Minha vida social andava meio mortinha. Entrei num casulo causado por dois anos de análise, comecei a meditar, o cara com quem eu acordava todo fim-de-semana morreu pouco depois de me deixar em casa, acordar cedo no sábado pra pedalar me fazia muito bem, e ainda dava tempo de fazer almoço, faxina e ler jornal... festas que começam à meia-noite e, pra aproveitar, você precisa chegar em casa às 4... bem, isso tudo pra mim não fazia muito sentido.
Além do mais, o rock sofre de um fenômeno desagradável: a interação homem-mulher só existe com segundas intenções. Comecei a ficar incomodada, porque ia para os lugares, música boa tocando, e ninguém se dignava a chegar perto da garota pra 'tirar pra dançar'. Que mundo é esse em que vivemos em que homens não chegam perto de mulheres, meu deus? Desaprovo.
E eu não conhecia outro universo. Quer dizer, logo ali do outro lado da Dutra, as festas rockabilly são bem animadas nesse sentido; mas aqui essas festas começaram recentemente, começam tarde e meus amigos que têm namorada não vão dançar comigo, mesmo sabendo que eu não represento o menor perigo (vê lá se eu quero saber de homem comprometido na minha vida? Sai pra lá!).
Então, já que o universo que me era familiar não era pra mim, fiquei no meu casulo e só saía dele pra situações que eu não conhecia muito bem (já que as situações que eu já conhecia andavam um pé no saco). Conheci o Mu e sua 'Bicicleta de Paraíba', um show de MPB aqui, outro ali, trabalho lá no fim do mundo, cansaço e mais reclusão voluntária. Curtir a casa me fazia muito melhor. Sumi mesmo da náite, com orgulho. Eu não precisava dela. Mas precisava de vida social e de dançar, e quando digo dançar era dançar, não apenas ficar no cantinho do palco batendo o pé e a cabeça.
Eis que ano passado descobri um workshop de dança, grátis, em Copa, aos fins de semana, Sabe aquele swing jazz das grandes orquestras dos anos 30 e 40? Era isso. Fui e fiquei. Se depender de ter swing jazz tocando no Rio de Janeiro, vou ficar mais reclusa do que já era - mas acontece que dançar a dois me levou pro universo da dança de salão. Eu já dançava flamenco, hula, sapateado... mas a dança a dois é um caminho sem volta. Você interage. Você não dança para uma apresentação no final do ano, mas pra poder interagir com outros seres humanos a qualquer dia da semana. E qualquer dia mesmo: escolha uma data, tem um baile acontecendo!
A bem da verdade, achava que dança de salão era um reduto de senhoras e adoradores de Emílio Santiago. Mordi a língua. Claro, bailes em clubes tradicionais de Copacabana serão assim mesmo, mas no geral tem muita gente da minha e da sua faixa etária. Muita música pop (pra dançar soltinho). Os sambas que tocam nos bailes costumam ser bons, porque as pessoas investem muito no samba aqui no RJ. Fiz amigos. Minha postura melhorou em 800%. Você não precisa ter parceiro, as pessoas dançam entre si, dão dicas, te ajudam a melhorar.
Não arrumei só amigos, claro. Não preciso entrar em detalhes, a única coisa que importa é que uma situação estranha puxou uma fagulha de orgulho, de "vou te mostrar como posso dançar pra caramba e ser uma parceira à altura". Mas não foi só orgulho. Realmente tomei gosto pela coisa. Como pode ter a moça ter feito UMA aula de forró e ter seu forró elogiado por dançarinos de verdade?
Foi a Bicicleta de Paraíba.
Um ano depois de ter começado, já não consigo mais me imaginar sem isso. A música já estava aqui dentro. Finalmente consegui arrumar uma maneira de botar pra fora.
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Claro, continuo uma nerd irredutível. Porque o lance é ir a fundo, pesquisar e fazer a difusão da informação, né?
Então se liga: Tenho uma coluna no site Dance a Dois, mantenho um blog só sobre Lindy Hop (a tal dança pra dançar com swing jazz, que eu AMO!) e o Mulheres no Salão, pra divulgar o workshop de mesmo nome, mas que não passa de uma ótima desculpa pra um papo-mulherzinha sobre dança, sobre cavalheiros, sobre o Patrick Swayze... e recomendo a dança a dois. Mesmo que você não tenha paciência pra fazer aulas, com um pouco de ritmo e muita cara-de-pau, você dança, sim, que eu sei.
Vai na fé. Depois vem aqui e me conta.