangeiro de língua completamente diferente da tua, com outro alfabeto até, não conta - você faz mímica, desenha e se faz entender. A criança muito pequena não tem essa manha ainda. Sem nenhum tipo de comparação, isso também se aplica aos seus animais de estimação, que uivam, latem, sentem dores quando ficam velhos e a maioria das pessoas fica brava quando o bicho late freneticamente, sem tentar entender o motivo de tanto barulho. É mais ou menos por aí, até mesmo com adultos que falam a mesma língua: se esforçar pra entender, antes que o ruído aumente...

* * *
PBS Parents é um site onde você pode aprender a lidar com seus filhos feito gente, não como se eles tivessem algum problema sério de comunicação com o mundo.

Yo Gabba Gabba! é um programa de televisão para crianças pequenas, com classe.

Morou?
Lia Amancio. Comunicando
desde 1978.

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